Ousadia na economia

Por André Araújo

Após a Grande Depressão iniciada com a crise da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, duas grandes escolas passaram a dominar o pensamento econômico no mundo capitalista.

Uma escola, a clássica ou ortodoxa, via o Estado como simples garantidor das regras básicas de econômica de mercado e de executor das funções naturais do Estado como defesa e justiça.

Outra escola, nascida após 1930, mas com raízes antigas no Estado mercantilista francês que comandava a economia, via no Estado mais que um garantidor neutro, aceitava o Estado como impulsionador e indutor da economia, especialmente nos momentos de crise dos mercados, e também um Estado que amparava os órfãos do capitalismo, os miseráveis, carentes, doentes, idosos e fracassados, incapazes por deficiências naturais de competir e vencer.

As duas concepções, com inúmeras variáveis de tempo e espaço, estão presentes até hoje na definição dos grandes modelos de politica econômica, mas com interações, reconfigurações e combinações especiais em cada País e situação, como, por exemplo, na China.

O modelo clássico perdeu força e prestígio após a Grande Guerra de 1914, porque a ruptura social dela decorrente exigiu um Estado muito mais presente do que no século anterior, de grande expansão livre do capitalismo imperial. Com as misérias provocadas pela Grande Guerra, nasceu um Estado intervencionista para reerguer das ruínas sociedades dizimadas pela guerra, ao mesmo tempo em que o modelo ortodoxo ainda dominava os Estados Unidos e a Inglaterra, que sofreram menor destruição no conflito.

A crise de 1929 desmontou a lógica do modelo clássico, porque a solução da crise requeria um Estado intervencionista, o que ocorreu especialmente nos EUA, com o New Deal, e na Alemanha, com o programa de rearmamento que levou ao pleno emprego a partir de 1933.

O Estado intervencionista, na Inglaterra e EUA, chegou a um esgotamento financeiro ao fim dos anos 60, quando revive por razões fiscais a pregação por um modelo ortodoxo na política econômica dos EUA e Inglaterra, duas economias que não só eram as locomotivas da economia mundial, mas também a fonte do pensamento econômico que rege os modelos de política econômica, mesmo a Escola Austríaca tinha sua reciclagem intelectual na Inglaterra.

Nasce então o “neoliberalismo”, que é apenas uma repaginação da Escola Clássica renascida das cinzas, visando encolher o Estado do Bem-Estar Social e reduzir seu custo, regredindo à Belle Époque do capitalismo do século XIX, as baterias dessa nova doutrina dirigidas especialmente aos programas de benefícios sociais aos mais pobres. O mantra dessa repaginação da Escola Clássica dizia que o capitalismo deixado livre traria maior prosperidade para todos, uma crença de fé apresentada como verdade científica.

O “neoliberalismo” como modelo de sucesso se esgotou na crise financeira de 2008, causada pelos excessos do “financismo”, filho mais velho e herdeiro do modelo neoliberal.

O “financismo” passou a dominar a totalidade da economia americana e inglesa, que na sua esteira perderam sua base industrial, desnecessária no mundo ideal do “financismo”. Basta-lhe o mercado financeiro para satisfazer o modelo rentista, a indústria é desprezada e pode se transferir para lugares de mão de obra mais barata em benefício de todos, dizia-se.

Mais ainda, a base industrial transferida dos países ricos do Ocidente para a Ásia ajudaria a manter baixa a inflação pela redução de custo dos produtos usando mão de obra barata dos asiáticos mais pobres e, portanto, mais submissos do que os operários ocidentais.

Para o mundo financista essa transformação é perfeita, mas esqueceram de um detalhe: a desmontagem da base industrial produz uma multidão de desempregados em um primeiro momento e depois de desesperados, caldeirão historicamente comprovado de cataclismas políticos de todos os tipos, populismos, golpismos, revoluções, agitação, criminalidade. Nenhuma sociedade vive em equilíbrio quando boa parte dela não tem renda.

O modelo neoliberal não tem solução para esse desequilíbrio, nem em economias desenvolvidas e muito menos em economias periféricas, como a do Brasil.

A “doença social do neoliberalismo” atingiu as economias carros-chefes do capitalismo ocidental. O plebiscito que levou o Reino Unido a sair da União Europeia, o Brexit, teve como resultado a expressão da insatisfação social dos deserdados do neoliberalismo fora de Londres.

