A “Nova Economia para uma Nova Era”, nova investida para a “financeirização” da Amazônia

A manchete do “Estadão” de 13 de agosto estampou com destaque: “Brasil pode ganhar R$ 2,8 trilhões com ‘economia verde’, diz estudo.” E no subtítulo: “Segundo relatório, até 2030 País poderia incorporar uma Argentina a suas riquezas, além de criar mais 2 milhões de postos de trabalho.”

Nada mau, pensaria o leitor, ainda mais com o País mergulhado na maior crise socioeconômica da sua história, agravada pelos efeitos devastadores da pandemia de Covid-19 em uma economia que já vinha de cinco anos de estagnação. Todavia, a leitura da reportagem de Giovana Girardi revela apenas mais um estudo de uma ONG porta-estandarte do aparato ambientalista internacional, com esdrúxulas propostas para a conversão plena do Brasil à agenda do “Reinício Verde” (Green Restart), que a alta finança “globalizada” está se empenhando em impor ao mundo como a linha mestra da reconstrução pós-pandemia.

O estudo, intitulado “Uma Nova Economia para uma Nova Era”, foi elaborado pelo escritório brasileiro do World Resources Institute (WRI Brasil) e seu braço político, a New Climate Economy, em cooperação com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Climate Policy Initiative (CPI), Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/UFRJ), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

A reportagem sintetiza assim as conclusões do estudo:

O movimento de recuperação da economia, após o abalo provocado pela pandemia de Covid-19, pode gerar 2 milhões de empregos e adicionar R$ 2,8 trilhões ao PIB brasileiro, além de ajudar o País a se tornar mais resiliente às mudanças climáticas, caso os investimentos forem direcionados para uma economia mais verde. Isso representaria um crescimento de 38% em relação ao PIB de 2019, que foi de R$ 7,3 trilhões – é como incorporar uma Argentina aos recursos do Brasil. (…)

O trabalho focou estratégias que poderiam ser adotadas em três setores estratégicos da economia brasileira: infraestrutura, indústria e agronegócio. Em infraestrutura, a ideia é desenvolver “projetos de qualidade” – como define o estudo – e que não prejudiquem o meio ambiente. Elas podem se valer, por exemplo, dos próprios recursos da natureza e de soluções renováveis, como a energia solar.

“Uma infraestrutura de qualidade reduz os custos e impactos da degradação ambiental e permite maior resiliência a eventos extremos cada vez mais intensos e frequentes”, aponta o relatório.

Na indústria, a proposta é inovar a partir de tecnologias sustentáveis que reduzam o consumo de combustíveis fósseis, os principais responsáveis, globalmente, pelo aquecimento do planeta.

Na agricultura, a direção é o aumento da eficiência a partir de um uso mais eficiente do solo, reduzindo, por exemplo, a pressão sobre a Amazônia. Uma nova e importante frente de investimento é a recuperação de 12 milhões de hectares de pastagens degradadas. O cálculo é que o setor poderia ganhar R$ 19 bilhões em produtividade agrícola até 2030.

Todas as ações propostas juntas poderiam promover, de acordo com a pesquisa, uma redução de 42% nas emissões de gases de efeito estufa do Brasil até 2025, em relação a 2005 (grifos nossos).

Se o leitor estiver farejando a repaginação da agenda da “financeirização verde”, que temos exposto neste Alerta, não se equivoca (ver, p.ex., a edição de 2 de julho). A própria coordenadora do estudo, Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil, ajuda a definir a motivação do estudo:

Em qualquer crise, investir em infraestrutura é em geral o plano A para a recuperação de emprego. Mas o Brasil está há 30 anos tentando fazer isso. O País vai precisar atrair investimento privado, internacional, mas como vai fazer isso sem um “selo” de desenvolvimento sustentável, sem garantir que uma determinada obra não vai ter conflito socioambiental?

De forma um tanto hipócrita, Genin omite que há três décadas o desenvolvimento da infraestrutura no País tem sido sistematicamente obstaculizado, não só pelas políticas econômicas liberais adotadas pelos governos nacionais desde a década de 1990, mas, não menos, pela feroz campanha antidesenvolvimentista movida pelo aparato internacional de ONGs ambientalistas e indigenistas.

