Síria: Stalingrado da “Nova Ordem Mundial”

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A impressionante histeria dos altos círculos do eixo anglo-americano e seus apêndices da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), motivada pelo início das operações aéreas russas na Síria, em 30 de setembro, tem um único motivo. A iniciativa russa coloca em xeque toda a agenda estratégica criada pelos geopolíticos oligarcas após a implosão da União Soviética, a mal denominada “Nova Ordem Mundial”, proclamada em 1990 pelo presidente George H.W. Bush, com a finalidade de estabelecer uma hegemonia unipolar baseada no poderio militar de Washington – esquema no qual é crucial o domínio da região do Grande Oriente Médio. Se for bem sucedida em contribuir para eliminar a ameaça do radicalismo islamista contra os Estados nacionais da Síria e do Iraque, como tudo indica que será, a ação russa poderá representar para tal agenda um ponto de inflexão análogo à Batalha de Stalingrado, que assinalou o limite do avanço nazista na II Guerra Mundial.

Evidentemente, os alvos não se limitaram ao EI, mas incluíram outros grupos radicais que lutam contra o governo de Bashar al-Assad, como a Frente al-Nusra, o que acarretou fortes reações nas capitais do “Ocidente” que converteram Assad no bicho papão do momento, em especial, Washington, Londres e Bruxelas, onde o nível de apoplexia bateu no topo da escala.

Em entrevista à rede CNN, o arquibelicista senador John McCain, presidente do Comitê dos Serviços Armados do Senado, abriu os protestos: “É interessante que os ataques iniciais deles foram contra indivíduos e grupos que foram financiados e treinados pela nossa CIA (Politico.com, 1º./10/2015).”

É um segredo de polichinelo que a Frente al-Nusra é apenas um dos várias grupos radicais mobilizados contra o governo de Damasco, que foram formados, treinados, equipados e financiados pelos EUA e seus aliados na coalizão anti-Assad, principalmente, Turquia, Catar, Arábia Saudita, Reino Unido, França, Jordânia e Israel.

Em Londres, o premier David Cameron afirmou que a intervenção russa estava, “realmente, piorando a situação”. Segundo ele, “está absolutamente claro que a Rússia não está discriminando entre o EI e os grupos de oposição sírios legítimos e, como resultado, eles estão, na verdade, apoiando o açougueiro Assad e o ajudando. Com justiça, eles têm sido condenados em todo o mundo árabe pelo que fizeram e eu acho que o mundo árabe está certo sobre isso (BBC, 3/10/2015)”.

Do outro lado do Atlântico, o presidente Barack Obama bateu na mesma tecla, lamentando que os russos “não distinguem entre o EI e uma oposição sunita moderada, que quer ver o sr. Assad sair de cena. Da perspectiva deles, todos são terroristas. E isto é uma receita para o desastre (The Guardian, 2/10/2015)”.

Em Bruxelas, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, deu a sua contribuição para a barragem de queixas contra Moscou: “Eu também estou preocupado com que a Rússia não está atingindo o EI, mas, em vez disto, está atacando a oposição e civis sírios (Sputnik News, 5/10/2015).”

Na sexta-feira 2 de outubro, a coalizão ocidental divulgou um manifesto, criticando as operações militares russas, que, segundo o texto, “constituem uma escalada adicional e apenas alimentarão mais extremismo e radicalização”. O documento também pede à Rússia para “cessar imediatamente os seus ataques à oposição e a civis sírios e enfocar os seus esforços em combater o EI (The Guardian, 2/10/2015)”.

Por ironia, no dia seguinte, foi a própria aviação estadunidense que bombardeou um alvo civil, um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras, em Kunduz, Afeganistão, em meio aos combates com as milícias do Talibã que haviam recapturado a cidade. O ataque causou a morte de 22 pessoas e ferimentos graves em várias outras. Após alguns dias de tergiversações, o comando militar dos EUA admitiu o ataque, mas defendeu-se afirmando que ele fora “acidental”.

O nível de insanidade das lideranças de Washington ficou evidenciado na ameaça ostensiva de retaliação vocalizada pelo ex-conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski, um inveterado russófobo que, apesar de não integrar os círculos “neoconservadores”, jamais deixou de ser um dos principais ideólogos da hegemonia estadunidense. Escrevendo no Financial Times londrino, ele transmitiu o pensamento de grande parte dos seus pares:

(…) Moscou escolheu intervir militarmente, mas sem cooperação política ou tática com os EUA – a principal potência estrangeira engajada em esforços diretos, embora não muito efetivos, para desalojar o sr. Assad. Assim fazendo, alegadamente, lançou ataques contra elementos sírios que são patrocinados, treinados e equipados pelos estadunidenses, infligindo danos e provocando baixas. Na melhor das hipóteses, foi uma demonstração de incompetência militar russa; na pior, uma evidência de um perigoso desejo de destacar a impotência política estadunidense.

Em qualquer dos casos, o futuro da região e a credibilidade estadunidense entre os estados do Oriente Médio estão em jogo. Nessas circunstâncias rapidamente cambiantes, os EUA têm apenas uma única opção real se quiser proteger os seus interesses mais amplos na região: transmitir a Moscou a exigência de desistir das ações militares que afetem diretamente os ativos estadunidenses. A Rússia tem todo o direito de apoiar o sr. Assad, se assim desejar – mas qualquer repetição do que acaba de transpirar deveria ensejar uma imediata retaliação dos EUA.

As presenças navais e aéreas russas na Síria são vulneráveis e geograficamente isoladas da sua pátria. Elas poderiam ser “desarmadas”, se eles persistirem em provocar os EUA. Mas, ainda melhor, a Rússia poderia ser persuadida a atuar junto com os EUA, na busca de uma acomodação mais ampla para um problema regional que transcende os interesses de um único Estado.

