Rússia paga para ver na Síria e expõe blefe da “Nova Ordem Mundial”

 

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Um navio de guerra russo dispara um míssil de cruzeiro contra alvos do Estado Islâmico (Foto: Itar-Tass)

Para qualquer observador ou comentarista não contagiado pela percepção equivocada de que o eixo Washington-Nova York-Londres encarna a manifestação mais avançada do processo civilizatório, salta aos olhos que a intervenção militar da Federação Russa no conflito na Síria sinaliza um ponto de inflexão no cenário geopolítico global. Como afirmamos em um artigo anterior, comparando-a à decisiva Batalha de Stalingrado, na II Guerra Mundial, a iniciativa de Moscou tem tudo para representar o há muito esperado “basta” na tolerância com as maquinações da cúpula dirigente anglo-americana para estabelecer uma hegemonia unipolar global incontestável, a chamada “Nova Ordem Mundial”, proclamada pelo presidente George H.W. Bush, diante da implosão do bloco socialista encabeçado pela União Soviética. Tomando de empréstimo a linguagem do jogo de cartas favorito dos estadunidenses, o pôquer, poder-se-ia dizer que as lideranças do Kremlin pagaram para ver e estão expondo ao mundo o blefe da farsesca narrativa que tem sustentado a estratégia hegemônica dos oligarcas ocidentais.

Acima de tudo, a decidida intervenção em favor do combalido governo do presidente sírio Bashar al-Assad sinalizou um fim para a agenda das “mudanças de regime” segundo os interesses de Washington. Agora, independentemente do que proclamem Barack Obama, David Cameron, François Hollande, Recep Erdogan e outros personagens menores, o destino de Assad será decidido dentro da Síria e pelos sírios, após a pacificação do país – meta que, após mais de quatro anos de devastação, parece estar ao alcance.
No momento, as forças sírias, com o apoio da aviação russa e unidades da Força Quds iraniana e do Hisbolá libanês, se preparam para um assalto decisivo contra os jihadistas entrincheirados em Aleppo, a maior cidade do país. Embora qualquer prognóstico sobre o desdobramento das ações militares seja arriscado, a reconquista de Aleppo proporcionaria à coalizão síria-russa-iraniana-libanesa uma excelente cabeça-de-ponte para uma ofensiva coordenada com as milícias curdas, com o objetivo de fechar a fronteira com a Turquia, ao norte, origem das principais linhas de abastecimento dos jihadistas e das escassas forças de oposição não dominada pelos fundamentalistas islâmicos (vide o mapa). Enquanto isso, a “contribuição” estadunidense veio na forma de novos bombardeios à central elétrica que abastece Aleppo, poupada até mesmo pelos invasores.

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Mapa de situação da Síria (BBC).