Igualmente, sugere que o Brasil não teria outra opção para o seu desenvolvimento, exceto submeter-se aos ditames desse aparato intervencionista e da alta finança privada que o controla.

Genin é uma experiente tecnocrata do aparato “verde”. Seu currículo no sítio do WRI Brasil informa que ela é formada em Comunicação Social pela PUC-Rio e tem mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science. Além disso, tem experiência jornalística (agência de notícias ambientais O ECO e TV Globo) e como gestora do portfólio de sustentabilidade da Porticus Latin America e gerente de Redes e Relações Externas no Global Canopy Program em Londres, “estabelecendo estratégias de comunicação para políticas florestais e climáticas em nível nacional e global”.

Em sua coluna no Globo de 14 de agosto, a jornalista Míriam Leitão fez a apologia do estudo:

(…) Foi isso que o WRI Brasil fez para calcular o quanto o país tem a ganhar se escolher uma nova forma de produzir na retomada da economia. O mundo inteiro está discutindo isso – é o chamado green new deal – e a conclusão mais inteligente (sic) é que adotando medidas para converter a economia para novos padrões de baixa emissão o país cresce mais e melhor. E gera mais empregos. (…)

Essa é exatamente a essência da agenda ambientalista que a oligarquia financeira global se empenha em oferecer ao mundo, com a pretensão de converter as emissões de carbono em um novo índice econômico-financeiro, um “selo de qualidade” ao qual se subordinem virtualmente todas as atividades produtivas do planeta, submetidas a critérios de avaliação estabelecidos por agências de classificação análogas às classificadoras de risco dos títulos de dívida pública e privada.

A propósito, o estudo não faz qualquer menção às distorções do presente sistema financeiro “globalizado”, de longe, o principal fator de “insustentabilidade” a ameaçar a humanidade, exceto para repetir o surrado discurso da “escassez” de recursos financeiros para apoiar o desenvolvimento sustentável – razão pela qual a adesão a tal agenda seria um imperativo (não por acaso, um dos participantes do estudo foi o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, mentor da desastrosa política de “austeridade” que deflagrou a depressão iniciada em 2015).

Para completar o “pedigree” oligárquico, o estudo foi financiado pela fundação estadunidense Gordon and Betty Moore e a suíça Good Energies.

Nada disso é surpresa, tratando-se do WRI, uma das ONGs que integra o “Estado-Maior” do aparato ambientalista internacional. Fundada em 1982, em Washington, EUA, tem escritórios em seis países, Brasil inclusive (em São Paulo e Porto Alegre), e é uma das coordenadoras da agenda da financeirização climático-ambiental, atuando como enlace entre altos interesses econômicos e políticos transnacionais e estabelecendo diretrizes a serem seguidas pelo movimento ambientalista em âmbito internacional. Uma lista dos integrantes do conselho diretor do WRI dá uma ideia do calibre desses interesses:

– David Blood, ex-diretor de gerenciamento de ativos do megabanco Goldman Sachs e parceiro do ex-vice-presidente estadunidense Al Gore no fundo de investimentos sustentáveis Generation Investment Management (GIM);

– Felipe Calderón, ex-presidente do México, presidente da comissão supervisora da New Climate Economy;

– Cristiana Figueres, ex-secretária-executiva da Convenção Quadro de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (UNFCCC), diretora da ONG The B Team, membro do Conselho Econômico sobre Saúde Planetária da Fundação Rockefeller;

– Jennifer Scully-Lerner, vice-presidente de administração de riquezas privadas do Goldman Sachs;

– James Gustave Speth, fundador do WRI, membro do Conselho de Relações Exteriores (CFR), conselheiro do Climate Reality Project e da ONG 350.org (uma das mais ativas promotoras do alarmismo climático);

