A julgar pelo noticiário prevalecente na grande mídia corporativa e boa parte das novas mídias digitais, com importantes aportes da produção acadêmica, o mundo parece estar às portas de uma catástrofe ambiental de proporções planetárias, em especial, no tocante a uma alegada emergência climática que colocaria em risco o futuro próximo da humanidade.
Ameaça que implicaria em mudanças radicais em praticamente todos os aspectos das atividades humanas, começando pelos usos de energia, visando a uma drástica redução na utilização dos combustíveis fósseis – carvão mineral, petróleo e gás natural – nas próximas décadas, com os consequentes ajustes nas aspirações e planos de desenvolvimento de cada país e sociedade, em geral, para metas mais modestas.
Felizmente para a humanidade, às voltas com outras emergências realmente sérias, não existe uma crise ambiental no planeta. Existem, sim, problemas ambientais, a grande maioria pontuais, de alcance local ou regional, que podem e devem ser enfrentados e solucionados por uma combinação de conhecimento científico, recursos tecnológicos, vontade política e, sobretudo, doses planetárias de bom senso, artigo que anda escasso nessa discussão. Alguns poucos problemas têm um alcance maior, como a poluição dos oceanos, mas nada que possa ser qualificado como uma crise global.
O ambientalismo, como o conhecemos, não é um fenômeno sociológico espontâneo, que tenha emergido a partir de uma conscientização ampla e legítima sobre a necessidade de se compatibilizarem as ações humanas com certos requisitos racionais de proteção do meio ambiente. Na verdade, é uma ideologia criada artificialmente por grupos oligárquicos da América do Norte e Europa – especialmente, dos EUA, Canadá, Reino Unido, Holanda, Noruega, França, Alemanha e Bélgica –, a partir da década de 1960, com objetivos pouco disfarçados:
1) Controle demográfico: Todos esses grupos compartilham uma crença comum no malthusianismo, a surrada concepção do reverendo Thomas Malthus, no século XVIII, de que os recursos naturais da Terra, principalmente, alimentos, seriam insuficientes para suportar uma grande população no planeta – idéia já bastante desqualificada pelos avanços na produção de alimentos. O ambientalismo é filho legítimo do malthusianismo.
2) Preservação de recursos naturais como “reservas estratégicas”, principalmente as existentes nos países em desenvolvimento.
3) Limitação da industrialização e do desenvolvimento econômico em geral, preferencialmente, aos “40 ricos”, que representam apenas uma pequena fração da população mundial.
4) Após a grande crise de 2008, uma boia de salvação para o sistema financeiro internacional “globalizado”. Como se sabe, a globalização separou o sistema financeiro da economia real e o converteu em um fim em si próprio. O resultado é a existência de uma enorme quantidade de instrumentos financeiros especulativos circulando no mundo, que supera em 15 a 20 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) global. Essa bolha gigantesca não irá durar muito e os oligarcas que controlam o sistema estão aflitos para converter pelo menos parte desses “ativos” voláteis em ativos reais, antes do seu estouro. É aí que entram os “títulos verdes”, créditos de carbono e outros instrumentos vinculados à suposta crise climática, que não têm uma finalidade econômica real, mas predominantemente financeira e especulativa.
Em síntese, o objetivo geral da doutrinação ambientalista é “convencer” os povos e países ainda não desenvolvidos do mundo, de que a Terra não teria os recursos naturais necessários e o meio ambiente não suportaria as suas pretensões de atingir níveis de desenvolvimento socioeconômico pelo menos próximos dos das nações avançadas. Todo o discurso do “desenvolvimento sustentável” e suas eufônicas palavras de ordem – “capacidade de suporte”, “pegada” ecológica ou de carbono, “sobrecarga da Terra” e outros conceitos falaciosos afins – é orientado para tal finalidade. A histeria climática e a pauta do “carbono líquido zero” (net zero, em inglês) são parte desse processo.
E quem afirma às claras que essa agenda não tem nada a ver com problemas ambientais reais são os seus próprios mentores e operadores.
Por exemplo, o economista alemão Ottmar Edenhofer, vice-diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impactos Climáticos (PIK) e copresidente do Grupo de Trabalho 3 (WG3) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC):
“Basicamente, é um grande erro discutir a política do clima separadamente dos grandes temas da globalização… É preciso libertar-se da ilusão de que a política climática internacional é política ambiental. Isto não tem mais quase nada a ver com política ambiental, com problemas como o desmatamento ou o buraco na camada de ozônio (Neue Zürcher Zeitung, 14/11/2010).”
