O retorno de Donald Trump à Casa Branca e a sua mão pesada desfechada contra o aparato montado sobre o alarmismo climático e a “descarbonização” da economia, já no primeiro dia do mandato, deixam cada vez mais claro que a agenda das “finanças climáticas” caminha rapidamente para o esgotamento.
O jornal New York Times listou as principais ordens executivas assinadas por Trump em relação aos setores ambiental e energético:
– retirada dos EUA do Acordo de Paris;
– declaração de uma emergência energética nacional, que poderá justificar a suspensão de regulamentos ambientais para acelerar projetos de mineração específicos;
– reversão do banimento de exploração petrolífera offshore em cerca de 2,5 milhões de quilômetros quadrados de águas federais;
– reversão dos regulamentos aprovados pelo governo Biden sobre emissões de automóveis e caminhões leves, para incentivar a fabricação de mais veículos elétricos;
– reversão dos regulamentos de eficiência energética para lava-louças, chuveiros e fogões a gás;
– ampliação da abertura do Alasca à exploração de petróleo e gás natural;
– revisão de novos terminais para a exportação de gás natural liquefeito (GNL), que havia sido pausada pelo governo Biden;
– interrupção do leasing de águas federais para a geração eólica offshore;
– eliminação de programas de justiça ambiental no governo, orientados para a proteção de comunidades pobres contra a poluição excessiva;
– revisão de todas as regulamentações federais que impõem um “fardo indevido” ao desenvolvimento ou uso de uma variedade de fontes energéticas, particularmente, carvão, petróleo, gás natural, energia nuclear, hidroelétricas e biocombustíveis.
Sem dúvida, uma pauta abrangente e incisiva, que, mesmo que seja apenas parcialmente cumprida, não deixará de afetar bastante a estrutura global de interesses montada sobre a “descarbonização”, cujo caráter anticientífico e capcioso é cada vez mais evidente.
O próprio Trump, dirigindo-se por conexão de vídeo ao Fórum Econômico Mundial (WEF), jactou-se de acabar com o chamado “Novo Acordo Verde” (Green New Deal) de Biden, rebatizando-o como “Nova Fraude Verde” (Green New Scam).
Nesse cenário, não surpreendem as aflições do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a perspectiva concreta do esvaziamento da conferência climática COP30, em Belém (PA), em novembro próximo, da qual a indústria do alarmismo climático espera uma solução definitiva para o financiamento da “transição energética” dos países em desenvolvimento e, no caso do presidente brasileiro, a sua consagração como pretenso estadista global.
A desorientação é de tal ordem que o diplomata André Corrêa do Lago, recém-nomeado presidente da conferência (tendo como executiva a veterana ongueira climática Ana Toni, ex-Instituto Clima e Sociedade e atual secretária nacional do Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima), já fala num “pacto nacional” em torno da COP30. Como disse numa entrevista à CNN Brasil: “Precisamos criar um pacto nacional para chegarmos unidos na COP30. O mundo adoraria ficar apontando: olha lá, estão todos lá divididos com relação à COP. Temos de decidir muito a questão da COP entre nós brasileiros para chegarmos maduros.”
Mas não será fácil estabelecer qualquer tipo de pacto com setores da sociedade que têm sido largamente prejudicados pelos excessos da militância ambientalista-indigenista encastelada no governo federal, principalmente, no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que parecem cada vez mais obstinados em bloquear atividades vinculadas a empreendimentos econômicos relevantes, como o licenciamento ambiental da Margem Equatorial Brasileira, dragagens no rio Paraguai e muitas outras, por motivos meramente ideológicos.
Outro trunfo com que ele conta para atrair chefes de Estado e de governo, que estiveram ausentes da COP29 em Baku, é o que chama o “poder de convencimento” de Lula. “A gente não pode subestimar o poder de convencimento do presidente Lula. Nós vimos isso no G-20, em que a presença dos chefes de Estado foi absolutamente recorde”, disse ele à Globonews.
