“Sempre à frente”: o tiro pela culatra do Bradesco

Com a motivação de pretender estar “sempre à frente”, como dizia o seu conhecido slogan dos anos 90, o Bradesco encampou plenamente a agenda do ambientalismo “politicamente correto”, mas acaba de se chocar com a realidade, demonstrando o antigo provérbio lusitano de que a esperteza, quando excessiva, costuma virar bicho e acaba engolindo o esperto.

Em lugar de se orientar pelo velho e consagrado bom senso que fundamenta a maioria dos provérbios populares, o banco optou por fazer acenos aos excessos do ambientalismo, hoje adornado com vistosas etiquetas empresariais como a ESG, sigla da moda em inglês para meio ambiente, ações sociais e governança. Etiqueta plenamente sintonizada com a narrativa predominante da “descarbonização” da economia mundial, para a qual cada indivíduo da sociedade está sendo convocado para dar a sua contribuição.

Sem surpresa, o setor financeiro mergulhou de cabeça no maná das “finanças verdes”, que, além de ajudar a consolidar a hegemonia das finanças na economia, por meio do virtual controle dos créditos para atividades compatíveis com os requisitos de “sustentabilidade”, poderá também assegurar lucrativas receitas de indivíduos antenados com as novas tendências, interessados em neutralizar as suas “pegadas de carbono”. E, para anunciar as boas intenções do setor, nada como uma campanha publicitária veiculada pelas redes sociais da Internet, não é mesmo? Pelo menos, era o que pensava o Bradesco.

Em dezembro, o banco fundado em 1943 por Amador Aguiar anunciou com pompa e circunstância a oferta aos seus clientes de um aplicativo para o cálculo das suas “pegadas de carbono”, ou a quantidade do temível dióxido de carbono (CO2) emitida anualmente por eles. No aplicativo, os clientes são também apresentados à possibilidade de compensar as suas contribuições individuais ou corporativas ao apavorante aquecimento global, comprando indulgências carbônicas, vulgo créditos de carbono.

“Com o app, ele passa a conhecer quanto e como seus hábitos resultam na emissão de carbono e entender quais ações ele pode adotar para mitigar a sua pegada de carbono”, disse o “head” de sustentabilidade do banco, Marcelo Pasqualini (O Estado de S. Paulo, 15/12/2021).

As estimativas sobre a “pegada” média anual dos brasileiros se situam entre 8-10 toneladas de carbono. Como as cotações dos créditos de carbono fecharam o ano na casa de R$ 80,00 a tonelada, a maioria dos clientes individuais do Bradesco teria que dispender anualmente quantias entre 640 e 800 reais para neutralizarem os seus impactos pessoais sobre a atmosfera do planeta, o que pode ser feito à vista ou em parcelas mensais.

Para divulgar a novidade e propagandear a sua agenda sustentável, o Bradesco encomendou à agência Leo Burnett Tailor Made uma grande campanha publicitária para ser veiculada na televisão e nas redes sociais. O resultado foi um vídeo de 49 segundos que acabou se revelando um dos maiores desastres da publicidade brasileira, talvez comparável ao célebre anúncio dos cigarros Vila Rica da década de 1970 com o grande jogador de futebol Gérson, que batizou involuntariamente a notória “Lei de Gérson”, entendida como a propensão a se levar vantagem a qualquer custo em qualquer situação.

O vídeo, intitulado “Carbono neutro Bradesco: transforme o futuro”, é protagonizado pelas Verdes Marias, três irmãs influenciadoras paulistas que promovem “uma vida mais sustentável, por meio de microrrevoluções em suas vidas”. A mensagem transmitida por elas é simples e direta:

Uhhhhhh!…

Duas atitudes simples que você pode tomar no seu dia-a-dia para reduzir o seu impacto. E uma extra.

A primeira é reduzir o nosso consumo de carne e aderir à Segunda sem Carne. A criação de gado contribui para a emissão dos gases de efeito estufa. Então, que tal se a gente reduzir o nosso consumo de carne e escolher um prato vegetariano na segunda-feira?

A segunda coisa é começar a compostar o nosso lixo. Lixo, não! O que sobra de alimento na nossa casa, a gente leva para a composteira, as minhoquinhas fazem o trabalho de transformar em adubo.