O fundador do PIK, o físico alemão Hans-Joachim Schellnhuber, é um dos cientistas mais influentes na promoção desse alarmismo, tendo sido assessor científico da chanceler alemã Angela Merkel e do papa Francisco, na elaboração da encíclica Laudato Si, de 2015. Ele é também o criador do “número mágico” de 2oC, que seria o limite de aumento da temperatura que não poderia ser superado, sob o risco de provocar um “aquecimento descontrolado” da atmosfera da Terra. Pois vejamos o que ele admitiu, em uma entrevista de 2010:
“Dois graus não é um limite mágico – é claramente um objetivo político. O mundo não vai acabar logo, no caso de um aquecimento mais forte… A realidade, claro, é muito mais complicada. Sim, eu me assumo culpado (Spiegel International, 01/04/2010).”
E ouçamos também o ínclito Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, Prêmio Nobel da Paz de 2007 e Oscar de melhor documentário no mesmo ano, pelo amontoado de falsidades científicas chamado Uma verdade inconveniente. Este é um trecho de uma entrevista de 2018 à rede de televisão PBS, em que a entrevistadora comenta o tom alarmante de um relatório divulgado pelo IPCC naquele ano:
“Judy Woodruff – Eles estão pintando um quadro muito mais alarmante sobre o que enfrentamos, do que sabíamos anteriormente.
“Al Gore – A linguagem que o IPCC usou na apresentação foi um pouco torcida para cima, adequadamente – de que outra maneira eles conseguiriam a atenção dos formuladores de políticas de todo o mundo?”
Exagerar na linguagem catastrofista – ou “torcer para cima”, no eufemismo de Gore – tem sido o modus operandi padrão dos mentores do ambientalismo desde o início, continuando até hoje. A intenção é clara: criar um forte impacto na opinião pública, para justificar as medidas políticas, econômicas e financeiras pretensamente “salvadoras”, supostamente, em benefício de toda a humanidade.
Já em 1972, o magnata canadense Maurice Strong, que foi o secretário-geral da Conferência de Estocolmo, a primeira grande conferência das Nações Unidas sobre temas ambientais, disse ao jornal sueco Dagens Nyheter: “Nós temos dez anos para deter a catástrofe (ambiental).”
Strong foi um dos mais ativos articuladores do que pode ser chamado o aparato ambientalista internacional, tendo sido o primeiro diretor-geral do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e secretário-geral da conferência Rio-92, além de exibir um vasto currículo de dirigente de fundações privadas e ONGs de alto escalão do aparato ambientalista.
Como se vê, o apocalipse já estava sendo anunciado há mais de meio século, para dali a dez anos. Hoje, o prazo não mudou muito, haja vista as manchetes apocalípticas cotidianas que anunciam a iminência de um desastre climático. Mas, como o mundo não acabou desde o prognóstico de Maurice Strong, pode-se concluir que ele e seus pares não devem ser levados a sério.
Em sua essência, o discurso da sustentabilidade é uma das facetas de uma agenda mais ampla de intervencionismo político-econômico e influência ideológica, o ambientalismo-indigenismo, que desde o final da década de 1980 vem servindo como braço “politicamente correto” da globalização financeira, cuja pauta é a erosão das soberanias dos Estados nacionais, em favor dos centros de poder situados nas nações mais avançadas do Hemisfério Norte, combinando interesses governamentais e privados. Com essa dupla pauta, a maioria dos países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, mais de 150 das 195 nações do planeta, passou a ter as suas perspectivas de desenvolvimento vinculadas aos fluxos financeiros internacionais e, junto com eles, às condicionantes ambientalistas-indigenistas, que têm muito pouco a ver com os problemas reais do meio ambiente e dos povos indígenas.
Clima: ciência escanteada
Todo o discurso apocalíptico sobre o clima se baseia na tese falaciosa de que as emissões de carbono das atividades humanas, principalmente, o uso de combustíveis fósseis, estariam provocando um aquecimento ameaçador da atmosfera da Terra, com as emissões dos chamados gases de efeito estufa, principalmente, o dióxido de carbono (CO2).
