Pode surpreender políticos e outros indivíduos que acreditam que eventos importantes acontecem de repente, sem uma preparação necessária e demorada. Mas o possível surgimento de uma nova moeda internacional alternativa ao dólar não é uma surpresa.
Em meados de março, realizou-se na Armênia o encontro “Nova fase de cooperação monetária, financeira e econômica entre a União Econômica Eurasiática (UEE) e a República Popular da China”, organizado pela Comissão Econômica Eurasiática e a Universidade Renmin de Pequim, para definir os contornos de um novo sistema monetário e financeiro internacional, pelo menos no que diz respeito à parte oriental do mundo.
A UEE é o arranjo econômico e comercial integrado pela Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Armênia, cujo PIB (Produto Interno Bruto) conjunto é de aproximadamente 1,7 trilhão de dólares e projetado para uma estreita colaboração com a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR), a “Nova Rota da Seda” que está sendo implementada pela China. Já em 2020, a China havia ampliado o seu volume de negócios com a UEE em cerca de 20%, mas a utilização de moedas nacionais representava apenas 15% do comércio total.
No evento, estava na mesa a criação de uma nova unidade monetária de referência baseada em uma cesta de moedas, incluindo o rublo e o yuan, e também nos valores de algumas commodities estratégicas, incluindo o ouro.
Pensar que esta é apenas a reação desesperada à recente imposição de super-sanções à Rússia seria uma avaliação enganosa. Na verdade, trata-se de um projeto acalentado e trabalhado há anos, tanto na Rússia como na China.
O projeto foi tornado público em outubro de 2020, pelo economista russo Sergei Glazyev, membro do conselho e ministro responsável pela Integração e Macroeconomia da Comissão Econômica Eurasiática. Ele propunha a criação de novos instrumentos nacionais de pagamento, para deixar de lado o uso de “moedas de terceiros países”, obviamente, significando acima de tudo o dólar e o euro, nas transações comerciais e monetárias entre os membros da UEE e a China.
Glazyev afirmou que a ideia era a resposta “aos desafios e riscos comuns associados à desaceleração econômica global e às medidas restritivas contra os Estados da UEE e a China”. Ou seja, um plano para superar o sistema unipolar do dólar e as sanções impostas à Rússia após a anexação da Crimeia, em 2014.
Segundo ele, a infraestrutura financeira e de pagamentos já havia sido criada e era necessário desenvolver um sistema de incentivos para facilitar o seu uso nas relações comerciais e econômicas. Sua proposta era: 1) desenvolver mecanismos para estabilizar as taxas de câmbio das moedas nacionais dos países membros, reduzindo comissões bancárias e juros sobre empréstimos; 2) criar mecanismos para determinar os preços das mercadorias em moedas nacionais, no âmbito dos acordos entre a UEE e a ICR, posteriormente, envolvendo também outros países, possivelmente, os membros da Organização para Cooperação de Xangai (SCO, sigla em inglês) e da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).
De fato, já escrevemos sobre isso anteriormente e podemos lembrar que Glazyev, juntamente com uma equipe de economistas e analistas russos, estuda há algum tempo os efeitos globais da crise financeira e a possibilidade de separar a Rússia do sistema do dólar.
Naturalmente, a recente determinação do presidente Vladimir Putin de exigir o pagamento em rublos pelo fornecimento de gás natural também faz parte desse processo, cujos contornos ainda precisam ser esclarecidos.
Reconhecendo a incapacidade do dólar de sustentar todo o sistema monetário e financeiro global, mesmo antes da grande crise financeira de 2008, propusemos a ideia de criar, de forma prospectiva e concertada, um novo sistema internacional baseado em um cesta de moedas importantes, incluindo o dólar, o euro, o yuan e o rublo. Infelizmente, em um mundo erroneamente considerado unipolar, nada foi feito. O sistema do dólar e os interesses geoeconômicos a ele associados não o permitiam.
A recente proposta russo-chinesa de criar a sua própria nova moeda com base em uma cesta de moedas e commodities é um fato a ser analisado. Só podemos dizer que, desta forma separada, infelizmente, isso só tende a aprofundar a divisão entre Oriente e Ocidente e agravar ainda mais a já perigosa situação atual.
Na nossa opinião, que há anos escrevemos sobre o assunto, são pesadas as responsabilidades dos órgãos internacionais competentes, como o G-20, que nunca quiseram abordar o assunto com determinação, apesar das várias crises financeiras e pedidos feitos por muitas partes.

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Msia Informa