Enquanto o centro financista de Londres adora a ideia de fazer parte da União Europeia, porque isso dá a Londres a centralidade para todo o continente como centro financeiro, gerando ganhos espetaculares de renda de arbitragem e serviços, a desindustrialização das tradicionais zonas de manufaturas, Birmingham, Wolverhampton, Coventry, Bristol, sofrem com a desindustrialização. O Reino Unido perdeu por completo vastos setores industriais, como automóveis, máquinas, aviões, locomotivas, navios, tecidos, criando áreas de miserabilidade sem renda e sem futuro; ao mesmo tempo em que Londres é uma festa de consumo de luxo e bem-estar social, o interior é um cemitério de fábricas, algumas das quais mantinham uma cidade inteira e que, ao se transferirem para a China, decretaram a morte de áreas inteiras onde vivem pessoas que dependiam dessas fábricas.

Esse processo de rebaixamento do custo da mão de obra permitido pela globalização industrial beneficia a quem? Àqueles que não dependem da indústria, os beneficiários do financismo, só a eles e aos funcionários públicos; os antigos empregados das indústrias perderam seus empregos e renda, o modelo de globalização industrial foi uma desgraça para eles, como é de meridiana evidência. Mas os teóricos do neoliberalismo insistem que seu modelo é bom para todos, o que é uma falácia, uma mera construção intelectual falsa, não beneficia a todos.

Nos EUA, a revolta dos deserdados do modelo neoliberal e sua derivação consequente, a globalização industrial, levou à eleição do mais improvável dos candidatos, Donald Trump, não por suas qualidades e sim porque ele representa um modelo antineoliberal e antiglobalização industrial. Então, o que se vê no mundo real é a falência político-social do modelo neoliberal, porque ele produz no topo uma fatia reduzida de beneficiários e na base uma multidão de prejudicados, é um modelo que serve a poucos e que não tem e nunca terá outro resultado, um modelo concentrador de renda e de riqueza como nenhum outro, nem nas monarquias do Estado absolutista havia uma classe aristocrática tão abastada como a da “aristocracia das finanças” e seus núcleos de apoio no mundo jurídico e de serviços.

O caso do Brasil

O modelo neoliberal brasileiro foi criado como base teórica do Plano Real.  Até então, o Brasil tinha uma inflação causada pelo déficit público, cujas causas não foram solucionadas. Em cima da ferida não curada do desajuste dos gastos públicos, criou-se por decreto uma moeda “fake” que dependia de uma estabilidade artificial, porque não se curou antes a causa primária da inflação, o déficit fiscal da União; estabilizou-se a moeda mantendo os desajustes anteriores nas finanças do Estado, aquelas causas que geravam a inflação anterior.

Como consequência, os funcionários públicos que tinham poder de compra menor do que seus equivalentes na iniciativa privada, em compensação com a garantia do emprego, passaram a ganhar muito mais, porque antes a inflação diminuía seus salários ao longo do ano, e hoje ganham 4 a 5 vezes mais que seus equivalentes no mercado privado, mantidas as garantias de emprego e um grande número de vantagens que não existem na economia privada. Piorou-se enormemente a situação das finanças publicas com o Plano Real, porque antes a inflação era uma solução e não um problema, a inflação diluía e aliviava o peso do custeio da máquina pública pela corrosão do valor da moeda durante o ano.

Nunca antes do Plano Real, o Estado investiu tão pouco em obras e projetos públicos. Hoje, por causa da estabilidade artificial da moeda, o total da arrecadação está comprometido com a folha e a previdência dos funcionários públicos, não existe mais a válvula de escape da inflação para “aguar” o gasto público. O Plano Real provocou a quebra do Estado brasileiro em todos os níveis, ao congelar pelo topo os seus pagamentos de salários, despesas e juros, tudo aquilo que a inflação ajudava a pagar, essa falsa nova moeda agora apresenta a conta, a falência do Estado.

Como reativar a economia

Para o financismo, é fundamental não haver inflação, porque a base de sua riqueza é a moeda estável que garante o valor dos ativos financeiros. Para a economia da produção, a inflação não é um fator relevante, porque a empresa industrial tem como manejar a moeda instável, como se fez no Brasil por meio século, quando se cresceu muito com inflação.

A empresa ajusta os seus preços para acompanhar a inflação e raramente sai perdendo, foi assim que se formaram as maiores empresas brasileiras, nascidas e crescidas em longos períodos de inflação, e foi também nesses períodos inflacionários que a base da infraestrutura brasileira de energia, saneamento e transportes foi construída; depois do Plano Real, pouca coisa mais se fez, muito menos do que de 1950 a 1990, a moeda estável foi a única realização.