Para que isso fosse verdadeiro, seria preciso que os padrões das oscilações das temperaturas da atmosfera e dos oceanos e dos níveis do mar, observados a partir da Revolução Industrial do século XVIII, apresentassem anomalias em relação aos registrados nos séculos e milênios anteriores. Acontece que tais anomalias, simplesmente, não existem e, portanto, não há qualquer evidência concreta da alegada influência humana na dinâmica climática global.
Durante cerca de 90% dos últimos 800 mil anos, a Terra tem experimentado condições glaciais, em que as temperaturas médias são 8-10oC inferiores às atuais. Esses períodos glaciais têm tido uma duração aproximada de 90 mil anos, sendo intercalados por períodos “interglaciais” mais quentes, com duração entre 10-15 mil anos, nos quais os níveis do mar chegaram a ser até 130 metros inferiores aos atuais. O atual interglacial, o Holoceno, teve início há 12.900 anos e, dentro dele, também têm ocorrido oscilações de temperaturas e níveis do mar, que já foram superiores e inferiores às atuais.
No Holoceno Médio, entre 6.000-8.000 anos atrás, as temperaturas atmosféricas e oceânicas e os níveis do mar eram superiores aos atuais, mas as concentrações de CO2 na atmosfera eram cerca de 40% inferiores às atuais. Os modelos climáticos usados para sustentar o atual catastrofismo não explicam tal contradição, a qual apenas reforça as evidências de que são outros fatores influenciam de forma preponderante a dinâmica climática global.
Entre o século XIV e meados do XIX, ocorreu a chamada Pequena Idade do Gelo, com temperaturas médias 1-1,5oC inferiores às atuais, suficiente para ocasionar invernos mais intensos e verões mais frios, causando quebras de safras agrícolas e crises de fome em todo o mundo.
A única influência humana no clima ocorre nas cidades, com o conhecido efeito das “ilhas de calor” urbanas, decorrente da impermeabilização do solo com asfalto e concreto, que diminui bastante a infiltração da água das chuvas no subsolo e a consequente evapotranspiração. Assim, as temperaturas urbanas costumam ser vários graus centígrados superiores às das zonas rurais e áreas não urbanizadas, mas tal influência, de modo algum, tem alcance planetário, pois as áreas urbanizadas representam menos de 0,9% da superfície total do planeta.
Apesar de a expressão mudanças climáticas ter recebido uma conotação deliberadamente alarmista, ela chega a ser pleonástica, pois a mudança permanente é o estado natural do clima. Na história geológica da Terra, nunca houve, não há e nunca haverá um clima “estático”. Desde que surgiu no planeta, a humanidade tem convivido com mudanças climáticas drásticas, alternando entre períodos glaciais mais frios e interglaciais mais quentes, e sempre se adaptou a eles com grande resiliência. Nada sugere que não possa continuar fazendo isto, sem precisar sacrificar as aspirações ao pleno desenvolvimento das suas potencialidades.
As emergências reais são outras
A seguir, vejamos uma breve listagem de emergências globais reais, cujo enfrentamento a sério não tem recebido sequer uma fração da atenção, dos recursos e do tempo dedicados à agenda do catastrofismo climático (e desperdiçados com ela):
* As deficiências de infraestrutura de saneamento básico constituem, de longe, o maior problema ambiental do mundo, afetando mais da metade da população mundial e da brasileira. O lançamento de esgotos sem tratamento nos cursos d’água é uma das principais fontes de poluição da água – que está longe de um risco de escassez física, como apregoam alguns alarmistas, basta que se deixe de poluí-la. Na terceira década do século XXI, é vergonhoso que mais de 1,5 bilhão de pessoas ainda tenham que fazer suas necessidades fisiológicas ao ar livre. Enquanto centenas de organizações não-governamentais (ONGs) de todo o mundo, talvez, milhares, se acotovelam para anunciar o apocalipse climático (e lucrar com ele), apenas um punhado delas se dedica à questão crucial do saneamento.
* A gestão do lixo urbano é outro problema ambiental da maior gravidade. No Brasil, cerca de dois terços dos municípios ainda dependem dos vergonhosos lixões, a forma mais primitiva e de maior impacto ambiental de disposição de resíduos urbanos, enquanto a coleta seletiva, a reciclagem e o aproveitamento energético do lixo ainda engatinham.