E a última dica é o aplicativo do Bradesco, que agora tá com uma funcionalidade nova. Você vai lá, calcula o quanto de carbono você emite e consegue compensar no aplicativo. Boa!

Uhhhhhh!…

Poucas horas após o aparecimento do anúncio nas redes, entidades e lideranças do setor agropecuário e políticos desfecharam uma ruidosa campanha de protestos, promovendo a hashstag #adeusbradesco e incitando os correntistas ligados ao setor a encerrarem as suas contas no banco. Várias entidades também divulgaram duras notas de protesto.

O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Tocantins (FAET), Paulo Carneiro, foi enfático: “O comercial do Bradesco agride quem trabalha e produz no campo e também contraria o comportamento de seus gestores e funcionários que costumam dispensar outro nível de atenção e consideração ao produtor rural.”

Em nota oficial, a entidade afirmou, ainda:

A mensagem surpreende e decepciona porque o Bradesco é uma instituição financeira que sempre esteve ao lado do produtor rural brasileiro, sendo parceiro em diversas iniciativas que estimulam a produção agropecuária em todo o país. E da mesma forma, é sabedor de que esse discurso pseudoambiental já foi devidamente rechaçado e desmascarado por especialistas no mundo todo, por não apresentar base que o sustente (Blog Norte AgroTO, 24/12/2021).

O presidente da Estância Bahia Leilões de Cuiabá (MT), Maurício Cardoso Tonhá, divulgou uma nota de repúdio ao “ato de insanidade do Bradesco” e anunciou o encerramento do relacionamento financeiro de mais de 40 anos com o banco.

A mesma atitude foi tomada pela Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), ao mesmo tempo em que questionava “medida gratuita, agressiva e equivocada contra o setor produtivo da carne bovina (Agronews, 13/01/2022)”.

A presidente da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, Aline Sleutjes (PSL-PR), disparou:

A atividade agropecuária brasileira alimenta milhões de pessoas no mundo, somos os maiores produtores de carne e soja e estamos entre os principais produtores de leite entre outros produtos, o agro vem sustentando a balança comercial brasileira à custa de muita dedicação e esforço do produtor, falar em redução de consumo chega a ser irresponsável, uma vergonha ao país (Correio dos Campos, 28/12/2022).

Outra reação contundente veio do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste (MS), com uma dura nota divulgada na véspera do Natal:

(…) O Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, entidade ligada ao Sistema Famasul, repudia veemente a forma que foi abordado um assunto de extrema relevância para um dos segmentos mais sustentáveis do AGRO BRASILEIRO e esclarece, que:

1. Existem pesquisas cientificas realizadas por Instituições e Entidades de renome nacional e com alta credibilidade, tais como a EMBRAPA, provando que dentro do sistema de produção da carne brasileira, predominante a pasto, o capim sequestra muito mais carbono do que o boi emite, deixando assim um saldo positivo para o meio ambiente e contribuindo assim para melhorias na qualidade de vida do ser humano.

2. A atividade Pecuária juntamente com a Agricultura e outros segmentos do AGRO, além de alimentar milhões de pessoas no Brasil e no mundo, vem sustentando a balança comercial brasileira às custas de muita dedicação e esforço do PRODUTOR, os quais pagam os juros mais altos do mundo para produzir alimento, à Instituições financeiras como o Banco Bradesco.

Essa Entidade questiona: se o segmento da PECUÁRIA é tão prejudicial ao meio ambiente, porquê o Banco Bradesco, com as suas linhas de credito financia essa atividade? É HIPOCRISIA OU GANÂNCIA?

Mediante a situação criada por esta campanha publicitária o Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, solicita a esta Instituição, a retirada imediata de circulação deste material de todos os veículos de comunicação OU caso isso não aconteça este Sindicato se compromete a encabeçar juntamente com outras Instituições e Entidades representativas do produtor rural uma campanha solicitando que produtores rurais e empresas ligadas ao AGRO cancelem as suas contas na Instituição Financeira Banco Bradesco (maiúsculas no original).