Mas então a inflação é boa? Não, a inflação é uma febre, não é boa a longo prazo e nem como ideal de um sistema econômico. Mas a inflação pode ser necessária em certos períodos de letargia e estagnação da economia, ela estimula as pessoas a investir em ativos concretos, imóveis, mercadorias, máquinas, fábricas, em vez de tentar viver de juros.

A pior coisa que pode acontecer é uma economia estagnada, é um pequeno núcleo rentista vivendo de juros sem fazer nada, sem empreender e sem trabalhar; para esses a inflação zero é essencial, para os demais agentes econômicos não é tão relevante, a inflação é apenas uma variável a mais entre tantas outras da economia, pode-se perfeitamente viver com inflação por largos períodos, quando ela se tornar descontrolada faz-se uma reforma monetária e uma nova estabilidade pode ser criada com relativa facilidade. Muito mais difícil do que reverter inflação é sair da deflação, esta é o tumor maligno, não a inflação, apenas uma febre.

A inflação tem uma utilidade marginal, que é aliviar os devedores; hoje, a imensa maioria da população brasileira é devedora e não credora, aliviar a dívida das empresas, dos Estados e da União, das pessoas físicas daria um impulso por si só à economia produtiva.

A inflação favorece muita gente e prejudica alguns, todos eles no mundo do “financismo”, banqueios e aplicadores que vivem de juros, que em natural defesa, ao sinal de inflação vão transformar o seu capital em ativos reais, imóveis, máquinas e mercadorias, vão estimular a economia real em desfavor do financismo, isso será bom para o conjunto da economia, ao fazê-la voltar ao crescimento pela volta aos ativos concretos, e não à ficção do rentismo.

Mas a inflação, como qualquer remédio, pode ser também perigosa quando passa da dosagem necessária, tampouco é um objetivo final, apenas um remédio circunstancial para uma situação especifica e nesse contexto pode ser manejada e usada.

A economia das circunstâncias

Esta é uma expressão criada por mim para jogar com a Teoria do Caos da Física em economia, uma tentativa de definir a “economia das circunstâncias”, um novo modo de se ver a economia, por fora e acima dos absurdos modelos matemáticos que infestaram o pensamento econômico na segunda metade do século XX. Modelos que destruíram a essência do pensamento econômico como método de analise fenomenológica, tentando forçar encaixar a ciência econômica no campo das ciências exatas, esquecendo que na base da ação econômica está o homem, imprevisível no seu comportamento e reação politica.

Essa tentativa de transposição da economia para fórmulas exatas nasceu nos EUA, pela atração do mercado financeiro sobre os economistas acadêmicos. Felizmente, esse esforço não contaminou os europeus, que não embarcaram nessa canoa furada.

A eleição inesperada e improvável de Trump, como resultado da desarrumação total da sociedade americana pelo modelo financista que destrói a classe média e a indústria, foi a prova mais recente da falência do modelo neoliberal financista, que destruiu o equilíbrio social sólido e saudável da sociedade americana de classe media, multiplicou o numero de bilionários do financismo e destruiu a vida normal das famílias do coração dos EUA.

É o caixão do neoliberalismo, do monetarismo e de outras formulações artificiais que se esgotaram no lixão social de famílias desestruturadas pela falta de oportunidades, dos jovens pela falta de emprego e ausência do futuro, nos EUA, no Brasil, na Argentina, mas não na Ásia, onde essas ideias disruptivas não foram compradas. Na Ásia, a sabedoria milenar dos velhos respeitados e de uma sociedade estruturada na base familiar blindou os países, que tiraram proveito da globalização para fora de suas fronteiras, sem se deixar infiltrar por ela, a globalização na Ásia vale para o mundo exterior, mas não para dentro dos países.

Um sistema econômico nunca é perfeito e previsível, não adianta forçá-lo a ser um modelo matemático, porque nunca será. É impossível prever todas as variáveis que interagem em um modelo econômico, porque há variáveis sequer conhecidas como tais e será sempre impossível prever a sua trajetória. Por que insistir em modelos teóricos que jamais podem ser precisamente calculados, por dependerem de uma previsibilidade inexistente? Existe modelo mais ridículo do que o regime de metas de inflação, que não leva a nada, a não ser uma vitória estatística estéril, não produz prosperidade, não procria – a “inflação na meta” vale o que?