* A ocupação irregular de áreas de risco, como encostas, várzeas e outras, representa um sério problema nos países que não integram os “40 ricos”. No Brasil, são recorrentes os problemas causados nessas áreas, com qualquer chuva mais intensa.
* O aumento das desigualdades globais tem sido a principal conseqüência da globalização, tanto entre os países como dentro deles, e está na raiz de grande parte das convulsões políticas e sociais registradas nas últimas décadas.
* O sistema financeiro internacional divorciado da economia real, possivelmente, o maior fator de “insustentabilidade” do planeta, por atuar como um parasita da economia física, canalizando a grande maioria dos recursos financeiros para instrumentos especulativos e improdutivos.
No caso do Brasil, ainda podemos acrescentar:
* O esgotamento do bônus demográfico e a queda vertical das taxas de fertilidade, com o consequente envelhecimento rápido da população.
* Desindustrialização e perda de complexidade econômica.
* Despreparo de grande parte da juventude e da população adulta para lidar com os impactos das tecnologias digitais e de informação nos processos produtivos.
Transição energética – factoides e fatos
A chamada “transição energética” envolve a substituição acelerada dos combustíveis fósseis por fontes de baixas emissões de carbono até meados do século, com ênfase preponderante nas eólicas e solares, alegadamente, para impedir um aumento das temperaturas atmosféricas superior a 1,5-2oC em relação ao considerado período pré-industrial. Na verdade, a referência é o período 1850-1900, quando o planeta saía da Pequena Idade do Gelo, oscilação corriqueira durante o Holoceno, o que por si só já é suficiente para se colocar a proposição sob suspeita.
Os seus proponentes e propagandistas afirmam ser possível substituir significativamente os usos dos fósseis até a década de 2050, mas a realidade dos fatos está demonstrando cabalmente a inviabilidade técnica e econômica da proposta, sem falar nas consequências sociais e políticas:
1) O petróleo, gás natural e carvão mineral respondem por mais de 80% de todos os usos de energia no mundo, e cerca de 61% da geração de eletricidade, uso no qual são preponderantes na grande maioria dos países, principalmente, os industrializados; usinas hidrelétricas e nucleares correspondem a 26,5% e todas as demais, a pouco mais de 13%.
2) As fontes eólicas e solares, as favoritas dos adeptos da “descarbonização”, são intermitentes e de baixa eficiência energética, não sendo adequadas para o abastecimento elétrico de grandes centros urbanos e industriais, que requerem um fornecimento contínuo (“despachável”, no jargão técnico). Ademais, os materiais e equipamentos componentes das centrais eólicas e solares – pás, geradores, painéis solares etc. – não podem ser produzidos a partir de fontes eólicas e solares; ou seja, não são fontes autorreproduzíveis.
3) Os cenários de “carbono líquido zero” para 2050 exigirão um enorme aumento da produção mundial de minerais críticos (cobalto, cobre, grafite, lítio, manganês, terras raras etc.), estimado em seis vezes sobre os níveis atuais pela Agência Internacional de Energia (AIE), uma das principais promotoras da “descarbonização”. Além de não existirem jazidas comerciais conhecidas suficientes para atender sequer a uma fração significativa de tais demandas, a entrada em operação de novas jazidas pode levar dez anos ou mais, e ainda haveria o sério problema ambiental da disposição dos rejeitos de tamanha expansão das atividades de mineração, sem falar nos custos colossais de todo esse esforço hipotético.
4) A substituição das fontes tradicionais dos sistemas elétricos de base ou despacháveis – termelétricas, hidrelétricas e nucleares – por outras de menor densidade energética, como eólicas e solares (e, na Europa, linhito e lenha), representa um retrocesso tecnológico. A rigor, uma transição energética efetiva deve envolver fontes de maior densidade e eficiência energética, como as tecnologias nucleares mais avançadas, inclusive reatores de fissão modulares e o desenvolvimento da fusão nuclear, que, além de instituições de pesquisa, tem despertado o interesse de start-ups dos EUA e da Europa, nas quais empresas petrolíferas como a Equinor, ENI, Chevron e outras vêm investindo (caminho que deveria ser seguido pela Petrobras).
