“A globalização acabou” – e agora?

“A invasão russa da Ucrânia pôs um fim na globalização que temos experimentado nas últimas três décadas.”

A afirmativa é tão contundente quanto representativa, vinda de quem veio – ninguém menos que Larry Fink, o todo poderoso CEO do BlackRock, o maior fundo gestor de ativos do mundo, de cima dos US$ 10 trilhões de ativos que fariam de sua empresa o terceiro PIB (Produto Interno Bruto) do planeta se fosse uma economia nacional.

Uma das consequências, segundo ele, será uma renacionalização das cadeias produtivas, pois “companhias e governos estarão também estarão prestando atenção mais amplamente nas suas dependências de outras nações”. Isto, afirma, “pode levar as companhias a trazer de volta ou para perto as suas operações, resultando em uma saída mais rápida de alguns países”. Entre os que poderão se beneficiar do processo, ele aponta o México, Brasil, EUA e os centros manufatureiros do Sudeste Asiático, embora não explique como.

Outro problema apontado é um retardamento da agenda climática do “carbono zero”, devido à necessidade de os países europeus, asiáticos e os EUA buscarem novas fontes de energia independentes da Rússia, sendo obrigados a recorrer aos tradicionais petróleo, gás natural e carvão, embora ele se mostre otimista no longo prazo, presumindo que a necessidade irá acelerar a busca pelas fontes “limpas”.

Estes e outros prognósticos listados na carta aos acionistas do BlackRock, divulgada em 24 de março,  se somam aos feitos por outros próceres do sistema financeiro “globalizado”, que reconhecem o ponto de inflexão gerado pelas repercussões da operação militar russa. Martin Wolf, o principal comentarista econômico do jornal Financial Times, já fala na “desglobalização”, com a formação de um bloco “democrático” encabeçado pelos EUA e a Europa e outro “autocrático” liderado pela China e a Rússia, como afirmou em entrevista ao “Estadão” de 20 de março (Resenha Estratégica, 23/03/2022).

Embora Fink e Wolf não tenham comentado o fato, outra estrela do Financial Times, o jornalista alemão Wolfgang Münchau, apontou o dedo para o fato óbvio de que a invasão em si não é o principal catalisador do retrocesso “globalista”, mas a ensandecida reação das potências ocidentais a ela, em especial, as sanções econômicas e financeiras impostas à Rússia, isolando-a do sistema financeiro controlado por Washington, Nova York, Londres e Bruxelas e “congelando” as suas reservas cambiais mantidas no exterior. Em sua coluna de 13 de março no blog Euro Intelligence, ele comenta as repercussões da decisão:

Nós não pensamos isso direito. Pois um banco central congelar as contas de outro banco central é um assunto realmente sério. Economicamente, o que isto significa é que todo o Ocidente transatlântico ficou inadimplente quanto ao nosso ativo mais importante: a nossa moeda fiduciária. As reservas do banco central russo eram ganhos de vendas legítimas, a maioria para o Ocidente. Tribunais podem congelar ativos obtidos ilegalmente. Mas este não foi o caso. A Rússia violou o Direito Internacional ao invadir a Ucrânia. Mas as contas do seu banco central no exterior são legais.

Com esta única sanção, nós fizemos o seguinte: enfraquecemos a confiança no dólar estadunidense como a principal moeda de reserva do mundo; evitamos qualquer desafio que o euro pudesse vir a fazer [ao dólar]; reduzimos a credibilidade dos nossos bancos centrais; incentivamos a China e a Rússia a contornar a infraestrutura financeira ocidental; e convertemos o bitcoin em uma moeda respeitável para transações alternativas. (…)

Ainda mais bizarra foi a atitude do Banco de Compensações Internacionais (BIS) de Basileia, o chamado banco central dos bancos centrais, que suspendeu o acesso do Banco da Rússia aos seus serviços, apesar de este ser um dos seus sócios integrantes. A medida é inusitada na história do BIS, não tendo sido tomada nem mesmo durante a II Guerra Mundial, quando o banco serviu como intermediário para transações financeiras entre os países beligerantes, o que beneficiou particularmente a Alemanha nazista, ajudando-a a reduzir os efeitos do bloqueio financeiro imposto pelos Aliados ocidentais.

Aliás, o banco, criado em 1930, oficialmente, para administrar as reparações impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes, foi um dos principais baluartes financeiros do regime de Adolf Hitler em seu início, inclusive, com a reciclagem dos pagamentos das reparações feita por bancos ingleses, franceses, belgas e holandeses. Mais tarde, diante da iminente derrota alemã, foi também um dos condutos da transferência para fora da Alemanha dos ativos financeiros de numerosas empresas alemãs e do butim (ouro, reservas monetárias, etc.) capturado pelos nazistas na Europa ocupada. Tais transações financeiras entre o Eixo e os Aliados constituem um dos episódios menos conhecidos do conflito mais devastador da História, e o fato de o BIS ter mantido na época os “negócios como sempre”, ao contrário do que fez agora com a Rússia, em circunstâncias incomparavelmente menos graves, é indicativa do desespero dos próceres da alta finança globalizada diante da evidente erosão da hegemonia do Ocidente.

Em suas frequentes intervenções públicas durante o conflito, o chanceler russo Sergei Lavrov tem batido na tecla de que o mundo vivencia uma mudança histórica, como fez em uma entrevista à mídia sérvia, em Moscou, em 28 de março, respondendo a uma pergunta sobre o suposto isolamento da Rússia:

Não existe isolamento e isto é citado exclusivamente por aqueles que, mental e ideologicamente, resignam-se à inevitabilidade de uma ditadura ocidental no cenário global. Esta ditadura é apoiada primariamente pelo próprio Ocidente e abomina perder suas posições. O Ocidente tem sido o jogador dominante do mundo por mais de 500 anos. Agora, uma era diferente – a formação de uma ordem internacional multipolar – está aqui. Os centros globais de desenvolvimento econômico que perseguem uma política orientada nacionalmente se ergueram e não querem aceitar os valores neoliberais impessoais impostos ao mundo pelo Ocidente. Eles querem se basear na sua história, tradições e valores, inclusive valores religiosos. Em grande medida, eles são comuns a todas as religiões mundiais. (…)

É preciso respeitar uns aos outros, em vez de imporem os pseudovalores de uns de uma maneira agressiva. Estes só têm existido por um curto período. Eles apareceram com o desenvolvimento do neoliberalismo e são usados para descontinuar culturas e civilizações milenares. Este caminho não tem saída. Essas tentativas continuarão por um tempo, mas estão condenadas na perspectiva histórica. Estrategicamente, essa política se verá em completo isolamento.

O grande escritor francês Victor Hugo dizia que nada é tão poderoso como uma ideia que chegou no tempo certo. Bem antes dele, os gregos já se referiam ao “Kairós”, o tempo oportuno para uma determinada ação, conceito apropriado pela filosofia cristã como o “tempo de Deus”, em oposição a “Cronos”, o “tempo dos homens”. A todas as luzes, o mundo experimenta um momento “Kairós”, regido pela poderosa ideia de que não há mais espaço no mundo para hegemonias de uma nação ou um bloco delas, empenhadas em impor os seus valores e interesses às demais. Em essência, a “globalização” oferecida pelo Ocidente está esgotada. Agora, o desafio é construir e consolidar um novo sistema cooperativo e não hegemônico de relações internacionais, para o qual um número crescente de países já está se inclinando.

x

Check Also

O caso do First Republic Bank

O First Republic Bank (FRB) de San Francisco, o décimo-quarto maior banco dos Estados Unidos, ...