Sob que condições o Estado Islâmico precisa ser combatido

Qualquer observador com um conhecimento mínimo dos fatos pode concluir que o plano com o qual o presidente Barack Obama pretende confrontar o Estado Islâmico (EI) não tem qualquer possibilidade de funcionar, se a sua intenção real for mesmo confrontar os jihadistas. De fato, uma agenda para o combate efetivo à grave ameaça representada pelo EI, não apenas para a região, mas também para os demais continentes (em alguns dos quais já há notícias da presença de células ou franquias do grupo), exigirá uma abordagem diferente.

Primeiramente, qualquer ação internacional contra o grupo precisa ser legitimada pela única autoridade mundial investida de tal prerrogativa, o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Evidentemente, isto não cumpre os requisitos básicos para a intervenção humanitária pedida pelo papa Francisco, a propósito da perseguição de minorias religiosas pelos jihadistas.

Segundo, necessita ser balizada por uma causa justa. No caso, trata-se da preservação das fronteiras nacionais em sua forma atual, especificamente, do Iraque e da Síria, deixando-se de lado quaisquer pretensões de formação de enclaves étnicos ou religiosos, como o já admitido para os curdos iraquianos. De maneira alguma, a necessidade de se derrotar a aberração do EI (que já controla um território equivalente a dois terços do Reino Unido) deve justificar qualquer concessão que viole a integridade territorial dos dois países.

Terceiro, as potências extrarregionais devem abandonar as suas pretensões hegemônicas, quanto ao controle dos recursos naturais da região. Este, reconhecidamente, é o aspecto mais difícil de todos, devido aos hábitos supremacistas arraigados pelo tempo e pelas inclinações “excepcionalistas” dos membros do Establishment oligárquico anglo-americano. Não obstante, embora a existência do EI possa ser conveniente para a preservação das estratégias políticas belicistas de tais grupos, a violência e as pretensões expansionistas dos fanáticos jihadistas, somadas à relativa facilidade com a qual vêm recrutando adeptos, inclusive, na Europa e na América do Norte, podem acabar representando uma ameaça muito maior que a tolerável, mesmo para aqueles oligarcas acostumados a manipulações do gênero. Quanto à Turquia, deveria ser instada a fechar as suas fronteiras e interromper o seu apoio aos insurgentes sírios.

Quarto, o engajamento direto de atores regionais relevantes, como a Síria, Irã e Líbano, associado à cooperação de Israel e Rússia e a um entendimento com as monarquias do Golfo Pérsico, que financiaram a maior parte da “oposição” síria – e, portanto, atuaram como “parteiras” do EI.

Quinto, o enfrentamento militar das hordas do EI não poderá prescindir das proverbiais “botas no terreno”, leiam-se forças de infantaria. Neste quadro, aeronaves pilotadas, drones e satélites podem prover apenas apoio de inteligência e ações localizadas de apoio armado e transporte. Especificamente, será imprescindível mobilizar as únicas forças militares capazes de enfrentar o EI em campo: o Exército sírio; a Força al-Quds iraniana; as milícias curdas do Iraque, Síria e Turquia; o Hisbolá libanês; e um Exército iraquiano renovado e minimamente motivado.

Sexto, as ações militares valerão pouco sem a interrupção ou o enfraquecimento das redes de financiamento e logística do EI. Para tanto, será preciso um esforço conjunto de inteligência e repressão contra as linhas de abastecimento e fontes de financiamento do grupo, baseadas em vendas clandestinas de petróleo e objetos de arte roubados de sítios históricos da região, além de sequestros, pilhagens e outras atividades ilícitas. Neste particular, os serviços de inteligência da “coalizão núcleo” da OTAN e a Interpol podem proporcionar um apoio fundamental.

Sétimo, uma derrota militar do EI não implicará na supressão da ameaça representada pelo apelo do jihadismo entre multidões de jovens relativamente educados e desempregados, tanto na própria região como nos demais continentes onde o EI tem recrutado adeptos. Segundo as estimativas de vários governos europeus, pelo menos 7 mil dos mais de 30 mil militantes do EI são detentores de passaportes de países do continente, entre os quais pelo menos algumas centenas de mulheres. Nos EUA, as autoridades suspeitam que outras centenas de jovens já se juntaram ao grupo.

A propósito, vale registrar o artigo publicado do escritor estadunidense de origem árabe Michael Muhammad Knight, no Washington Post de 3 de setembro, recordando a sua própria experiência de adolescente estudioso em uma madrassa no Paquistão, quando sonhava juntar-se à guerrilha separatista na Chechênia. Os parágrafos finais do artigo, cujo sugestivo título é “Eu entendo por que os ocidentais estão se juntando a movimentos jihadistas como o ISIL – eu quase fui um deles”, são reveladores:

É fácil presumir que pessoas religiosas, particularmente, muçulmanos, simplesmente, fazem as coisas porque as suas religiões dizem que o façam. Mas quando penso nos meus impulsos aos 17 anos de se tornar um combatente dos rebeldes chechenos, eu considero que os fatores religiosos. O meu cenário imaginado de libertar a Chechênia e transformá-la em um Estado islâmico era uma fantasia puramente estadunidense, baseada em valores e ideais estadunidenses. Sempre que ouço falar de um estadunidense que voa pelo globo para se lançar em lutas de libertação que não são suas, penso, que coisa tão estadunidense a ser feita.

E esse é o problema. Nós somos ensinados a amar a violência e a ver as conquistas militares como atos benevolentes. A criança estadunidense que quer intervir na guerra civil de outra nação deve a sua visão do mundo, tanto ao excepcionalismo estadunidense como às interpretações jihadistas das escrituras sagradas. Eu cresci em um país que glorifica o sacrifício militar e sente ter o direito de reconstruir outras sociedades de acordo com a sua própria visão. Eu internalizei estes valores antes mesmo de pensar em religião. Antes que eu soubesse o que era ser um muçulmano, sem falar em conceitos como a ‘jihad’ ou um ‘Estado islâmico’, a minha vida estadunidense me ensinou que é isso que os homens valentes fazem.

Por conseguinte, um complemento imprescindível à ação militar seria o estabelecimento de uma agenda de desenvolvimento, uma espécie de “Plano Marshall” regional, que oferecesse uma perspectiva de um futuro positivo e atividades criativas e produtivas para os milhões de jovens hoje desocupados e potencialmente seduzidos pela violência “purgativa” do jihadismo. De resto, uma iniciativa do gênero teria um enorme potencial para reduzir consideravelmente as tensões em toda a área, além de proporcionar grandes oportunidades econômicas para as potências extrarregionais (que, apesar de acossadas pela crise econômico-financeira, infelizmente, só conseguem pensar em termos militares).

Finalmente, a implementação de uma agenda como essa representaria um passo importante no estabelecimento de uma nova ordenação global para as relações internacionais, em que a cooperação para o desenvolvimento pudesse suplantar o hegemonismo, o confrontacionismo e, sobretudo, o “excepcionalismo” neocolonialista, que é a mãe de todos os fundamentalismos.

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