Também aqui será preciso aguardar para ver se a lábia presidencial terá condições de se sobrepor ao impulso centrífugo do “Efeito Trump”, do qual o vizinho Canadá já proporciona um bom exemplo.
Na província de Alberta, a primeira-ministra Danielle Smith se disse pronta a trabalhar com o governo Trump para retomar as negociações para a construção do oleoduto Keystone XL, cancelada por Biden. E o pré-candidato do Partido Conservador às eleições parlamentares que serão realizadas ainda este ano, Pierre Poilievre, já anunciou que se eleito pretende revogar a controvertida taxa sobre as emissões de carbono instituída pelo governo de Justin Trudeau.
Voltando ao Brasil, o governo parece tomado por uma combinação de perplexidade e desorientação, como mostrou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em recente entrevista na qual afirmou que o Brasil poderá beneficiar-se do recuo estadunidense na transição energética. Segundo ele:
“Hoje nós sabemos que o Brasil é a maior potência da pluralidade energética do planeta. Nós temos a oportunidade de nos tornarmos ainda mais fortes, agora que os Estados Unidos dispensaram a transição energética publicamente. Mas acredito que a transição será impositiva e cada vez mais forte com o passar do tempo. Não é uma questão de princípios nem ideologia, ela vai se impor (Eixos, 08/01/2025).”
No entanto, o mais provável é que o mundo real divirja cada vez mais de tal otimismo, na medida em que as ondas de choque vindas dos EUA se espalhem e análises como essa do físico e engenheiro Mark P. Mills, um dos maiores críticos da “descarbonização” da matriz energética, passem a receber a devida atenção:
“Temos evidências do que acontecerá se os Estados Unidos continuarem nesse caminho. Duas grandes economias – a do Reino Unido e a da Alemanha – estão mais adiante no mesmo caminho de ‘transição energética’ que a financiada pela Lei de Redução de Inflação [de Biden]. Embora ambas ainda dependam fortemente de combustíveis fósseis, elas aumentaram drasticamente o uso de energia eólica e solar. O resultado? Nenhuma mudança significativa nas emissões. Mas os custos de energia em geral, e da eletricidade em particular, dispararam e continuam a aumentar em ambas as nações. As limitações do vento e da luz solar significam que ambos os países estão agora sujeitos a choques de preços episódicos e esmagadores. Dados meteorológicos mostram que ‘secas’ de luz solar massivas e de longa duração (dias nublados) ou calmarias de vento podem durar semanas. (Os alemães até têm uma palavra para este último fenômeno, Dunkelflaute, uma das quais está atualmente em andamento.) Quando isso acontece, os preços da energia sobem o suficiente para colapsar empresas e esmagar cidadãos. As economias alemã e britânica não estão apenas acelerando a sua pobreza energética, mas também estão se desindustrializando devido aos altos custos de energia.
“Não é de surpreender que a China não tenha perseguido essa agenda de autodestruição econômica e geopolítica. De fato, a China se beneficia enormemente: os gastos ocidentais em equipamentos eólicos, solares e baterias exigem minerais e componentes dos quais a China é o fornecedor dominante.
“A alegação da ordem executiva de Trump, de que ‘o extremismo climático fez explodir a inflação e sobrecarregou as empresas com regulamentação’ é indiscutivelmente verdadeira, especialmente, no que diz respeito às empresas de energia convencional. E vale notar que a esmagadora maioria de toda a energia fornecida à nossa sociedade, para todos os fins, continua a vir de combustíveis convencionais (City Journal, 24/01/2025).”
Em síntese: a julgar pela potência do “Efeito Trump”, a COP30, que já enfrenta não poucos problemas com a infraestrutura deficiente da capital paraense, corre o risco de converter-se num virtual “Baile da Ilha Fiscal climático”, tanto para Lula como para a indústria “descarbonizadora”.
(Imagem: Último baile do Império, quadro de Aurélio Figueiredo, domínio público.)

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