Um exemplo didático da inadequação da “transição energética” é a Alemanha. Entre 2000 e 2020, o país gastou mais de € 500 bilhões para duplicar a sua capacidade instalada de geração de eletricidade, a maior parte fontes eólicas e solares, ao mesmo tempo em que, por influência do Partido Verde, desativou usinas nucleares e termelétricas. Porém, a oferta de energia firme só aumentou em um terço, enquanto as tarifas triplicaram e a ineficiência do sistema elétrico aumentou drasticamente, passando a experimentar uma proporção inusitada de interrupções de fornecimento, obrigando a importação de eletricidade da França, República Checa, Polônia e Dinamarca, para reforçar a geração de base. A situação piorou ainda mais com a suspensão das importações de petróleo e gás natural da Rússia, com as sanções impostas a este país com a deflagração da guerra na Ucrânia. Resultado: as maiores tarifas da Europa e um sério ímpeto de desindustrialização da maior potência econômica continental.
No Brasil, o apagão que afetou quase todo o País em 15 de agosto de 2023 proporcionou uma amostra das inconveniências de se agregarem fontes eólicas e solares na rede elétrica de base. A experiência de outros países mostra que a introdução de fontes intermitentes na geração de base tende a aumentar a insegurança das redes, os custos de geração e a ineficiência do sistema como um todo, com impactos negativos diretos sobre a economia em geral. Perspectiva nada animadora para uma economia debilitada como a brasileira, em franco processo de desindustrialização.
Por sua vez, o hidrogênio verde, sobre o qual há expectativas excessivamente otimistas, exige condições peculiares para obter um custo/benefício favorável, principalmente, a disponibilidade de fontes energéticas de baixo custo para o processo de eletrólise e a proximidade dos centros de consumo. Vale dizer, não é uma panaceia e precisa ser introduzido com o devido cuidado, para não agregar custos desnecessários no sistema energético.
Amazônia, “subdesenvolvimento sustentável”?
A realização da conferência climática COP30 em Belém (PA), em novembro próximo, evidencia de forma insofismável as percepções equivocadas que orientam as políticas ambientais brasileiras. Em entrevista à revista Exame, o secretário-executivo adjunto do Ministério da Fazenda, Rafael Dubeux, coordenador da “transição ecológica” na pasta, listou as três prioridades do governo para estabelecer o que chama de liderança brasileira no evento: 1) estabelecimento do Fundo para as Florestas Tropicas para Sempre, fundo de investimentos com remuneração anual para financiar a conservação das florestas tropicais; 2) estabelecimento de uma “taxonomia” para as finanças sustentáveis, para canalizar capitais para investimentos vinculados à crise climática; 3) integração dos mercados globais de carbono.
Os três itens estão vinculados à consolidação da estrutura das “finanças verdes”, para a qual é indispensável a disponibilização da proteção dos biomas Amazônia e Cerrado como “colaterais” para a atração de fluxos financeiros internacionais.
De forma irônica, a capital paraense é uma perfeita vitrine do contraste entre uma política ambiental mais obcecada com uma proteção radical dos biomas amazônicos do que com os problemas reais enfrentados pela grande maioria da população da região, como as deficiências de infraestruturas básicas – saneamento, transportes, comunicações, saúde pública e outras.
Quanto ao saneamento, dos seus 1,3 milhão de habitantes, mais de 80% não tem acesso a redes de esgoto e só 13% contam com tratamento dos efluentes, sendo o restante lançado in natura no rio Guamá. Apenas neste quesito, com os R$ 5 bilhões que o governo federal está investindo num “banho de loja” para enfeitar a cidade para a conferência, seria possível construir pelo menos quatro novas estações de tratamento de esgoto (só há duas, que atendem a menos de 200 mil pessoas) e ampliar a rede de esgoto para cobrir praticamente toda a cidade em um prazo de poucos anos.
A rigor, os quase 30 milhões de habitantes da Amazônia Legal representam menos de 13% da população brasileira e respondem por menos de 8% do PIB nacional, além de ostentarem os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do País.
