Um tema recorrente nas discussões sobre o futuro da Petrobras tem sido a sua conversão gradual em empresa de energia, e não apenas de petróleo e hidrocarbonetos em geral, com investimentos crescentes em fontes de energia renováveis. Ainda como integrante do grupo técnico de Minas e Energia do gabinete de transição de governo, o ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, afirmou que “as grandes petroleiras estão até mudando de nome” e “estão se transformando para virarem empresas energéticas”, inseridas “num mundo onde está ocorrendo uma veloz transição energética”, com a criação de metas como emissão zero de carbono, disse ele ao Poder 360 (30/11/2022).
Na mesma linha, pontificou a então deputada federal eleita Marina Silva, que retornou ao Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, seu novo nome. Em uma conversa com jornalistas brasileiros e estrangeiros que cobriam a conferência climática COP-27, em Sharm el-Sheikh, Egito, ela afirmou que a Petrobras deveria iniciar uma “guinada estratégica” para ser uma empresa de energia cada vez mais envolvida na geração com fontes renováveis – eólica, solar, biomassa e hidrogênio verde (Petróleo Hoje, 14/11/2022).
O senador Jean Paul Prates (PT-RN), indicado para a presidência da empresa, é um entusiasta da ideia. Em março de 2022, quando propôs a fusão da Petrobras com a Eletrobras (hoje privatizada), ele citou como exemplo a estatal norueguesa Equinor, hoje uma empresa integrada de energia e de transição energética.
Com poucas variações, essas são as linhas gerais das propostas feitas para o futuro da maior empresa brasileira. O problema é que elas padecem de um “pecado original”: as fontes energéticas citadas não preenchem os requisitos de uma economia urbanizada e industrializada com as dimensões da brasileira, independentemente dos avanços técnicos que possam experimentar nas décadas vindouras.
Atualmente, apenas as usinas termelétricas (alimentadas a combustíveis fósseis – carvão mineral, gás natural e combustíveis derivados de petróleo), hidrelétricas e nucleares preenchem os requisitos da chamada geração de base, que implica em uma disponibilidade de geração contínua. Nela, as interrupções necessárias para a manutenção dos equipamentos são pontuais, devidamente programadas e plenamente compensadas pelas demais usinas do sistema de geração e distribuição.
Por sua vez, as fontes eólicas e solares são essencialmente intermitentes (precisam de vento e luz solar) e, por conseguinte, a sua utilização em larga escala na geração de base implica, paradoxalmente, na necessidade de ampliação da oferta de fontes convencionais para atuar como “backup” na geração de base, pois a demanda de consumo das sociedades urbanizadas e industrializadas não pode ficar dependente de tais limitações. Ademais, por suas características técnicas, a sua utilização impõe oscilações de tensão e frequência prejudiciais às linhas de transmissão. Em essência, uma maior utilização delas tende a aumentar os custos e a diminuir a confiabilidade dos sistemas elétricos.
Uma boa síntese dos problemas dessas fontes encontra-se no artigo “Energias eólica e solar: quanto mais se faz, mais difícil fica”, publicado na edição de 6 de outubro último deste Alerta.
Quanto ao “hidrogênio verde”, o problema reside no fato de que para a sua produção se tornar economicamente viável é preciso contar com fontes energéticas baratas para os processos eletrolíticos geradores de hidrogênio – ou seja, uma solução que depende de outra solução. A propósito, vale atentar para o que diz o Dr. Samuele Furfari, professor de Geopolítica da Energia da Universidade Livre de Bruxelas e autor do livro L’utopie hidrogene (A utopia do hidrogênio), do alto de suas mais de quatro décadas de experiência na área:
Devemos encarar os fatos: podemos examinar a questão de todos os ângulos, já é uma solução natimorta.
De fato, ou o processo de produção e distribuição seria muito caro, ou ineficiente, ou seria não apenas caro, mas também totalmente irracional e também falsamente “verde” (usando metano para produzir eletricidade para produzir hidrogênio). Armazenar eletricidade intermitente na forma de hidrogênio e depois transformá-la em eletricidade não intermitente não recupera nem 30% do que havia sido acumulado. Além disso, querer vincular essa produção à geração aleatória de eletricidade a partir de fontes renováveis levaria a operar numerosos e caros eletrolisadores por apenas algumas semanas por ano ou a instalar três vezes mais turbinas eólicas do que as necessárias para produzir 100% de energia renovável eletricidade, provocando uma industrialização ainda maior do campo.
Além disso, é ainda mais incongruente pensar em “hidrogenar” o setor de transportes, quando não estamos em condições de fazê-lo para o setor elétrico. Recordemos mais uma vez que o hidrogênio é um produto explosivo, cujo manuseio exige cuidados muito especiais que só a indústria pode controlar. É difícil ver como seria humana e comercialmente possível aplicar processos de segurança industrial a estações de recarga espalhadas por toda a União Europeia. Além disso, é novamente o dilema da galinha e do ovo: quem instalará essas estações se não vendermos muitos veículos a hidrogênio? E quem vai comprar automóveis movidos a hidrogênio se eles forem tão caros devido ao preço incontrolável das células de combustível? Em tempos de reconstrução pós-covid, é razoável que as autoridades públicas desembolsem somas consideráveis (o dinheiro dos cidadãos europeus) para subvencioná-los, mesmo que inicialmente não prevejam a comercialização em larga escala desses veículos.
