Paulo Guedes e a economia da miséria

Os pífios prognósticos de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, abaixo de 1%, as projeções do ministro da Economia Paulo Guedes, de que deverá dobrar em 2020, e a inflação reduzida (com deflação em alguns meses), não ocultam a depressão em que a economia brasileira encontra-se atolada desde 2015 e, pior, sem qualquer perspectiva de saída, além dos pedidos de confiança e paciência do chamado superministro, não sustentados por qualquer orientação política compatível com uma recuperação da economia real.

A melhor evidência desse cenário sombrio é a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgada em 5 de novembro, a qual reitera que a economia “segue operando com alto nível de ociosidade dos fatores de produção”, com reflexos diretos “nos baixos índices de utilização da capacidade da indústria e, principalmente, na taxa de desemprego (Estadão Conteúdo, 05/11/2019)”.

A ata observa, ainda, que as “diversas medidas de inflação subjacente encontram-se em níveis confortáveis”.

Como a única medida que cabe ao BC, em sua função de templo do rentismo no País, é ajustar a taxa de juros Selic, ela deverá baixar ainda mais até o final do ano, dos atuais 5% para 4,5% anuais, níveis mais baixos desde 1999, pois, com a inflação em baixa e o pântano depressivo, não há como justificar as taxas mais altas que fazem a alegria dos rentistas.

Em essência: inflação em queda, crescimento pífio, ociosidade produtiva e desemprego altos – uma autêntica depressão deflacionária.

Para complicar, o cenário externo não é nada favorável, com a multiplicação de sinais e advertências de uma nova e iminente crise global, potencialmente mais devastadora que a de 2008 e para a qual o atual comando da economia brasileira não tem qualquer preparação para enfrentar, até porque parece ignorar tal perspectiva.

Não obstante, diante desse quadro lúgubre, que já começa a incomodar os setores das elites dirigentes mais ligados à economia real, o superministro Guedes tem se empenhado em vocalizar tiradas carregadas de deboche com as condições da economia e da grande maioria da população, que não tem motivos para otimismo quanto ao futuro.

Característico desse comportamento foi o arroubo proferido em uma conferência promovida pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 30 de outubro: “Tem muita coisa andando e vocês vão sentir já já o bafo do reaquecimento da economia.”

Segundo ele, “é a primeira vez que você tem essa combinação de crescimento com inflação descendo… o crescimento econômico está começando lento, mas, seguramente, já vai ser mais do que o dobro no ano que vem”. Como o dobro de uma insignificância não significa grande coisa, o superministro apenas reforça a percepção dos agentes econômicos mais realistas, que estão transferindo as suas expectativas de retomada do crescimento para 2021 – até porque, a rigor, a percepção de crescimento bem pode ser o rebote de uma bola caindo no fundo de um poço depressivo.

No mesmo evento, gabando-se das alegadas façanhas da sua gestão, Guedes bradou: “(…) Quebramos o monopólio de distribuição e exploração de gás, e isso vai derrubar [o preço da] energia, e nós vamos industrializar o país em cima de energia barata.”

Faltou dizer que o País encontra-se em um processo acelerado de desindustrialização, que foi reportagem de capa da revista EU&Fim de Semana do jornal Valor Econômico de 1º de novembro. Nela, o economista David Kupfer, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista no tema, sintetiza: “A indústria não consegue evoluir nem no ritmo da economia brasileira, que está estagnada. A indústria está involuindo.”

Para ele, o quadro é dos mais preocupantes:

É preocupante que, além de não definir boas políticas há muito tempo, o país já não consegue preservar as instituições necessárias. Estamos passando por um preocupante momento de desconstrução da política científico-tecnológica brasileira, por desfinanciamento, por mudança de atribuição de órgãos. Sem alguma capacidade própria de absorção de tecnologia, de conhecimento, não vamos dar o salto necessário.

Evidentemente, não será apenas com “energia barata” que se poderá reverter tal tendência, ainda mais diante da perspectiva de abertura comercial unilateral e indiscriminada, que Guedes & cia. pretendem promover.

Porém, o auge dos rompantes veio em uma entrevista à Folha de S. Paulo de 3 de novembro, que tem tudo para entrar para a História, por ter proporcionado uma didática síntese da mentalidade reinante em boa parte das lideranças nacionais, em particular, nas encarregadas do comando da economia. Além de apresentar o novo pacote de reformas enviado ao Congresso, Guedes aproveitou para refutar as críticas ao modelo econômico do Chile, país que teima em considerar a “Suíça da América Latina”, apesar das gigantescas manifestações que levaram milhões de chilenos às ruas nas últimas semanas, para protestar exatamente contra as alegadas maravilhas do modelo ultraliberal implantado pelo regime militar de 1973-1990 e, em grande medida, mantidas pelos governos que o sucederam.

Além disso, pediu “paciência” aos brasileiros. Afinal de contas, protestou: “Foram 30 anos de centro-esquerda (sic). Dá para esperar quatro aninhos de um liberal-democrata? Se não melhorar, troca, sem intolerância. Mas deu três meses e já começaram: cadê o crescimento? Vamos ser razoáveis. Não é justo.”

A pergunta e o apelo deveriam ser direcionados aos 13 milhões de desempregados, outro tanto de subempregados e alguns milhões de desalentados, somando cerca de 30 milhões de pessoas em situação precária e com poucas perspectivas para o futuro imediato, sem falar nos mais de 70 milhões de endividados, que não podem dar-se ao luxo de esperar “quatro aninhos”.

Mas o destaque ficou mesmo com a crítica feita aos pobres brasileiros, por, segundo ele, não saberem poupar para o futuro. “Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo” – sentenciou.

Dificilmente, com a sua versão 2019 dos proverbiais brioches atribuídos à rainha francesa Maria Antonieta, esposa do infortunado rei Luís XVI (ambos degolados pelos revolucionários de 1789), Guedes poderá ser superado na formulação de uma síntese que simbolize com tanta força a insensibilidade e o virtual desprezo de certos segmentos da classe dirigente brasileira pelas vicissitudes da esmagadora maioria da população nacional, sem falar no descompromisso com qualquer ideia assemelhada a um projeto de Nação.

A mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstrou que, em 2018, os 50% mais pobres da população, cerca de 104 milhões de pessoas, tinham uma renda média mensal de apenas R$ 413,00. Para os 5% mais pobres, cerca de 10,4 milhões de pessoas, tal valor despencava para inacreditáveis R$ 51,00. A pesquisa mostrou, ainda, que a desigualdade se agravou no País.

Ao mesmo tempo, o relatório de 2019 sobre a Riqueza Global (Global Wealth 2019) do banco Crédit Suisse revelou que, de meados de 2018 a meados de 2019, o número de milionários brasileiros (com patrimônio financeiro superior a 1 milhão de dólares) teve um aumento de 19,4%, subindo de 217 mil para 259 mil pessoas, equiparando o País às economias com maior crescimento no período, atrás apenas da Holanda, Alemanha, China, Japão e EUA.

Não por acaso, o sistema bancário obteve os maiores lucros nominais em 25 anos, R$ 109 bilhões, entre julho de 2018 e junho de 2019, resultado 18,4% superior ao registrado nos 12 meses anteriores.

Tudo isso, com o País atolado numa depressão que entra no quinto ano.

De fato, o superministro tem razão: os ricos capitalizam e prosperam, enquanto os pobres gastam tudo. Pena que o fazem apenas tentando sobreviver, na usina de desigualdades e exclusão em que o Brasil foi construído pelos seus dirigentes.

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