Dores de parto

Do Observatório para um Brasil Soberano

As dores que antecedem o parto têm servido como uma poderosa analogia em contextos bíblicos, filosóficos e éticos, frequentemente representando um processo de preparação para uma grande transformação. Essa metáfora também se aplica ao atual momento geopolítico: o mundo ainda não completou sua desglobalização. As cadeias que interligam nações em termos logísticos, econômicos e jurídicos não foram totalmente desfeitas, mas os sinais de ruptura já são evidentes.

O globo está em dores de parto, indicando que mudanças profundas estão a caminho. Contudo, apesar desses indícios, ainda não vivemos em um sistema verdadeiramente multipolar. As lideranças globais permanecem indefinidas, e a nova ordem política continua envolta em incertezas.

O que se percebe com clareza é o esgotamento da ordem liberal baseada em regras: o declínio das instituições supranacionais e do mercado internacional como planejador das economias nacionais. Durante décadas, habituamo-nos aos acordos multilaterais de livre comércio, ao grande fluxo de importações e exportações, e a uma interdependência global onde poucos países gozavam de independência econômica real. Nesse sistema, as nações se especializaram na produção de bens específicos, enquanto as tarifas de importação eram vistas como exceção.

Agora, entretanto, as dores de parto começam a moldar uma nova realidade: movimentos de ruptura estão em curso. Um exemplo emblemático é a recente reação da China à importação de carne bovina.

Após os Estados Unidos anunciarem maior rigor com as carnes importadas, a China seguiu um caminho similar, iniciando uma investigação que pode resultar na aplicação de tarifas sobre a carne bovina importada, impactando diretamente os frigoríficos brasileiros, principais fornecedores do mercado chinês. O Ministério do Comércio da China acatou o pedido de associações locais que alegam que as importações já representam 44% da produção total do país, um crescimento significativo frente aos 20% de 2019. Entre o primeiro semestre de 2019 e o mesmo período de 2024, o volume de carne importada mais que dobrou.

Segundo as associações, essa disparada tem causado “sérios danos às indústrias domésticas”. Agora, Pequim empreenderá um estudo para avaliar as medidas necessárias para proteger sua indústria local. Está sendo instituído o monstruoso protecionismo, tão criticado na imprensa ocidental.

O mundo já não é mais o balcão de negócios do pós-Guerra Fria. Em breve, não bastará apenas vender; será necessário escolher cuidadosamente para quem vender, sob quais condições e por quanto tempo.

As dores de parto são reais e inevitáveis. A grande questão é: estará o Brasil preparado para o nascimento de uma nova dinâmica política global?

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