Os modelos matemáticos em economia, os abusos de estatísticas, planilhas, curvas, os índices milimétricos de frações de frações de um por cento, por que os economistas insistem nesses modelos tolos e toscos, que matam a aventura do crescimento e o sonho da prosperidade?

Ao fim de 2017, a maioria dos “economistas de mercado” da escola neoliberal previa para 2018 um crescimento do PIB brasileiro de no mínimo 2,5%, alguns 3% ou mais. Mas baseado em que gatilho o PIB do Brasil poderia crescer, se não há demanda?

Esses mesmos economistas previam o dólar ao fim de 2018 em R$ 3,40 ou, no mais pessimista dos mundos, em R$ 3,50; erraram completamente, mas o erro é da essência desse tipo de modelo, jamais acertam, porque é impossível prever todas as variáveis, a economia é um caos em busca de uma fantasia de equilíbrio que jamais se alcançará, porque não é da essência do sistema econômico tender ao um equilíbrio teórico ao desejo dos economistas.

Todavia, ao insistir no modelo – e a maior insistência de todas é o Sistema de Metas de Inflação – eles paralisam a economia. Para atingir metas teóricas, se tenta engessar o comportamento natural das variáveis, se congelam investimentos, se paralisam projetos para chegar na meta a que nunca chegarão, mas o problema é tentar, porque natentativa matam o paciente.

O falso ajuste fiscal

O Estado brasileiro gasta muito e mal. Os “economistas de mercado”, todos “ajustistas”, falam em um ajuste teórico tipo PEC 55, mas se recusam a descer às razões dos gastos excessivos e errados dos governos. No Brasil, todos gastam muito e muito mal, mas ninguém luta pela eficiência dos gastos no “microajuste” e não no ajuste teórico pelo teto macro.

E por que não apontam os maus gastos? Porque não tem coragem, só sabem operar com modelos teóricos, impessoais, ao não especificar o corte, todos são a favor do teto – mas como?

O Supremo Tribunal Federal tem mais de 4.000 funcionários para 11 ministros, seria uma aberração em um País riquíssimo, imaginem em um País pobre, um tribunal com 27 garçons e 28 copeiros, 19 jornalistas, 200 secretarias, 300 recepcionistas, garagem para 700 veículos e uma lista de 1.100 veículos esperando vaga, para o que se projeta um novo estacionamento. Esse modelo aberrante se repete por toda a folha da União, Estados e Municípios, não adianta falar em congelar teoricamente gastos por 20 anos, quais gastos? Se não se cortar na ponta da faca, no gasto inútil, o corte vai se fazer em hospitais infantis e ambulatórios para idosos.

Nenhum economista toca nisso, apenas um entre centenas de exemplos.

A disfuncionalidade do Estado brasileiro, União, Estados e Municípios, é evidente. Funcionários demais nas atividades meio, burocracia pura, e funcionários de menos e mal pagos nas tarefas que servem ao público, enfermeiros, médicos, professores do ensino elementar, merendeiras, bombeiros, policiais, ganham mal e são poucos. Não se ajusta esse quadro sem revogar direitos mal adquiridos contra toda a sociedade, como aposentados jovens com altíssimos salários e que ainda fazem jus a bônus de produtividade, e todos os demais novos e adicionais benefícios que se dão ao pessoal da ativa, algo que não existe em país algum do planeta e que jamais pode ser considerado um direito, é um simples saque ao Tesouro.

Mas o ajuste será muito mais exequível em um ciclo de crescimento da economia, cortar a folha do Estado em plena recessão significa aumentar o numero de desempregados, no momento em que a economia privada não está contratando, mesmo sendo racional no campo da eficiência, seria um contrassenso macroeconômico, ajuste se faz com a economia crescendo.

O crescimento pode ser estimulado por substancial reforço no orçamento federal, a ser financiado por aumento da divida pública de longo prazo, com juros médios internacionais mais indexação, dívida entesourada pelo Banco Central, transferindo liquidez para o Tesouro com emissão de meio circulante, R$ 50 bilhões por mês em valores constantes de 2018 teriam um impacto de 8% no PIB. Risco de inflação sempre há, mas por um largo período a capacidade ociosa da economia produtiva absorverá essa expansão monetária sem inflação, porque os fatores de produção estão sobrando em todos os setores da economia.