Se o conceito de “persuasão” de Brzezinski e seus correligionários incluir ameaças militares, tudo indica que qualquer esforço nesse sentido será inútil. A operação russa na Síria, cujos resultados são prontamente disponibilizados na Internet, está demonstrando ao mundo uma eficaz combinação de determinação política e eficiência militar, que não poderá ser contra-arrestada sem o risco de um confronto de grandes proporções. Quanto à cooperação com a coalizão ocidental, o comando russo já se manifestou totalmente aberto a ela, desde que feita a partir do centro de coordenação de inteligência da coalizão Rússia-Síria-Iraque-Irã-Hisbolá, em Bagdá, onde a proximidade com o comando ocidental pode facilitá-la.

Por outro lado, é possível que um dos motivos da ira de Brzezinski seja a percepção de que a investida russa poderá sinalizar o fim da manipulação do radicalismo islâmico para as finalidades geopolíticas dos EUA e seus subordinados, iniciada por ele próprio no Afeganistão, no final da década de 1970. Daí resultaram a rede Al-Qaida e toda a fauna de jihadistas que têm infernizado o Oriente Médio, Cáucaso, Norte da África e Europa , em ações que, com frequência, são instigadas por agências de inteligência engajadas na agenda da “Nova Ordem” – o que já foi chamado “terrorismo sintético” ou, como preferimos, “radicalismo islâmico-ocidental”.

Como seria previsível, uma virulenta campanha de desinformação foi desfechada contra as ações russas, antes mesmo que os aviões decolassem rumo aos seus alvos, como fez questão de assinalar o presidente Vladimir Putin. Fotografias tomadas dias antes dos primeiros ataques e, até mesmo, anos atrás, foram exibidas na Internet, para mostrar supostas vítimas civis dos bombardeios, inclusive crianças. Embora tenham sido devidamente desmentidas, as informações sobre vítimas civis dos ataques prosseguem e não deverão cessar, devido à sua importância para a guerra de propaganda anti-russa.

Outro aspecto relevante é o retorno definitivo da Rússia ao tabuleiro geopolítico, no nível grande mestre internacional, consolidando uma tendência que já havia sido demonstrada na surra militar aplicada à Geórgia, em 2008, na própria Síria, em 2013, ao impedir um iminente ataque dos EUA, e na reanexação da Crimeia, em 2014. Ao contrário das campanhas da “Nova Ordem”, no Iraque (1991 e 2003), Iugoslávia (1998) e até mesmo na Líbia (2011), na Síria, definitivamente, o Kremlin traçou a linha vermelha no terreno e já deixou claro que a saída forçada de Assad, como querem os mandarins de Washington, Londres, Bruxelas e Paris, não é uma pré-condição aceitável para qualquer tipo de cooperação ou negociação sobre o futuro do país. E a exibição de poderio militar na Síria (que incluiu o disparo de mísseis de cruzeiro de longo alcance de navios no Mar Cáspio, a 1.500 quilômetros dos seus alvos) não tem os jihadistas como objetivos exclusivos. Entre os modernos aviões de combate enviados à base aérea de Latakia, encontram-se caças Sukhoi Su-30SM, cuja função ostensiva é vedar o espaço aéreo sírio a incursões de aviões da OTAN e israelenses, que não tenham sido previamente articuladas com o comando russo.

Não obstante, a determinação russa de não tolerar mais os ditames da “Nova Ordem” não se mostra apenas no campo estritamente militar. Ao contrário, os estrategistas do Kremlin têm demonstrado um domínio total das novas regras de guerra irregular (ou “guerra de quarta geração”) alinhadas pelas suas contrapartes hegemônicas do Ocidente, e estabelecido a sua linha de ação de acordo com elas.

Um exemplo marcante é o uso eficiente da mídia eletrônica, seguindo as pegadas da atuação da CNN a partir da Guerra do Golfo de 1991, quando o mundo pode acompanhar diretamente, muitas vezes ao vivo, as operações militares contra o Iraque de Saddam Hussein. Tendo aprendido a lição, Moscou pode alinhar hoje uma eficiente brigada de órgãos midiáticos, como a rede de televisão RT, a rádio Voice of Russia, os sítios Sputnik News, Russia Insider e outros (alguns com várias opções de idiomas), os quais produzem informações e análises que, por sua qualidade, vêm ganhando uma aceitação e público crescentes em todo o mundo, atuando como um contraponto à grande mídia controlada pelo Establishment oligárquico ocidental.

Na mesma linha, está o enquadramento de agências de ajuda, fundações privadas e organizações não-governamentais (ONGs) e estrangeiras como instrumentos políticos da “Nova Ordem”. Depois de anos tolerando as operações de organizações como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a Fundação Nacional para a Democracia (NED), o Open Society Institute do megaespeculador George Soros e outras, o governo russo decidiu acabar com a esbórnia, estabelecendo regras estritas para o funcionamento dessas entidades no país, o que levou muitas delas a encerrar as atividades na Rússia (exemplo que deveria ser seguido por países como o Brasil).

Ao travar a “Batalha da Síria” em todas essas frentes, a Federação Russa de Vladimir Putin pode estar estabelecendo um limite ao avanço da guerra da “Nova Ordem Mundial” contra os Estados nacionais soberanos e suas instituições, os verdadeiros alvos da campanha do Establishment oligárquico de Washington e seus sócios-subordinados. Por uma ironia da História, assim como Stalingrado foi o ponto de inflexão para a derrocada nazista, a da Síria poderá contribuir para livrar a grande nação estadunidense da infestação “neoconservadora” e a Europa, do cativeiro dos “oligocratas” de Bruxelas.

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