Em especial, ao obter em três semanas resultados que a coalizão de forças aéreas liderada pela US Air Force (o “Clube das Bombas”) não logrou em um ano, o reduzido destacamento das Forças Aeroespaciais Russas na Síria demonstrou que, como numerosos comentaristas têm afirmado – inclusive o MSIa Informa – a “guerra ao terror” não passa de um pretexto para a imposição da agenda de Washington.
Uma questão intrigante tem sido a incapacidade da coalizão ocidental de atingir os longos comboios do Estado Islâmico (EI) em suas reluzentes caminhonetes Toyota (a maioria fornecida pelo Departamento de Estado à chamada “oposição moderada” e posteriormente transferida aos jihadistas), alvos bastante vulneráveis a ataques aéreos orientados pela sofisticada capacidade de vigilância disponível ao comando estadunidense, com a sua armada de drones e satélites.
Em uma entrevista à televisão australiana, em agosto último, o jornalista inglês Robert Fisk, veterano correspondente do The Independent no Oriente Médio e um dos melhores conhecedores da região, informou que a aviação estadunidense poderia ter bombardeado o comboio do Estado Islâmico (EI) que se dirigia à histórica cidade de Palmira, no sul da Síria. Diante da inação, os jihadistas tomaram a cidade milenar e ali perpetraram o seu costumeiro espetáculo macabro de assassinatos e destruição do patrimônio histórico. Depois de Aleppo, a retomada de Palmira representaria outro marco de grande significado simbólico para a coalizão dos Aliados (denominação à qual os sírios, russos, iranianos, libaneses e iraquianos fazem jus com todos os méritos).
Um relatório de avaliação do cenário do conflito, elaborado em agosto de 2012 pela Agência de Inteligência de Defesa (DIA) dos EUA e recentemente revelado pela Lei de Liberdade de Informação, agência já havia antecipado a emergência do EI, acertando até mesmo o nome que a entidade islamista adotaria: “O ISI [Estado Islâmico do Iraque, em inglês] poderia, também, declarar um Estado Islâmico, com a sua união com outras organizações no Iraque e na Síria, o que criará um grave perigo, no tocante à unificação do Iraque e à proteção do seu território (RT, 10/08/2015).”
O relatório adverte sobre “consequências sombrias” desse cenário, uma vez que ele permitiria à rede terrorista Al-Qaida retomar as suas posições no Iraque e unificar as forças jihadistas sunitas, no Iraque e na Síria, e o restante dos sunitas no mundo árabe, lançando-os contra as minorias islâmicas que consideram dissidentes.
Em uma entrevista à rede Al-Jazira, ninguém menos que o ex-diretor-geral da agência, general Michael Flynn, ao ser perguntado sobre se o governo estadunidense teria “feito vista grossa” à análise da DIA, respondeu secamente: “Eu acho que foi uma decisão deliberada.”
Um aspecto de suma relevância na intervenção russa é a demonstração real das suas capacidades militares, que têm surpreendido os observadores ocidentais. Primeiro, pela eficiência do reduzido destacamento aéreo (constituído por 30 aviões de ataque SU-24M, SU-25MS e SU-34, quatro caças SU-30SM e 15 helicópteros MI-24 de assalto e MI-8 de transporte e uso geral), que tem mantido um altíssimo nível de operacionalidade e precisão nos ataques. Segundo, pela insuspeita qualidade de novos armamentos e equipamentos, para os quais estão convergindo as atenções dos especialistas militares, não apenas dos EUA e seus aliados-vassalos, como de outros países com importantes interesses estratégicos a devender.
Um deles é o míssil de cruzeiro furtivo Kaliber-NK, 26 dos quais foram disparados de navios operando no Mar Cáspio, a 1.500 quilômetros de distância dos seus alvos, que atingiram com precisão de poucos metros. Além do enorme alcance da arma, impressionou o fato de os mísseis terem sido lançados por quatro belonaves relativamente pequenas (uma fragata classe Gepard, de 1.900 toneladas, e três corvetas classe Bunyan-M, de 950 toneladas), quando os seus equivalentes estadunidenses são disparados apenas por destróieres e cruzadores muito maiores. O emprego dos mísseis, que não tinha qualquer necessidade militar estrita, foi considerado como uma demonstração de força aos integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), inclusive, quanto à inutilidade dos dispendiosos escudos antimísseis que os EUA estão construindo ao redor da Rússia, como observou o analista francês Thierry Meyssan (Réseau Voltaire, 19/10/2015).
Meyssan, que tem vínculos com setores da inteligência francesa e atualmente reside em Damasco, informa, também, que a força russa dispõe de um formidável sistema de interferência eletrônica, que permite interferir em radares, circuitos de controle, sistemas de transmissão de informações e outros integrantes das redes de comando, controle, comunicações, computadores e inteligência (C4I, no jargão militar) das forças oponentes. Segundo ele, o equipamento está operando em Hmeymim, ao norte de Latakia, e tem um alcance de 300 quilômetros, o que inclui em seu raio de ação a crucial base aérea turca de Incirlik, de onde operam as aeronaves da coalizão ocidental que efetuam ataques em território sírio.
“Estupefato, o Pentágono está agora dividido entre os que tendem a minimizar os fatos e a buscar falhas no dispositivo militar russo e os que, ao contrário, consideram que os EUA perderam a sua superioridade em matéria de guerra convencional, e que necessitará de longos anos para recuperá-la”, afirma.
Talvez, a eficiência do sistema tenha “convencido” o comando estadunidense da coalizão ocidental a estabelecer uma linha direta com o comando russo, para evitar eventuais incidentes no espaço aéreo sírio. Anteriormente, os russos já haviam estabelecido uma linha semelhante com as Forças de Defesa de Israel, que cessaram as costumeiras incursões na Síria e vinham atuando como intermediários para os contatos russo-estadunidenses.
Entretanto, tão importante quanto a qualidade dos equipamentos e dos homens que os operam (p.ex., vários dos controladores aéreos russos são fluentes em árabe) é a estreita coordenação de inteligência e operacional estabelecida com os demais Aliados, que tem possibilitado uma criteriosa seleção dos alvos das operações aéreas e minimizando as possibilidades de danos e baixas entre os civis (até agora, não surgiu qualquer informação crível a respeito).
A determinação de Moscou levou o ex-subsecretário do Tesouro Paul Craig Roberts (Governo Reagan), um dos mais severos críticos do belicismo de seu país, a decretar “o fim da Unipotência”, em sua coluna de 17 de outubro. Para ele, o recente discurso do presidente Vladimir Putin na Assembleia Geral das Nações Unidas significou uma inflexão histórica:

