Lunáticos no hospício neoliberal

André Araújo

O economista e banqueiro Persio Arida, entrevistado no programa Globonews Central de Eleições de 22 de agosto, desfilou o seu programa econômico da candidatura do PSDB para um time de entrevistadores simpáticos à ideologia neoliberal de mercado. O seu receituário é mais do que conhecido, tudo pelo mercado e nada pelo Estado, o mercado resolverá tudo, desde que restabelecida a confiança que ele, Arida, representa.

Com a confiança, virão os investimentos, naturalmente, estrangeiros em maioria, que serão destinados a projetos de infraestrutura, e aí se criarão empregos. Perguntado se  tinha um plano emergencial de emprego para os 14 milhões de desempregados, Arida disse que o Estado não tem nenhum papel no desemprego. Na realidade, os desocupados, segundo o IBGE, são 64,6 milhões, somando desempregados que procuram emprego, os que já desistiram, os subempregados, os biqueiros e biscateiros; a massa dos mal de vida, somando seus dependentes, chega a 85% da população brasileira.

Arida não se comoveu, insistiu que basta restabelecer a confiança que tudo se resolve. Será preciso avisar outros grandes países que invocam o Estado para intervir, porque o mercado não é vocacionado para resolver problemas sociais, nunca foi e não tem o poder de dirigir sozinho a economia, de forma que toda a população seja atendida. Aliás, o Estado existe para alguma coisa e, entre elas, não deixar a população morrer de fome. Os liberais americanos de 1933, como o Presidente Herbert Hoover e Eugene Meyer, então chairman do Fed, pensavam como Arida, o Estado não pode fazer nada para resolver o problema do emprego, mas Franklin Roosevelt, assessorado por Keynes, pensava diferente e os dois salvaram da catástrofe social a população americana, usando o Estado como instrumento de revigoramento da economia, com pleno sucesso, desafiando os ortodoxos.

Se os eleitores americanos acreditassem que o mercado resolve tudo, jamais teriam votado e eleito o presidente Trump, cuja promessa é usar o Estado para intervir na economia e criar empregos, que é o que ele está fazendo. Mais ainda, uma das duas metas estatutárias do banco central americano, o Federal Reserve System, criado em 1913, com obrigações legais claras e definidas, não é só assegurar estabilidade monetária, essa é uma das obrigações; o Fed é um instrumento do Estado, também tem que usar a política monetária para assegurar o emprego, as duas obrigações têm a mesma importância.

Portanto, está implícito que o Estado americano tem sim obrigações com o emprego. Já Arida acha que o Estado brasileiro nada tem a ver com isso, basta criar confiança, coisa simples, o resto vem automaticamente; perguntado em quanto tempo, ele não soube responder, talvez 30 anos.

Mas quem achava Arida um neoliberal de carteirinha, não viu nada. No dia seguinte, 23 de agosto, foi entrevistado no programa o economista Paulo Guedes, guru econômico do candidato Bolsonaro. O homem parecia um alucinado, praticamente não aceitava perguntas, fez um discurso de fanático religioso, uma catarata de estatísticas, chutes numéricos, avaliações estapafúrdias, em uma hora, poucas vezes se viu tal concentração de asneiras, perto dele, Pérsio Arida é um sábio moderado, pelo menos não é agressivo, dentro da lógica dele, tenta ser racional.

Paulo Guedes se propõe a privatizar tudo e todos os bens do Estado, não vai deixar escapar nada, nem o prédio do Ministério da Fazenda no Rio, que ele citou nominalmente como mercadoria para venda rápida. Esqueceu do Forte de Copacabana, que pode pegar um bom dinheiro.

Não só todas as estatais, também todos os imóveis da União, que ele estimou serem 700 mil e que em outro chute avaliou em R$ 1 milhão cada, tudo coisa de hospício, nenhum desses números tem qualquer âncora no mundo real, é papo de boteco. Vendendo tudo, ele pensa em arrecadar R$ 2 trilhões rapidamente, que ele vai usar para pagar a dívida pública, investimentos públicos, nem pensar. Mais ainda, ele vai fazer tudo isso logo de cara, os compradores vão fazer fila, faltou elencar na prateleira a venda do Amapá, do Acre, da ilha de Marajó, do Pão de Açúcar, das Cataratas do Iguaçu e da Floresta da Tijuca.

Quanto ao BNDES, ele foi agressivo, não quis nem saber. O BNDES tem que mandar todo seu caixa e tudo o que receber dos devedores para o Tesouro, raspar o Banco, não tem que emprestar mais nada, o dinheiro vai para o bolo que se destina à dívida pública, o banco está devendo, segundo ele, mais de 220 bilhões.

