Choque de realidade abala agenda da “descarbonização”

Os desdobramentos imediatos da guerra na Ucrânia, principalmente, o espectro de uma escassez real de energia, alimentos e outros insumos fundamentais, catalisada pelas insanas sanções impostas à Rússia, estão promovendo uma intensa reavaliação da agenda das “finanças sustentáveis”. No centro das atenções, a inviabilidade da substituição dos hidrocarbonetos e do carvão em um prazo previsível e a factibilidade das normas ESG (meio ambiente, social e governança) como critérios seletivos para investimentos e atividades econômicas.

“Houve um choque de realidade. A transição energética estava sendo tratada de uma maneira muito idealista, parecia que seria feita de maneira mais rápida, reduzindo a demanda de petróleo e gás, o que não aconteceu. O que vemos nos últimos meses é que não vai ser assim. Estamos vendo um refluxo de interesse por petróleo e gás” – disse ao “Estadão” de 19 de maio o ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Oddone, hoje presidente da Enauta.

Segundo ele, nos últimos anos, a transição energética gerou um cenário muito ruim para a indústria petrolífera, com as empresas petroleiras mudando seus portfólios, principalmente as europeias, e reduzindo investimentos em exploração e produção.

Um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) afirma que a alta de preços no mercado internacional despertou o interesse pelo petróleo, ensejando um rápido e intenso retorno dos leilões de concessão em vários países, que deverão chegar a 15 este ano, contra apenas seis em 2021.

O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, observa que a percepção de que o petróleo oferece segurança energética deve influenciar uma desaceleração da sua “demonização”: “Não que a transição energética vá parar, vai continuar, mas acho que olhando um pouco além da simples troca de combustível fóssil pelo renovável, olhando questões como a eficiência energética, que é a melhor forma de reduzir a demanda sem comprometer o crescimento econômico.”

De acordo com a Rystad Energy, maior consultoria de energia da Noruega, este ano, haverá um aumento de 7% nos investimentos globais em exploração e produção de petróleo, em ordem superior a US$ 300 bilhões. No Brasil, o Ministério de Minas e Energia estima um aumento de 300 mil barris diários na produção nacional até o final do ano.

Em um contundente artigo publicado na edição de maio-junho da revista Oilman Magazine, o engenheiro e empresário estadunidense Ronald Stein afirma que a comunidade ESG desconhece os usos do petróleo. Vejamos alguns parágrafos relevantes (mas sugerimos a leitura do artigo integral):

A ignorância abrangente sobre os usos do petróleo e o desinvestimento na indústria de petróleo e gás poderá causar danos irreparáveis à indústria, bem como infligir escassezes e disparadas de preços aos consumidores pelo menor número de produtos manufaturados com petróleo, para atender às demandas crescentes da sociedade.

O uso das fontes renováveis solares e eólicas para a geração de eletricidade é inconfiável, por que elas dependem de brisas intermitentes e luz solar. Para se obter eletricidade contínua e ininterruptamente, as eólicas e solares necessitam do “back-up” proporcionado pelo carvão, gás natural ou nuclear. Ademais, as renováveis não podem manufaturar quaisquer dos produtos do petróleo, elas podem gerar apenas eletricidade intermitente. De fato, as renováveis não podem existir sem o petróleo, pois todas as partes das turbinas eólicas e dos painéis solares são feitas com derivados manufaturados a partir do petróleo. (…)

Antes de desinvestir nos combustíveis fósseis – carvão, gás natural e petróleo –, onde está o substituto ou clone do petróleo, para manter funcionando as sociedades e economias atuais?

Voltando no tempo um pouco mais de 100 anos, é fácil ver como a civilização tem se beneficiado das mais de 250 tecnologias de ponta licenciadas para o processamento de hidrocarbonetos, usadas por mais de 700 refinarias em todo o mundo, que atendem às demandas das oito bilhões de pessoas vivendo na Terra, com mais de 6 mil produtos feitos a partir de derivados do petróleo produzidos nas refinarias. Nenhum desses produtos estava disponível à sociedade antes de 1900. (…)

Na medida em que a ESG avança, os bancos e gigantes de investimentos têm memórias curtas dos produtos petroquímicos e do engenho humano como sendo as razões do aumento da população mundial, de um para oito bilhões em menos de 200 anos. Os esforços para cessar o uso do petróleo poderão ser a maior ameaça à civilização, e não a mudança climática, e levar o mundo a uma era de escassez extrema garantida de produtos de combustíveis fósseis, como tínhamos no mundo descarbonizado do século XIX, o que pode resultar em bilhões de mortes por doenças, desnutrição e eventos relacionados ao tempo, tentando viver sem os mais de 6 mil produtos que atualmente beneficiam a sociedade [grifos nossos].

Complementando a miniaula de realidade para os mentores da agenda da “descarbonização”, Stein recorda alguns dos principais usos do petróleo que seriam diretamente impactados com a redução da produção:

– asfalto para cerca de 65 milhões de milhas (104 milhões de quilômetros) de rodovias em todo o mundo;

– pneus para 1,4 bilhão de veículos;

– fertilizantes para alimentar 8 bilhões de pessoas;

– suprimentos médicos que são basicamente feitos a partir de derivados de petróleo;

– combustível para mais de 50 mil aeronaves comerciais, militares e privadas;

– mais de 53 mil navios que movimentam produtos por todo o mundo;

– veículos que são feitos principalmente de plásticos;

– componentes de turbinas eólicas e painéis solares que são feitos de derivados de petróleo.

De fato, choque de realidade, para o qual as lideranças brasileiras, políticas e de todos os setores da sociedade, devem estar muito atentas.

x

Check Also

“Transformação ecológica” ou eutanásia econômica?

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está a caminho de conduzir o ...