– Andrew Steer, atual presidente do WRI, conselheiro para desenvolvimento sustentável do Bank of America e do grupo IKEA;
– Kathleen McLaughlin, vice-presidente da Walmart e presidente da Walmart Foundation;

– James Harmon, presidente da Caravel Management, membro do Council of Foreign Relations (CFR);

– Afsaneh M. Beschloss, fundadora e presidente da gestora de ativos RockCreek, ex-diretora do Carlyle Group, membro do CFR;
– Joke Brandt, secretário-geral do Ministério de Relações Exteriores da Holanda;
– Jamshyd N. Godrej, presidente do Aspen Institute India e vice-presidente do WWF International;

– Caio Koch-Weser, ex-vice-presidente do Deutsche Bank, presidente da European Climate Foundation, membro da Global Comission on the Economy and Climate (NCE); foi também um dos participantes do estudo do WRI.

O grupo consultivo corporativo da ONG inclui os seguintes pesos pesados da economia mundial: Abbot Laboratories, Bank of America, Cargill Corporation, Caterpillar, Citigroup, Colgate-Palmolive, DuPont, General Motors, Goldman Sachs, Google, Kimberley-Clark, PepsiCo, Pfizer, Shell, Walmart, Walt Disney Company e Weyerhauser.

Em setembro de 2018, o WRI teve participação ativa na convocação da Cúpula Um Planeta (One Planet Summit), em Nova York, promovida pelo Ministério do Meio Ambiente da Alemanha, a William and Flora Hewlett Foundation, IKEA Foundation (os três importantes doadores do WRI), Grantham Foundation for the Protection of the Enviroment, Agence Française de Développement (AFD) e o fundo de gestão de ativos BlackRock, o maior do mundo (responsável por ativos superiores a 6 trilhões de dólares). Com a presença do presidente francês Emmanuel Macron e do executivo-chefe do BlackRock, Larry Fink, foi anunciada a criação da Climate Finance Partnership (CFP), definida como uma “cooperação inusitada entre organizações filantrópicas, governos e investidores privados, comprometidos a desenvolver conjuntamente um veículo de investimentos que vise a investir em infraestrutura climática (sic) em mercados emergentes. A parceria buscará fazer investimentos em um conjunto determinado de setores, inclusive energia renovável, eficiência energética, armazenagem de energia e transporte de baixo carbono e eletrificado, em três regiões, incluindo a América Latina, Ásia e África”.

O WRI foi o criador da New Climate Economy, assim definida no seu sítio (https://www.wri.org/our-work/project/new-climate-economy):

(…) Uma importante iniciativa internacional que examina como os países podem atingir o crescimento econômico, enquanto lidam com os riscos das mudanças climáticas. É o projeto principal da Global Comission on the Economy and Climate, constituída por ex-chefes de governo, ministros das finanças e líderes nos campos da economia e dos negócios. A Global Comission foi fundada em 2013, por sete países – Colômbia, Etiópia, Indonésia, Noruega, Coreia do Sul, Suécia e Reino Unido. O projeto é empreendido por uma parceria global de institutos de pesquisa, da qual o WRI é o parceiro administrativo, e uma equipe base liderada por Helen Mountford.

Helen Mountford foi vice-diretora de Meio Ambiente na Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE) e atuou em ONGs ambientalistas no Reino Unido e na Austrália.

Entre os membros da Comissão Global, encontram-se Felipe Calderón, a ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, Helen Clark, o ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, o executivo-chefe da HSBC Holding, John Flint, o ex-executivo-chefe da Unilever, Poul Polman, a diretora-gerente do Banco Mundial, Kristalina Georgieva, o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría, o presidente da Shell, Chad Holliday, e outros.

Já no início da década de 1990, o WRI foi a primeira ONG do aparato a apontar o Brasil como um dos principais responsáveis pelas emissões de carbono que estariam, supostamente, causando o chamado aquecimento global, em função do desmatamento da Amazônia. Três décadas depois, a agenda é a mesma: “preservar” a Floresta Amazônica como uma espécie de garantia para as finanças ditas sustentáveis – e, em essência, “desantropizar” o bioma.

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