O alucinado passou uma hora falando nesse tom messiânico. Indagado se conseguiria as necessárias aprovações do Congresso para vender tudo, nem tomou conhecimento, disse que isso será fácil e rápido, todo mundo vai aprovar tanta genialidade, porque não há outra saída, ele vai convencer todos, inclusive o Congresso, que ou faz isso ou acaba o Brasil. Não me lembro de ter ouvido discurso nesse tom de nenhum economista, foi um espetáculo para um profeta bíblico.

Guedes desfilou cifras fantasmagóricas de centenas bilhões de reais, que ele irá conseguir em um passe de mágica, estalando os dedos. Quando perguntado sobre “como” arrumar de forma tão rápida e fácil tantos “bilhões”, ele ficava impaciente: “Eu vou mostrar que precisa ser assim e todo mundo vai ver que não tem outro caminho, e todos vão aprovar.” Nem Mussolini se avocou tanto poder de fazer acontecer, um projeto de ditador econômico, perto dele, Delfim é um pacífico amanuense do Ministério da Fazenda.

Com a fama que o precedia, esperava-se de Guedes um plano mais racional e estruturado, com alicerces na realidade política, mas não foi isso que se viu na entrevista na Globonews.

Os entrevistadores ouviram quase mudos um discurso autoritário de “eu vou fazer isso e pronto”, com o poder que nem o Governo militar de 1964 pretendeu ter sobre o orçamento.

Guedes vai acabar com todas as vinculações de saúde e educação, a prioridade absoluta é a dívida pública, o resto vem depois, ele quer impor suas ideias e ponto final, os entrevistadores tentavam inutilmente mostrar a ele que estamos em uma democracia, mas isso não o comovia.

Disse muito mais asneiras, disse que todo mundo bateu palmas para o Pedro Parente quando ele vendeu grandes pedaços da Petrobras. Mas quem foi que bateu palmas para o Pedro Parente? Só se foi no Instituto Millenium, do qual Guedes é fundador. Disse que o sistema chileno de previdência é uma maravilha, todo mundo aplaude, vai fazer igual no Brasil, quando é exatamente o contrário, o sistema está caindo aos pedaços (vide link no Los Angeles Times). Foi um show de afirmações malucas em tom salvacionista, não admitia contestação e nem perguntas, o time ouvia meio chocado, o pessoal da Globonews mal abriu a boca, foi um discurso furioso de uma hora do Napoleão neoliberal.

Guedes  fez comparações históricas estapafúrdias, na linha que “agora tudo é assim”, “agora tudo vai para esse lado”. Esqueceu que a China tem 70% da economia estatal e que 13 das 20 maiores empresas de petróleo do mundo são estatais e que sua ideia de acabar com o Estado só está na cabeça dele, o Estado americano está mais presente que nunca na economia, assim como o da Índia, Rússia, China, França, Itália, cuja estatal Enel acaba de comprar a Eletropaulo, e na Noruega, cuja estatal Statoil (que acaba de mudar o nome para Equinor) é a maior compradora de poços do pré-sal, ninguém  está desmantelando o Estado em lugar nenhum, não existe onda de privatizações nem na América Latina, nem na Ásia, nem na Europa, todos os países estão endividados com relação ao PIB em proporção parecida ou maior que a do Brasil, mas ninguém sonha em desmantelar o Estado para pagar a dívida.

Guedes citou a Revolução Francesa como início do liberalismo, quando esta foi uma sangrenta ditadura que nada teve de liberal, um exemplo completamente fora de lógica.

A Revolução Francesa trocou de mãos o Estado, saíram os reis entraram os ditadores, estatizou todas as terras da Igreja, que era a maior proprietária de terras da França. A Revolução Francesa foi o ninho da esquerda que lá nasceu, antessala do Império Napoleônico, depois seguido pela Restauração Bourbon, onde ele viu exemplo de regime aberto?

Esse neoliberal de almanaque esqueceu de dizer que a crise de 2008 acabou com o neoliberalismo de Chicago, de onde Guedes veio. O capitalismo americano do livre mercado foi salvo pelo Tesouro, o neoliberalismo da Escola de Chicago foi desmoralizado até na própria Universidade de Chicago, que hoje não carrega mais o legado de Milton Friedman, exilado para a Universidade Carnegie Mellon, de Pittsburgh, a cargo do herdeiro intelectual de Friedman, Alan Meltzler, morto no ano passado.

O outro grande economista americano, Alan Greenspan, não seguia fórmulas e sim as circunstâncias, expandia o dinheiro quando precisava e, assim, assegurou a prosperidade americana por 18 anos. Seus sucessores, Ben Bernanke e Janet Yellen, usaram o “quantitative easing”, jogando liquidez na economia para não deixar cair o emprego, nenhum deles seguiu o rígido controle da moeda, que era essência do monetarismo de Chicago, a mesma linha que segue o Banco Central do Brasil. Friedman foi um frontal crítico do Fed de Greenspan, porque esse expandia a moeda para assegurar o emprego, Friedman tinha alergia a isso.

