Trump, a multipolaridade e o “Imperativo Extraterrestre”

Editorial do jornal Solidariedade Ibero-americana, Vol. XXXI, no. 8, janeiro de 2025

O retorno de Donald Trump à Casa Branca representa um potente catalisador para a inexorável transição da ordem de poder global, da unipolaridade hegemônica centrada no eixo euroatlântico para um emergente sistema multipolar cooperativo cujo centro gravitacional é o eixo eurasiático, mas no qual os EUA seguirão sendo um dos pilares fundamentais.

Mas não deve haver ilusões. Embora Trump já tenha se apresentado como um opositor do “globalismo” – a pretensão dos centros de poder ocidentais de impor um conjunto homogêneo de normas e práticas a todo o mundo –, ele está longe de ser um ideólogo ou um paladino da multipolaridade. É um homem de negócios pragmático e forjado no feroz ambiente do big business estadunidense, experiência que combina com a de apresentador de reality shows e um faro aguçado para captar as motivações prevalecentes na população, e se reflete nas suas propostas e práticas de governo.

Sem vínculos históricos com a estrutura de governo permanente que dá as cartas em Washington, o chamado Deep State, ao contrário, o tem como um inimigo a ser neutralizado a qualquer custo, haja vista as tentativas de assassinato judicial e físico de que foi alvo desde o seu primeiro mandato. E não será surpresa se outras ocorrerem no atual.

Ainda na posse, Trump golpeou várias diretrizes “globalistas”, com ações executivas contra as pautas ambiental/climática, energética e identitária (woke), simbolizadas pela declaração de que, “a partir de hoje, será política oficial do governo dos Estados Unidos que existam apenas dois gêneros: masculino e feminino”.

Em paralelo, retirou o país do Acordo de Paris e suspendeu leis e regulamentos ambientais que impõem restrições a uma série de atividades econômicas, começando pela exploração petrolífera e pelos dispendiosos incentivos às chamadas energias “limpas”, como a eólica e a solar.

Esse “efeito Trump” se mostrou nas saídas de grandes bancos e fundos de gestão de ativos – JP Morgan Chase, Citigroup, Bank of America, Morgan Stanley, BlackRock etc. – das respectivas entidades voltadas para o engajamento da alta finança globalizada com a pauta do “carbono zero” (net zero), a Net Zero Banking Alliance (NZBA) e a Net Zero Asset Managers (NZAM). Deserções acompanhadas pela própria Reserva Federal, o banco central privado dos EUA, que retirou-se da Rede de Bancos e Supervisores Centrais para o Esverdeamento do Sistema Financeiro (NGFS, em inglês), entidade criada em 2017 para fomentar a “financeirização” da agenda ambiental e climática mundial.

Um conjunto de medidas que representa um golpe duríssimo na já combalida pauta da “descarbonização” da economia mundial.

Por outro lado, antes mesmo da posse, Trump surpreendeu aliados e adversários com suas provocativas manifestações sobre a incorporação aos EUA do Canal do Panamá, da Groenlândia e até do Canadá, se preciso com força militar, sob pretexto da “segurança do mundo livre” e do controle de recursos naturais.

Independentemente do que pretenda a respeito, e descontando-se o seu conhecido estilo de negociador de fala grossa, não há mais espaço no mundo para a expansão de uma base de recursos naturais ao estilo imperial, com ou sem coerção militar. Esta era é página virada e todos os protagonistas da multipolaridade precisam entender isso.

Entretanto, com um pouco de visão de longo alcance, seria viável aproveitar a energia e o entusiasmo de seu braço direito Elon Musk, que ocupará o novo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) e, em paralelo com a posse presidencial, fez um empolgado discurso sobre a exploração de Marte com naves tripuladas, como um vetor otimista de projeção da capacidade criativa dos EUA no futuro próximo.

Musk, cuja empresa SpaceX tem desenvolvido importantes avanços na tecnologia dos foguetes lançadores, é obcecado com a ideia do estabelecimento de uma presença humana em Marte, meta que não está mais distante da concretização do que uma missão tripulada à Lua estava em 1961, quando o então presidente John F. Kennedy lançou o Projeto Apolo, que atingiu o satélite da Terra em 1969.

Não obstante, trata-se de uma empreitada que seria muito mais facilitada, otimizada e justificada se, em vez de ser uma iniciativa individual dos EUA, fosse adotada como um programa conjunto com as demais potências espaciais, aí incluídas a Rússia, China, Índia, Japão, Coreia do Sul, União Europeia e até mesmo Israel e o Irã.

Vale lembrar que, em 1963, o presidente Kennedy ousou sonhar com a superação da Guerra Fria com a proposta de uma cooperação entre os EUA e a União Soviética para uma missão conjunta à Lua. Infelizmente, o seu assassinato em novembro daquele ano, pelas mesmas estruturas de poder que ainda hoje se obstinam com a ilusão de uma hegemonia global, frustrou uma iniciativa que poderia ter antecipado um grande salto qualitativo de progresso para toda a humanidade.

Apesar de parecer utópica em um momento de crise global e rivalidades estratégicas como o atual, essa é uma proposição que poderia representar uma contribuição determinante dos EUA para a consolidação do marco multipolar de relações internacionais cooperativas, em vez de atrasar a mudança de época em curso com estéreis disputas hegemônicas.

A extensão ao espaço cósmico é um autêntico “destino manifesto” para a humanidade em conjunto – o “Imperativo Extraterrestre”, como o qualificava o engenheiro alemão Krafft Ehricke, um dos pioneiros do programa espacial estadunidense. Liderar tal empreitada poderia emprestar um significado superior à multipolaridade e consolidar os EUA como um elemento construtivo de alto perfil da nova ordem global.

(Foto: foguete Falcon Heavy da SpaceX; divulgação.)