Para infortúnio deles, a região tem sido alvo de uma vasta campanha internacional de desinformação sobre uma alegada importância vital dos seus biomas para a estabilidade do clima global, os quais deveriam ser mantidos virtualmente intocados – visão que, infelizmente, conta com o apoio acrítico de numerosos cientistas brasileiros. Para justificá-la, têm até sido engendrados fenômenos fictícios sem base factual. Um deles é o suposto “ponto de inflexão” da floresta amazônica, que ainda mantém 84% da sua cobertura original existente no século XVI. Segundo a tese, jamais observada em qualquer bioma brasileiro, se a área florestal cair abaixo de 80%, o bioma reverteria de forma irreversível para uma condição mais empobrecida de uma savana. Outro mais recente é a indicação de que as terras indígenas, 23% da região, seriam responsáveis por 80% das chuvas nas áreas cultivadas do País. Sem comprovação factual, ambos se baseiam em modelos matemáticos e extrapolações que aparentam partir de teses pré-estabelecidas e criados ad hoc para justificá-los com um verniz científico.
De um modo geral, a política vigente para a Amazônia Legal tem sido a de converter toda a região em uma espécie de santuário biológico praticamente vedado a atividades produtivas e infraestruturas modernas, indispensáveis para a elevação dos níveis de vida da sua população.
Um exemplo dessa orientação é o relatório do Banco Mundial “Equilíbrio delicado para a Amazônia Legal Brasileira – um memorando econômico”, divulgado em maio de 2023 e que estabelece de forma categórica: para “salvar” a Floresta Amazônica, os estados da Amazônia Legal precisariam esquecer qualquer atividade econômica como agricultura moderna, mineração ou exploração de madeira.
Em troca, o documento sugere que a região se dedique à preservação da “floresta em pé”, que valeria seis vezes mais, com atividades “sustentáveis” – armazenamento de carbono, cobertura florestal, produtos não madeireiros, turismo sustentável e “serviços ecossistêmicos”.
Em linhas gerais, essa é a “receita” aprovada para a região, embrulhada com o enganoso rótulo de bioeconomia. Sem dúvida, o vasto potencial biológico da região deve ser desenvolvido e explorado ao máximo, com o envolvimento dos poderes públicos, instituições de pesquisa, iniciativa privada e comunidades locais, em uma sinergia de esforços de enorme potencial para consolidar o setor como um diferencial para as perspectivas de desenvolvimento e progresso dos amazônidas.
Entretanto, isso não pode significar uma renúncia às demais atividades econômicas, como a produção agropecuária, indústria madeireira, mineração, exploração de petróleo e gás e a implementação de infraestruturas modernas de transportes, energia e comunicações, sem as quais qualquer esforço de desenvolvimento será inócuo.
A propósito, vale conhecer vozes de amazônidas que raramente são ouvidas fora da região.
Um deles é o engenheiro agrônomo Alfredo Homma, veterano pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, com mais de meio século de conhecimento acumulado sobre os potenciais produtivos e as necessidades reais da região para superar o subdesenvolvimento crônico ao qual tem sido submetida, para o qual criou a oportuna expressão “subdesenvolvimento sustentável”.
Para ele, o desenvolvimento da Amazônia não pode depender de decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância, convertendo-a numa espécie de colônia burocrática de Brasília e sob forte influência de propostas prontas externas ao País, que nada significam de concreto para a região, cujo vasto potencial de desenvolvimento necessita de políticas públicas testadas no mundo real, e não no mundo da ficção ambiental. Em relação à Amazônia, diz “há uma certa antipatia por lavouras de grãos e perenes em monoculturas, pecuária, reflorestamento, mineração, hidrelétricas e ferrovias”, entre outros exemplos de atividades econômicas modernas que os pretensos “salvadores” da floresta e dos cerrados pretendem manter longe da região.
Outro é o empresário Denis Minev, executivo-chefe da rede de departamentos Bemol, a maior da Região Norte, que, em recente entrevista ao jornal O Globo, deixou claro que o futuro da Amazônia não está na bioeconomia, mas na economia do conhecimento baseada em investimentos em pesquisa científica e tecnologia, chave para a implantação de uma economia moderna na região, que permita aos amazônidas um salto qualitativo nos seus níveis de vida em geral. Para eles, as discussões relevantes, ao contrário das que ocorrem fora da região e pretendem monopolizar as “soluções” para o seu desenvolvimento, envolvem problemas reais como saúde, educação, infraestrutura e renda, que importam bem mais do que a proteção do meio ambiente.
Não é por acaso que opiniões como essas não têm voz na formulação das políticas para a região.
