Paulo Guedes: uma vela a Wall Street, outra ao BRICS

Fiel ao dogmatismo ultraliberal que tem defendido ferrenhamente desde o seu doutoramento na Universidade de Chicago, na década de 1970, o ministro da Economia Paulo Guedes não deve sentir-se muito à vontade diante de situações que o forcem a “pensar fora da caixa” e atuar de acordo com o mundo real, e não apenas com as expectativas dos mercados financeiros. Tal foi o caso da pandemia de Covid-19 e, agora, os desdobramentos da guerra na Ucrânia, com o estabelecimento de um sistema monetário e financeiro internacional alternativo ao baseado no dólar estadunidense e controlado por Washington e Wall Street.

Esta semana, Guedes está na capital estadunidense para as reuniões regulares do Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e G-20, e entre uma e outra tem uma agenda para, segundo um de seus assessores, “vender” o Brasil como um “porto seguro” para os investidores internacionais, no ambiente conturbado pelas repercussões do conflito.

Ali, está sendo forçado a recorrer a todo o seu notório arsenal retórico para equilibrar-se entre transmitir as mensagens de interesse dos mercados e a posição oficial do Brasil em relação ao conflito, equlibrada entre opor-se à ação militar da Rússia e às draconianas sanções lançadas contra o país pelas potências lideradas pelos EUA. Foi o que ocorreu em uma palestra no evento “O futuro econômico do Brasil em tempos de mudança”, promovido pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, sigla em inglês), um dos principais think-tanks de Washington, na terça-feira 19 de abril.

Na ocasião, Guedes não ocultou o seu desconforto com a posição brasileira, chegando a dizer que a visita do presidente Jair Bolsonaro a Moscou, no início de fevereiro, “não foi em momento apropriado” e fez questão de ressaltar que o Brasil votou três vezes contra a invasão da Ucrânia na Organização das Nações Unidas (ONU). “Somos o único país do BRICS que condena a invasão”, afirmou (Valor Econômico, 20/04/2022).

A explicar a oposição brasileira à pretensão dos EUA de expulsar a Rússia do G-20, o ministro se esmerou: “Pelas regras, você não pode expulsá-los. O Brasil é a favor das regras. Na minha visão pessoal, você tem que manter as pontes para convencê-los a um cessar-fogo. A pergunta que deveríamos fazer pra eles (russos) é: ‘Olha, se vocês não querem respeitar as instituições, se vocês não se comportam apropriadamente, por que vocês querem ficar?’ (BBC News Brasil, 19/04/2022).”

Em resposta a uma pergunta sobre por que os investidores deveriam vir para o Brasil, o ministro afirmou que o País está cortando impostos e privatizando. De acordo com ele, o Brasil saindo de uma economia dirigida pelo Estado durante 40 anos, durante a qual os impostos corporativos foram elevados, a economia foi “fechada” (sic) e o sistema político, corrompido. Este modelo, disse, interrompeu uma trajetória de crescimento do Brasil, até então uma das economias de maior avanço no mundo.

As declarações de Guedes só podem ser causadas por uma dissonância cognitiva superlativa, pois é difícil estabelecer uma correlação entre elas e os fatos históricos. Como se pode afirmar que a economia brasileira foi dirigida pelo Estado e “fechada” entre as décadas de 1980 e 2010 – em especial, a partir da abertura e da financeirização indiscriminadas da década de 1990? Ademais, se, de fato, o Brasil foi uma das economias que mais cresceu no mundo entre as décadas de 1930 e 1970, isto se deveu, em grande medida, à ação do Estado como planejador e indutor de investimentos de longo prazo em indústrias de base e infraestrutura física, papel rechaçado pelos ideólogos neoliberais como o próprio Guedes, que assumiram o comando da economia na “Nova República”, com os resultados conhecidos.

A ambiguidade forçada de Guedes também se mostra no anunciado apoio à entrada da Argentina no Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), também conhecido como “Banco dos BRICS”, e a rejeição ao estabelecimento de um sistema de pagamentos internacionais no âmbito do grupo, sugerido pela Rússia. Em uma entrevista em Brasília, o secretário de Assuntos Econômicos Internacionais do Ministério da Economia, Erivaldo Alfredo Gomes, afirmou que o tema “não está na agenda do Brasil”. Segundo ele, embora o Brasil defenda uma plataforma mais adequada que o sistema SWIFT – do qual a Rússia foi excluída –, o governo (leiam-se Guedes & Cia.) entende que a discussão sobre um novo sistema deve ser global: “O Brasil entende que isso deve ser em âmbito multilateral, global. Não uma solução específica de alguns países. Até para evitar a fragmentação (Monitor Mercantil, 15/04/2022).”

Ou seja, é o mesmo que dizer que o comando financeiro do Brasil não quer “fazer marola”, para não contrariar os mercados financeiros e as capitais ocidentais engajadas na sanha anti-russa.

Não obstante as inclinações ultraliberais de Guedes e seus escudeiros, o estabelecimento de um novo sistema monetário-financeiro baseado em uma cesta de moedas nacionais, matérias-primas relevantes e, eventualmente, capacidade produtiva real, se mostra como inevitável e, cedo ou tarde, o Brasil perceberá as vantagens de integrá-lo, sem precisar abandonar o existente sistema “dolarcêntrico”. E não se trata de ter que optar entre Wall Street e o BRICS, mas de conciliar os interesses nacionais com a realidade.

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