EUA: dívida, desdolarização e “desegemonização”

No sábado 3 de junho, após meses de negociações no Congresso, o presidente Joe Biden sancionou a lei de responsabilidade fiscal que suspende até 2025 o teto de US$ 31,4 trilhões para a dívida oficial dos EUA, apenas 48 horas antes da data limite de 5 de junho, após a qual o governo estadunidense seria considerado inadimplente.

A despeito de todo o sensacionalismo que acompanhou os acirrados debates sobre o assunto, ninguém em sã consciência esperava um desfecho diferente, como, aliás, já ocorreu várias vezes antes: invariavelmente, o Capitólio e a Casa Branca sempre se entendem para estender o limite de endividamento do país.

Na prática, pelas atuais “regras do jogo”, uma eventual inadimplência estadunidense é uma virtual impossibilidade, graças ao privilégio de emissão sem qualquer lastro do dólar, a moeda de referência para as transações financeiras e o comércio internacional. Como já disse o ex-presidente do Sistema da Reserva Federal, Alan Greenspan (1987-2006), “os EUA podem pagar qualquer dívida que tenham, porque sempre podemos imprimir dinheiro para isto. Então, a probabilidade de inadimplência é zero”.

Tal posição é compartilhada por muitos realistas financeiros, como os citados pela revista Forbes em um artigo de 23 de abril sobre o que o autor chamou a “loucura do teto da dívida”. Vejamos alguns deles:

* “No caso de governos que se jactam de soberania monetária e dívida denominada em sua própria moeda, como os EUA (mas também o Japão e o Reino Unido), é tecnicamente impossível incorrer em inadimplência da dívida” – Erwan Mahe, consultor de alocação de ativos europeus e estratégias de opções.

* “Como o único fabricante de dólares, cuja dívida é denominada em dólares, o governo dos EUA nunca pode tornar-se insolvente, isto é, incapaz de pagar suas contas. Neste sentido, o governo não depende dos mercados de crédito para manter-se operacional” – Banco da Reserva Federal de St. Louis.

* “Um governo soberano sempre pode fazer pagamentos na medida em que vencem, creditando contas bancárias – algo reconhecido pelo presidente [da Reserva Federal] Ben Bernanke [2006-2014], quando disse que o ‘Fed’ gasta aumentando o tamanho das contas de reserva dos bancos” – L. Randall Wray, professor de Economia da Universidade de Missouri-Kansas City.

* “No caso dos EUA, a inadimplência é absolutamente impossível. Toda a dívida do governo estadunidense é denominada em ativos em dólares estadunidenses” – Peter Zeihan, vice-presidente de Análises da STRATFOR.

Não se pode senão concordar com tais assertivas. No entanto, enquanto as ciências econômicas não avançarem para um conceito em que as emissões de moeda e as capacidades de endividamento dos governos sejam “lastreadas” nas capacidades produtivas dos países respectivos, esses conceitos têm validade apenas no contexto da globalização financeira deflagrada pelos próprios EUA em 1971. Naquele ano, o governo de Richard Nixon (1968-1974) desvinculou os valores do dólar e do ouro, enterrando o sistema de paridades monetárias relativas que foi um dos pilares da bem sucedida reconstrução econômica do pós-guerra e escancarando o caminho para a insana “financeirização” da economia global que caracterizou o último meio século. Manobra fortemente reforçada pelo acordo imposto por Washington à Arábia Saudita, o maior exportador de petróleo do mundo, para exigir apenas dólares como pagamentos pelas exportações do produto, gerando uma colossal demanda pela moeda emitida pela Reserva Federal.

Hoje, o cenário é bem outro. Em especial, a sucessão de equívocos das lideranças de Washington em relação ao confronto com a Rússia e a China, consideradas “potências revisionistas” e contestadoras da pretendida hegemonia dos EUA (cuja capacidade de sustentá-la vive os seus estertores), está gerando um forte movimento no sentido de reduzir o uso do dólar em transações comerciais, em favor do emprego de moedas nacionais, em paralelo com a possibilidade de estabelecimento de um sistema financeiro “extradólar”, baseado em uma cesta de moedas relevantes e recursos naturais.

Em essência, o impulso à “desdolarização” corre em paralelo com a “desegemonização” dos EUA, com o perdão do neologismo. Evidentemente, mudanças dessa magnitude não se impõem de uma hora para outra, mas a tendência demonstrada por elas é inequívoca. A pergunta do trilhão (de dólares) é saber se as lideranças estadunidenses aceitarão para o país um papel de grande relevância, mas não hegemônico, no novo cenário multipolar emergente, ou se se empenharão em defender a efêmera e já moribunda hegemonia desfrutada no período pós-Guerra Fria, mesmo que à custa de um novo conflito global de proporções potencialmente apocalípticas.

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