Até o discurso de Putin, o mundo era intimidado pelo Valentão de Washington. A resistência a Washington trazia uma rápida retaliação. No Oriente Médio e na África, ela trazia sanções econômicas e invasões militares que destruíam países inteiros. Na França e em outros Estados vassalos dos EUA, trazia multibilionários confiscos de ativos bancários, como preço por não seguir as políticas de Washington… Outros países se sentiam impotentes diante da Unipotência hegemônica arrogante, que de vez em quando respondia às desobediências com ameaças, como a do subsecretário de Estado Richard Armitage, que ameaçou bombardear o Paquistão “de volta à idade da pedra”.
O presidente Putin colocou um fim em tudo isso, em 28 de setembro. Ele se ergueu diante do mundo, na presença da soberba transbordante do hegemon, e colocou o guizo no pescoço do gato… A Unipotência hegemônica deixou de existir em 28 de setembro. Este é um divisor de águas. Ele afetará o comportamento de cada governo. Até mesmo alguns empedernidos Estados vassalos, cujos “líderes” são bem pagos, se moverão rumo a uma política externa mais independente.

O perigo, adverte, são “os enlouquecidos neoconservadores”, essa “escória inumana que tem controlado a política externa dos EUA desde o segundo Governo Clinton” e, segundo Roberts, “são capazes de defender a hegemonia estadunidense com armas nucleares” e de organizar “um ataque bandeira falsa que leve os EUA e a Rússia à guerra”.

As responsabilidades do “day after”

Na avaliação feita neste sítio há um ano (“Sob que condições o Estado Islâmico deve ser combatido”), quando antecipamos a necessidade de uma ação militar semelhante à iniciativa russa, afirmamos também que tal ação necessitaria do complemento imprescindível de uma agenda de desenvolvimento, uma espécie de “Plano Marshall” regional, que oferecesse uma perspectiva de um futuro positivo e atividades criativas e produtivas para os milhões de jovens hoje desocupados e potencialmente seduzidos pela violência “purgativa” do jihadismo. Iniciativa que, ademais, teria um enorme potencial para reduzir consideravelmente as tensões em toda a área, além de proporcionar grandes oportunidades econômicas para as potências extrarregionais (que, apesar de acossadas pela crise econômico-financeira, só conseguem pensar em termos militares).

No nosso entendimento, a implementação de tal agenda representaria um passo importante no estabelecimento de uma nova ordenação global para as relações internacionais, em que a cooperação para o desenvolvimento pudesse suplantar o hegemonismo, o confrontacionismo e, sobretudo, o “excepcionalismo” neocolonialista, que é a mãe de todos os fundamentalismos.
Em um artigo recente, o conceituado analista político F. William Engdahl faz considerações semelhantes:

 

(…) O desafio final será: que ordem ou matriz econômica emergirá internacionalmente das cinzas da guerra? Isto determinará a possibilidade de se obter ou não uma paz genuína e o isolamento da máquina de guerra de Washington.
Aqui, felizmente, a maior parte dos componentes essenciais de uma tal ordem econômica soberana alternativa já existem, embora de uma forma falha. Eu falo do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB), em Pequim, com 57 membros potenciais, e do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) dos BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul), baseado em Xangai, China, que já está operando. As portas para a candidatura de regimes estáveis, tanto na Síria como no Iraque, a se integrarem ao AIIB, estão abertas. O Irã já é um membro fundador do banco, assim como a Rússia. Isso e, talvez, créditos ou empréstimos para infraestrutura do NDB dos BRICS poderiam ajudar bastante a estabilizar e espalhar a paz mundial, começando pelas zonas de guerra da Primavera Árabe dos EUA. (…)

 

Todavia, Engdahl adverte que, para serem efetivas, tais instituições terão, cedo ou tarde, que se livrar da adesão ao “sistema do dólar” e dos correspondentes princípios financeiros baseados no financiamento dos Estados com a emissão de títulos de dívida, intermediados pela rede de bancos centrais nominalmente independentes.
Embora as condições para isso, talvez, tenham que aguardar um aprofundamento da crise global, como um forte abalo tectônico no sistema financeiro internacional, é fundamental que tais alternativas sejam debatidas e aprofundadas, para que estejam à mão quando se tornarem necessárias.

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