Antes mesmo da divulgação da nota, o Bradesco retirou o vídeo do ar e, no mesmo dia, divulgou uma retratação na forma de uma “Carta Aberta ao Agronegócio Brasileiro”, na qual, entretanto, procurou isentar-se da responsabilidade, como se uma decisão de tal alcance pudesse ter sido tomada à revelia da alta direção do banco:

Ao longo de seus quase 79 anos de história o Bradesco apoiou de forma plena o segmento do agronegócio brasileiro, estabelecendo parcerias sólidas e produtivas. Tal opção é baseada em sua crença indelével nesse segmento enquanto vetor de desenvolvimento social e econômico do país.

Contudo, nos últimos dias lamentavelmente vimos uma posição descabida de influenciadores digitais em relação ao consumo de carne bovina, associadas à nossa marca.

Importante dizer que tal posição não representa a visão desta casa em relação ao consumo da carne bovina.

Pelo contrário.

O Bradesco acredita e promove direta e indiretamente a pecuária brasileira e por conseguinte o consumo de carne bovina.

Diante do ocorrido, medidas foram imediatamente tomadas incluindo a remoção do conteúdo de ambiente público, e, além disso, ações administrativas internas severas.

Dessa forma, reiteramos nossa lamenta pelo ocorrido e reforçamos mais uma vez nossa crença irrestrita na pecuária brasileira.

A resposta e a retirada do vídeo não interromperam os protestos. Na segunda-feira 3 de janeiro, pecuaristas de São Paulo, Mato Grosso, Tocantins, Goiás e Pará organizaram churrascos diante de agências do banco e distribuíram espetinhos para os passantes.

Em uma frenética tentativa de controle de danos, no dia 5, o Bradesco enviou à sede da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), em Campo Grande (MS), o seu gerente regional de alta renda, Carlos André Carvalho, o gerente regional, Luiz Carlos Rossi Júnior, e o gerente local José Carlos Nogueira, para se retratarem de forma institucional com a entidade. Na ocasião, o presidente da Famasul, Marcelo Bertoni, ressaltou o compromisso do setor com as metas de redução dos gases de efeito estufa, empregando técnicas sustentáveis, e citou os programas Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) e Recuperação de Pastagens Degradadas, que somam quase 22 milhões de hectares (Famasul, 05/01/2022).

Por sua vez, as influenciadoras se revelaram “frustradas” com a decisão do banco de retirar o vídeo da Internet. Em entrevista à Folhapress, Mariana Prado Moraes, uma das Verdes Marias, lamentou: “Foi uma reação de ódio para o convite feito pela segunda-feira sem carne, mostrando como o tema incomoda alguns grupos, mas as mudanças climáticas precisam ser discutidas, independentemente do incômodo gerado… O tema da mudança de hábito em relação à alimentação precisa ser colocado na pauta, e isso aconteceu com o vídeo (Yahoo Notícias, 13/01/2022).”

Segundo ela, o grupo se mantém em diálogo com o Bradesco.

Embora não seja possível avaliar a extensão dos estragos causados pelo episódio, é certo que o banco acabou desagradando a todas as partes interessadas. Por um lado, ambientalistas, adeptos da agenda ESG e publicitários criticaram o recuo diante das pressões, o que demonstraria uma reduzida firmeza de convicções, além da tentativa de responsabilização de terceiros. Pelo outro, muitos produtores não ficaram totalmente convencidos da seriedade da retratação, apontado, por exemplo, que a sugestão de redução do consumo de carne continua integrando o aplicativo de “carbono neutro” do Bradesco.

De qualquer maneira, a reação do setor agropecuário a esse tipo de propaganda “politicamente correta” insidiosa é das mais oportunas e pode sinalizar um esgotamento de paciência de outros segmentos da sociedade com os excessos da agenda ambiental e climática. Principalmente, na medida em que o acúmulo de evidências científicas e econômicas do mundo real vem demonstrando a irracionalidade da pauta da “descarbonização” da economia global.

Mais ciência e bom senso e menos esperteza, é o que o mundo precisa para enfrentar a sério os impactos ambientais das atividades humanas, de modo a não obstaculizar a agenda do desenvolvimento global – que, esta sim, deveria receber prioridade máxima.

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