Mas Friedman, um homem intelectualmente honesto, já no fim da vida teve a grandeza de dizer que Greenspan mostrou que ele, Friedman, estava errado ao estabelecer um controle rígido da moeda. Friedman disse que Greenspan, partidário de uma política monetária flexível, estava certo, mas esqueceram de avisar aos monetaristas brasileiros do tipo Paulo Guedes. Segue a confissão de Friedman: http://www.philipji.com/item/2011-04-11/milton-friedman-on-alan-greenspan.

O Prêmio Nobel Paul Krugman é hoje o maior crítico das teses ideológicas de Friedman, pelas quais “o mercado sempre funciona”, a mesma tese de Arida e Guedes; tanto não funciona sempre, que a crise de 2008 só foi resolvida pelo Estado, pondo por terra a crença ultraideológica de Friedman, que tanto males causou ao mundo, patrocinando uma concentração de capital que hoje é vista como um megaproblema mundial.

Alan Meltzler, que morreu no ano passado, legatário de Friedman, foi um crítico frontal da salvação de empresas pelo Tesouro na crise de 2008, dizia que devia ser deixar que elas quebrassem, porque esta é a tese do livre mercado. Mas o Governo dos EUA não se deixou levar por teorias, e sim pelas consequências sociais da quebra de uma General Motors e de um Citibank; salvou as empresas e jogou o monetarismo de Friedman e Meltzler no lixo da História, recolhido pelos lixeiros brasileiros tipo Arida e Guedes, que ainda se guiam por teorias de cartilha aprendidas na escola dos anos 90, esquecendo que economia é circunstância, segundo Keynes, cada momento tem sua ferramenta. Há cérebros brasileiros que entendem isso muito bem, como Delfim Neto.

Lembrem-se que Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga”, foi o mesmo que incentivou Luciano Huck a ser candidato, outra maluquice com o objetivo de manipular um laranja para realizar o Programa Terra Arrasada desse neoliberal da Escolinha do Professor Raimundo.

Paulo Guedes é um dinossauro ideológico, mas não rasga dinheiro. O grupo Bozano, do qual ele faz parte, foi o maior operador e beneficiário da conversão das 47 moedas podres trocadas pelo Notas do Tesouro Nacional no governo FHC, uma das maiores operações da história financeira do Brasil, troca que está na base do grande crescimento da dívida pública federal, que era muito pequena no início do Governo FHC e hoje chega quase a 80% do PIB. Guedes está obcecado em pagar a dívida pública, do qual seu grupo foi grande beneficiário, assim é a vida: vamos acabar com o Estado brasileiro, mas antes vamos pagar a dívida pública, que lindo.

A consequência política da cruzada moralista aí está: gurus dos “mercados” querendo liquidar o Estado nacional, esquecendo que dentro deste Estado estão 200 milhões de almas, das quais 64 milhões estão sem ocupação que lhes proporcione alguma renda, sua única forma de sobrevivência é o Estado, porque os “mercados” dos quais Arida e Guedes são oráculos, não têm obrigação alguma com a população brasileira mal de vida, os mercados cuidam só dos “deles”.

2 comments

  1. A crítica ao Guedes tem algumas alegações de fato verdadeiras, mas é extremamente exagerada e em alguns pontos mentirosa, como em relação ao Huck, que na verdade Guedes foi convidado por ele e não o contrário. Quanto ao endeusamento ao Arida, não há como refutar sua competência, mas o autor só esquece que está se referindo ao PSDB, partido que se uniu ao PT para implantar uma verdadeira KGB fiscal tributária e trabalhista nos níveis estadual e federal, que resultou em engessamento da livre iniciativa, freio ao desenvolvimento, desemprego, desaquecimento da economia e consequente diminuição da arrecadação de tributos. Entre quem promete com a certeza de que nada cumprirá e quem promete com a possibilidade de realizar mesmo que só pequena parte, não tenho dúvidas em escolher o segundo.

    • A questão brasileira é muito mais complexa. Vai muito além de Pérsia Arida ou Paulo Guedes. Acontece que está há tempo, em gestação, uma “NOVA ORDEM MUNDIAL”. Neste cenário, compete ao Brasil exatamente esse papel, avanços e recuos, para sempre voltar ao local de partida. O eterno país do futuro. Carecemos de uma “inteligência” nacional, um projeto de país, um projeto de nação. Estamos sempre recomeçando e por consequência descobrindo o óbvio. Tudo que se faz aqui só tem uma finalidade, manter o moribundo respirando. Pois não interessa ainda, “matar o doente da cura”. Os messias aparecem periodicamente, para dar um alento ao Sistema. Há Esquerda ou à Direita. Ambos operam apenas como cortina de fumaça. PORQUE A QUESTÃO NÃO É O ESTADO MÍNIMO OU MÁXIMO, MAS O ESTADO NECESSÁRIO! Temos a massa crítica para sair de marasmo, a questão é querer.

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