Quanto valerá a Petrobras em 2051?

“A Petrobras vai valer zero daqui a 30 anos. E o que nós fizemos? Deixamos o petróleo lá em baixo com um monopólio, uma placa de monopólio estatal em cima. O objetivo é tirar esse petróleo o mais rápido possível e transformar em educação, investimento, treinamento, tecnologia.”
O vaticínio, proclamado com a habitual combinação de veemência, empáfia e soberba, foi feito pelo quase inefável ministro da Economia Paulo Guedes, oferecendo-o como justificativa para a privatização da Petrobras, sonho de consumo de dez entre dez operativos do mercado financeiro nacional, casta de origem do outrora celebrado “superministro”. Apostando no desconhecimento generalizado da maioria dos brasileiros sobre a importância estratégica da empresa, Guedes tem sugerido que a venda do restante das ações de posse do Estado brasileiro geraria recursos que poderiam ser aplicados em programas sociais, para o que já encarregou seus auxiliares de elaborar um modelo de privatização.

Sem dispor de qualquer capacitação remotamente assemelhada aos dotes oraculares do ministro, atrevemo-nos a especular sobre dois possíveis cenários para o futuro da Petrobras no prazo estipulado por ele.

O primeiro contempla a concretização da desestatização total da empresa, já submetida desde 2016 a um insidioso processo de esquartejamento que equivale a uma autêntica privatização “branca”, cujo objetivo imediato é convertê-la em uma mera exportadora de petróleo cru, desprovendo-a de toda a infraestrutura vertical (dutos, terminais, bases de distribuição, refinarias e a BR Distribuidora) construída durante décadas para maximizar a sua eficiência e, pior, da sua poderosa influência positiva sobre incontáveis setores da economia nacional – indústrias, serviços, pesquisa e desenvolvimento etc.

Neste cenário, o desfecho mais provável é que a Petrobras como a conhecemos sequer chegue a 2051, pois os seus possíveis controladores privados, seguindo a linha dos mercados financeiros “globalizados”, tratariam logo de acabar de fatiá-la em partes menores e até mesmo o seu nome histórico seria prontamente mudado, como é praxe em transações do gênero entre os altos círculos econômicos e financeiros transnacionais, concretizando o que o governo de Fernando Henrique Cardoso não conseguiu fazer.

Em tal caso, entre as muitas perdas irreparáveis para o País, caberia um destaque para o CENPES, como é mais conhecido o Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello, o extraordinário centro de pesquisas da Petrobras, um dos mais importantes do mundo no setor. Entre muitas outras façanhas, responsável pelo desenvolvimento das tecnologias que possibilitaram o pioneirismo brasileiro na exploração de petróleo e gás natural em águas profundas e a exploração da camada pré-sal, em estreita cooperação com universidades e outros institutos de pesquisa. Em um ambiente de maximização de lucros privados e sem a integração vertical de uma empresa dedicada a algo mais que vender petróleo cru, seriam bastante remotas as possibilidades da sua sobrevivência, com a dispersão do seu importante quadro de pesquisadores e técnicos sendo o desfecho mais provável.

Um segundo cenário, mais otimista, seria a recuperação do impulso original da Petrobras como uma empresa de Estado orientada para os interesses nacionais e dedicada a políticas públicas voltadas para maximizar os seus benefícios para a sociedade brasileira, de acordo com o espírito que norteou a sua criação, em 1953. Neste caso, é previsível que a empresa retomaria uma parte importante do seu enorme potencial como um dos pilares de um projeto de reconstrução da economia nacional, que se espera de algum governo futuro minimamente comprometido com a construção de uma Nação digna e plenamente capaz de empregar a fundo os seus vastos potenciais humanos e naturais em favor de um projeto civilizatório, deixando para trás a visão de “balcão de negócios”, que tem prevalecido na maior parte da história nacional.

Em tal perspectiva, poder-se-ia esperar que, como já contemplam algumas de suas coirmãs estatais e privadas de outros países, a Petrobras não se manteria apenas como exploradora e processadora de hidrocarbonetos, ampliando a sua área de atuação para novas fontes de energia, como hidrogênio, fusão nuclear e outras. Para quem pensa que isto representaria um grande desvio da sua área de atividades central, convém observar que grandes petroleiras como a ENI italiana, a Equinor norueguesa e outras, estão investindo em start-ups tecnológicas estadunidenses e europeias engajadas em projetos de reatores de fusão nuclear. Nenhum afastamento do seu “core business”, como poderiam argumentar críticos viciados nas práticas dos mercados financeiros, simples visão de futuro.

Em ambos os cenários, cabe destacar que, apesar de o desenvolvimento de novas fontes energéticas sinalizar uma redução da relevância dos hidrocarbonetos para a geração de energia, ao longo do século, a sua importância para a indústria petroquímica e química não diminuiria, em função da enorme pauta de produtos de ambas que dependem dos derivados de petróleo e gás natural. Inclusive, o uso de tais fontes energéticas avançadas tende a proporcionar grandes ganhos de eficiência para todos esses setores industriais.

Em essência, o primeiro cenário envolve o altíssimo risco da extinção da Petrobras. O segundo permitiria que, às portas do seu centenário, ela continuasse desempenhando o papel de mola mestra do desenvolvimento nacional, para o qual os seus criadores tanto se empenharam, até com derramamento de sangue. Neste caso, o seu valor seria verdadeiramente incalculável – mas isto é algo que estaria bastante além da capacidade de entendimento de adictos ao rentismo e aos jogos financeiros.

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