O caso do First Republic Bank

O First Republic Bank (FRB) de San Francisco, o décimo-quarto maior banco dos Estados Unidos, fechou as portas. É a segunda maior falência da história bancária estadunidense, depois da do Washington Mutual, em 2008. Para evitar que causasse uma avalanche financeira e acalmar os mercados, pelo menos temporariamente, foi organizada uma “operação especial” público-privada.

Na condição de curadora falimentar, a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), a agência de regulamentação bancária, assumiu o controle do banco e, simultaneamente, o vendeu ao JPMorgan Chase (JPMC) de Nova York, o maior banco estadunidense e rei indiscutível dos derivativos financeiros especulativos. Ele ficará na posse dos US$ 103,9 bilhões em depósitos e US$ 229,1 bilhões em ativos do FRB, dos quais US$ 173 bilhões em empréstimos e US$ 30 bilhões em títulos.

O JPMC pagou US$ 10,6 bilhões pela compra e o fundo de garantias da FDIC deve entrar com US$ 13 bilhões para cobrir os prejuízos sofridos pelos correntistas do FRB. A FDIC, que garante depósitos de até US$ 250 mil, deve assumir a responsabilidade por US$ 50 bilhões em empréstimos e créditos do FRB. Em outras palavras, a maior parte do resgate recairá nos ombros do público.

Tenha-se em mente que nos depósitos citados estariam incluídos US$ 92 bilhões de ajudas anteriores, 30 bilhões dos quais sob a forma de empréstimos concedidos pelos 11 maiores bancos estadunidenses e os restantes pela Reserva Federal e outras entidades públicas. Serviram apenas para ganhar tempo e evitar o colapso imediato.

O colapso do FRB é pedagógico. No início de março, quando o foi anunciada a falência do Silicon Valley Bank (SVB), as ações do FRB ainda valiam US$ 115 bilhões; hoje, valem quase nada. Já nos primeiros três meses do ano, US$ 102 bilhões de depósitos “fugiram” do banco. De fato, como os outros dois bancos falidos anteriormente, SVB e Signature, o FRB entrou em colapso sob o peso de empréstimos e investimentos em títulos que perderam bilhões de dólares em valor, como resultado da política da Reserva Federal de aumentar as taxas de juros para combater a inflação. Como resultado, muitos clientes, especialmente os ricos, começaram a retirar o seu dinheiro e os investidores se desfizeram de suas ações, desencadeando também uma crise de liquidez.

O CEO do JPMC, Jamie Dimon, espera que esta fase de elevada instabilidade financeira se acalme, embora admita que “poderá haver algum outro caso menor”. Mas, acrescenta, os investidores ainda estão expostos aos riscos criados pelos aumentos das taxas de juros do “Fed” e seu impacto sobre os ativos, incluindo os imóveis.

Apesar das muitas garantias, teme-se que as crises bancárias “agudas” se tornem “crônicas”. Os efeitos macroeconômicos do estresse bancário podem estar apenas na sua infância.

Nos Estados Unidos, acredita-se que o “Fed” administrou mal a política de juros, com altas que foram, primeiro, tardias e, depois, muito concentradas. Com efeito, em 12 meses a taxa aumentou 5%, choque inferior apenas ao da década de 1980. Além disso, como admitiu ao Congresso até mesmo o vice-presidente do banco central, Michael Barr, o “Fed” tem falhado em supervisão e regulamentação bancária.

As falências mostraram que cerca de um quarto da chamada carteira bancária nos EUA é constituída por títulos que perdem dinheiro com as taxas de juros atuais. De fato, continua a ser significativo o risco de fuga generalizada de depósitos dos bancos regionais para os maiores e para os fundos do chamado sistema bancário paralelo. Isto levaria, também, a uma redução dos créditos à economia. Os efeitos indesejáveis ​​da liquidez criada às mancheias e a baixo custo são palpáveis. Hoje, o “Fed” corre o risco de cometer o mesmo erro: subestimar as consequências sistêmicas de suas políticas atuais.

Naturalmente, os bancos “grandes demais para falir” estão se aproveitando da política do “Fed”. Isto fica evidente por um número surpreendente: no primeiro trimestre de 2023, o JPMC obteve US$ 21 bilhões em lucros com taxas de juros, mais de 50% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Como as taxas dos depósitos de clientes eram e continuam baixas, o banco ajustou-se rapidamente ao aumento das taxas de empréstimo e investimento.

As muitas intervenções de resgate destacam alguns problemas críticos que logo serão sentidos. Em primeiro lugar, eles exacerbam a concentração bancária, os grandes bancos tornam-se maiores e grandes demais para serem administrados. Em segundo lugar, a confiança na FDIC e sua capacidade futura de garantir todos os depósitos está sendo prejudicada. O que é muito preocupante.

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