A decisão da Rússia de exigir que o pagamento das suas exportações de gás natural aos países “inamistosos” passe a ser feito em rublos, em vez de dólares ou euros, pode acelerar o processo de substituição do dólar estadunidense como moeda de referência internacional, em decorrência das sanções impostas ao país pela invasão da Ucrânia.
O presidente Vladimir Putin anunciou a medida em 23 de março, acrescentando que os volumes e preços dos contratos assinados com outros países serão mantidos, apenas a moeda de transação será mudada.
“Eu decidi implementar, no prazo mais curto possível, um conjunto de medidas para mudar os pagamentos pelo nosso gás natural fornecido aos assim chamados países inamistosos para rublos russos, para parar de usar nas transações todas as moedas comprometidas”, disse ele (RT, 23/03/2022).
Putin acrescentou que as decisões ilegítimas de vários países ocidentais, congelando reservas cambiais e ativos russos, destruiu a confiança em suas moedas.
Em 5 de março, o governo russo divulgou uma lista de países “inamistosos”, participantes ativos nas sanções contra a Rússia ditadas de Washington, Londres e Bruxelas: Albânia, Andorra, Austrália, Canadá, Cingapura, Coreia do Sul, EUA, Grã-Bretanha, Gibraltar, Ilhas Virgens Britânicas, Islândia, Japão, Liechtenstein, Macedônia do Norte, Micronésia, Mônaco, Montenegro, Noruega, Nova Zelândia, San Marino, Suíça, Taiwan, Ucrânia e União Europeia.
As sanções impostas à Rússia incluem o congelamento de cerca de um quarto das suas reservas cambiais, US$ 152 bilhões, que se encontram depositados em bancos comerciais e bancos centrais estrangeiros. Agora, o governo e o Congresso dos EUA se movimentam para sancionar o uso das reservas de ouro russas, estimadas em US$ 132 bilhões, armazenadas em Moscou e São Petersburgo.
Não obstante, um número crescente de países já sinaliza que não pretende acompanhar o bloco ocidental em tais medidas. Até mesmo um aliado histórico dos EUA, a Arábia Saudita, acaba de estabelecer um precedente histórico, ao aceitar receber yuans como pagamento de suas exportações de petróleo à China, em vez de dólares. Vale recordar que a decisão dos sauditas de somente aceitar dólares como pagamento pelo seu petróleo, em 1971, em acréscimo à decisão do presidente Richard Nixon de eliminar a paridade entre o dólar e o ouro, tomada pouco antes, constituem as fundações da financeirização da economia mundial nas décadas seguintes, possibilitando aos EUA consolidar o “sistema dólar” como pilar central da sua escalada hegemônica, que se aceleraria após a implosão da União Soviética, duas décadas depois.
Na mesma linha, a Índia e a Rússia acertaram um novo megacontrato de fornecimento de petróleo russo com o uso das respectivas moedas nacionais.
Ademais, a China e a União Econômica Eurasiática, encabeçada pela Rússia, estão engajadas no estabelecimento de um novo sistema monetário e financeiro desenhado para dispensar o dólar.
Outros países estão contemplando medidas semelhantes.
Apesar de parecer pouco, em relação ao enorme peso específico dos países engajados nas sanções, o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) se mostra preocupado com os seus possíveis impactos sobre o sistema financeiro internacional em sua forma atual. Em entrevista à revista Foreign Policy, a economista-chefe do Fundo, Gita Gopinath, que as sanções levarão alguns países a reconsiderar a confiança no dólar como moeda de reserva: “Provavelmente, nós veremos alguns países reconsiderando o quanto manterão certas moedas em suas reservas (RT, 23/03/2022).”
Segundo ela, embora o FMI não veja o risco de um “falecimento iminente” do dólar, uma “fragmentação crescente” no sistema de pagamentos globais será uma das consequências da crise na Ucrânia.
O Brasil tem reservas da ordem de US$ 362 bilhões, das quais 86% em dólares (e apenas pouco mais de 1% em ouro). É de todo conveniente que as lideranças nacionais comecem a perceber que a dinâmica global está se acelerando rapidamente.

Español
Msia Informa