O hidrogênio é uma molécula preciosa demais para ser desperdiçada onde os combustíveis fósseis e nucleares são suficientes para atender às crescentes necessidades de energia do mundo. É estranho querer queimá-lo como um gás natural comum quando quase 85% do hidrogênio do mundo é produzido a partir desse mesmo gás natural. A aberração atinge o seu auge: iríamos produzir hidrogênio a partir do gás natural para usá-lo onde já se podia usá-lo diretamente. Entenda quem puder! (AEPET, 21/11/2022.)
Além das restrições de disponibilidade e dos custos operacionais globais impostos aos sistemas elétricos, há outro fator contrário à possibilidade de substituição das fontes geradoras convencionais pelas “renováveis” mencionadas. Trata-se da densidade energética, conceito definido como a relação entre a quantidade de energia de um dado sistema ou região do espaço e o seu volume ou massa. Ao longo da evolução da civilização, tem-se observado um aumento exponencial na densidade energética das formas de geração de energia, desde a energia muscular de homens e animais, seguida pela lenha/biomassa, máquina a vapor, motores elétricos, motores de combustão interna, turbinas e reatores nucleares. Em geral, o aumento da densidade energética corresponde a um aumento geral nas tecnologias empregadas e na produtividade real das economias, razão pela qual o uso de fontes de baixa densidade energética, como lenha, eólica e solar, implica em uma redução na eficiência geral do sistema econômico abastecido por elas. Neste quesito, é irônico que na Europa a principal fonte “renovável” atualmente em uso seja a lenha, o combustível mais primitivo usado pelo homem (para cuja obtenção algumas das últimas florestas nativas do continente estejam sendo sacrificadas).
Em síntese, investimentos em tais fontes “renováveis” não condizem com os requisitos crescentes de “energização” das sociedades, principalmente, nos países em desenvolvimento como o Brasil.
Por outro lado, a realidade aponta que as tecnologias nucleares, tanto a já dominada fissão como a fusão ainda em desenvolvimento, tendem a ganhar uma grande relevância na transição. Não surpreende, pois, que várias grandes empresas petrolíferas do mundo estejam contemplando a sua conversão gradual em empresas de energia e investindo no desenvolvimento dessas tecnologias, inclusive a fusão nuclear, casos da italiana Eni, da norueguesa Equinor e da estadunidense Chevron, que têm apoiado start-ups engajadas neste esforço para a obtenção de reações de fusão autossustentáveis.
Isto posto, voltemos à Petrobras.
Desafortunadamente, a empresa, que nos últimos anos foi convertida em uma mera “fábrica de dividendos”, parece alheia a tais considerações. Uma evidência é o seu plano de negócios para o período 2022-2026, que contempla apenas US$ 130 milhões para pesquisa e desenvolvimento de energias renováveis (aparentemente, apenas o citado “hidrogênio verde”), produtos com baixa pegada de carbono e captura e estocagem de dióxido de carbono (CO2).
Para se credenciar para entrar no jogo pesado da liga principal das candidatas a “petroleiras-energéticas”, a Petrobras não poderá limitar-se a investimentos em fontes de baixa densidade energética, mas deve pensar alto e apostar nas tecnologias do futuro, como estão fazendo algumas de suas coirmãs estrangeiras.
Uma iniciativa das mais promissoras seria investir na viabilização do Laboratório de Fusão Nuclear (LFN), projeto da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) existente desde 2013, mas ainda não saiu do papel, devido, principalmente, à queda livre nos orçamentos de pesquisa ocorrida no País na última década e à ausência da imprescindível vontade política.
Uma proposta apresentada em 2021 pela CNEN e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) estabelece requisitos financeiros que são ínfimos, em função da necessidade premente de o País se engajar a sério e de forma continuada em tais pesquisas: R$ 150 milhões para a construção do LFN (três anos); R$ 50 milhões para a modernização dos reatores de pesquisa tokamak existentes em universidades e centros de pesquisa nacionais (três anos); e US$ 100 milhões para o desenvolvimento e construção de um protótipo de reator de fusão (nove anos). Tais recursos são inferiores aos investidos pela Eni, Equinor e Chevron em projetos do gênero e estão plenamente ao alcance da Petrobras, cuja parceria poderia viabilizar essa importante avenida para as tecnologias verdadeiramente renováveis do futuro, às quais o Brasil não pode ficar alheio.
Definitivamente, não será com aerogeradores e centrais solares que a Petrobras se converterá numa empresa de energia.

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