Brasil: uma política ambiental para o mundo multipolar
A adesão acrítica e quase incondicional de sucessivos governos brasileiros à agenda ambiental ditada pelos centros de poder do Hemisfério Norte, desde o final da década de 1980, integra a renúncia das elites nacionais da “Nova República” à ideia de um projeto nacional de desenvolvimento e à plena soberania, preferindo integrar o País no impulso encabeçado pela globalização financeira, cujos resultados negativos estão à vista de todos. Agenda à qual acrescentou-se o componente identitário, com destaque para um pseudoindigenismo antinacional e desagregador da identidade nacional e crescentemente direcionado para fluxos financeiros internacionais vinculados a créditos de carbono e outros instrumentos das chamadas “finanças verdes”.
Desde então, talvez, nenhum outro país tenha permitido uma influência tão grande de tal aparato intervencionista na determinação das suas políticas de desenvolvimento, refletida no grande número de empreendimentos econômicos e de infraestrutura bloqueados, retardados, desnecessariamente encarecidos e até sabotados, em especial, na Amazônia Legal. O custo dessa submissão, em valores diretos, oportunidades não realizadas e impactos socioeconômicos negativos, é verdadeiramente incalculável.
Juntamente com a supremacia do rentismo nas políticas públicas, mantida e até aprofundada por todos esses governos, análise que não cabe neste texto, sem livrar-se dessa camisa-de-força autoimposta, o Brasil não poderá sair do virtual pântano de estagnação em que se encontra atolado, de maneira mais sensível desde 2015.
A caminho da quarta década do século XXI, em meio às maiores transformações da ordem de poder mundial em séculos, é mais que hora de o Brasil assumir o grau de protagonismo permitido pelas suas dimensões e potenciais humanos e naturais, recuperando a soberania plena sobre as suas perspectivas de desenvolvimento e progresso.
O momento é complexo e delicado, marcado por interações em grande medida imprevisíveis entre o declínio do eixo hegemônico euroatlântico, a ascensão do eixo eurasiático e do Sul Global, o autoemasculamento da União Europeia e, não menos, o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Cenário que tem sido rotulado como a emergência de um mundo multipolar, no qual a cooperação para o desenvolvimento conjunto tende a superar as pretensões hegemônicas de potências saudosistas, mas cuja consolidação está longe de assegurada.
Na área ambiental, o Brasil precisa reorientar as suas políticas para vinculá-las a uma agenda de retomada do pleno desenvolvimento das suas capacidades produtivas, enfrentando decididamente as suas emergências reais e não as definidas pelo aparato ambientalista-identitário internacional – a qual, a todas as luzes, está a caminho da obsolescência, haja vista os duros golpes desfechados contra ela por Donald Trump e a sua crescente rejeição pelos setores produtivos da própria União Europeia.
Tal reorientação deve incluir, minimamente: 1) restrição aos superpoderes dos órgãos ambientais (principalmente, o Ibama), retirando-lhes o poder de veto absoluto sobre empreendimentos estratégicos, caso, entre outros, da exploração da Margem Equatorial Brasileira, transferindo-os a um colegiado interministerial específico, mais político e técnico do que ideológico; 2) mudança de ênfase da “transição energética” para fontes não intermitentes e de maior densidade energética, como a energia nuclear, inclusive, com incentivos ao desenvolvimento de pequenos reatores modulares e às pesquisas com fusão nuclear.
Não será com créditos de carbono e instrumentos semelhantes que o Brasil poderá dar o salto de desenvolvimento necessário para galgar o patamar das economias avançadas. De modo algum, a “floresta em pé” e o “desmatamento zero” poderão ser os principais ativos do País nessa trajetória.
De forma definitiva, o Brasil deve abandonar o quanto antes a ilusória ideia de apresentar-se ao mundo multipolar como uma “potência verde” disposta a oferecer às potências produtivas uma gama de “serviços ambientais”, utilizando os biomas Amazônia e Cerrado como contrapartidas para a atração de investimentos “verdes”, “climáticos”, “sustentáveis” ou qualquer outro rótulo do gênero. Em vez disso, precisa envidar todos os esforços para recuperar e aprimorar as capacidades produtivas condizentes com uma verdadeira potência que dispense rótulos enganosos.
(Imagens: composições de Fabien Barrau.)

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