O câmbio

Está claro que qualquer estimulo ao crescimento por expansão monetária, o que não é nada de novo, os EUA, União Europeia e Japão praticam politica semelhante (“quantitative easing”), baseadas em estímulos monetários fracionados mês a mês sem qualquer resultado inflacionário, a preocupação é com a inflação baixa demais que pode levar à deflação.

Todavia, no caso de economias periféricas como a brasileira, é essencial estabelecer controle de câmbio para evitar ataques especulativos contra a moeda, lembrando que o controle de câmbio operado pelo Banco Central (modelo FIRCE) funcionou muito bem no Brasil de 1951 (até 1966 pela SUMOC) até 2013, quando irresponsavelmente o Banco Central delegou aos bancos o controle das suas próprias operações de cambio, a raposa fiscalizando o galinheiro, parece piada pronta, com o que entregaram ao sistema bancário o controle de cambio, o Governo abrindo mão de um controle essencial, que até o Governo americano tem, para proteger o dólar, quando e se necessário. O Departamento do Tesouro dos EUA tem uma enorme Divisão Internacional (Office of International Affairs), comandada por um subsecretario do Tesouro com mandato para proteger o dólar e a posição econômica dos EUA no mundo, contra tudo e contra todos. Não hesitaram em 1973 em jogar fora o lastro ouro, quem quiser detalhes pode acessar o site do Treasury Department – Office of International Affairs, para ver a gigantesca máquina operacional do Tesouro na área internacional, o dólar é controlado no mundo inteiro, da Sibéria à Patagônia, eles têm mecanismos de proteção da sua moeda, o Exchange Stabilization Fund (Fundo de Estabilização do Câmbio), um instrumental pesado, com recursos ilimitados e artilharia de guerra, eles não brincam com o câmbio e não dão proteção para especuladores, como faz o nosso Banco Central.  Além do Office of International Affairs, o Tesouro conta com um braço operacional, o Federal Reserve Bank of New York, que maneja a mesa de câmbio e títulos do Tesouro para fora dos EUA, comprando e vendendo bônus, moedas, ouro.

Mais ainda, o Tesouro tem um Committee of Foreing Investments (Comitê de Investimentos Estrangeiros), que autoriza ou veta a compra do controle de empresas americanas por capital estrangeiro, visando a proteger os interesses do Estado americano. Atenção, neoliberais brasileiros, viram como os americanos não são tão neoliberais quando se trata do interesse do pais?

Capital estrangeiro não entra à vontade, precisa de aprovação do governo – que coisa!, eles pregam a liberdade de capitais nos outros países, mas lá não brincam com isso.

Foi uma loucura completa o Estado brasileiro abrir mão do controle de câmbio, o que só, absolutamente só, favorece o capital especulativo, o investimento diretoconvive perfeitamente com controle de câmbio, que o Brasil operou por 62 anos, período em que entrou o grosso do capital estrangeiro na economia produtiva brasileira.

A registrar que os estatutos do FMI admitem o controle de câmbio, quando países membros precisam proteger suas moedas, não é pecado, como pretendem os neoliberais brasileiros.

A moeda como valor

Os “economistas de mercado” repetem de forma obsessiva o mantra de que “a estabilidade da moeda é uma conquista da sociedade brasileira”. O mantra é irracional. A moeda não é um valor neutro, a moeda é um instrumento para fazer funcionar a economia produtiva.

A estabilidade da moeda é boa ou má, dependendo do custo. No regime do ditador Salazar em Portugal, o escudo era a moeda mais estável do mundo, mas o custo foi que dois terços da população masculina tiveram que emigrar, porque não havia emprego em Portugal, a economia ficou estagnada por quatro décadas. E um dos lugares principais para os quais os jovens portugueses emigravam era o Brasil da inflação e nenhuma estabilidade monetária. Uma contraprova do mantra dos economistas de mercado, os portugueses fugiam de um país de moeda estável para um país com inflação crônica. Por que? Porque no Brasil havia oportunidades de trabalho e negócios, e em Portugal não havia, mas a moeda era estável.

Então, a estabilidade não é um valor por si só, absoluto, depende do que custa se ter essa estabilidade. Para um desempregado sem renda, a moeda estável nada significa.

Nessa ótica, um programa econômico baseado em regimes de metas de inflação, sem outros objetivos, especialmente de desenvolvimento para dar oportunidades aos mais pobres, é um mau programa, porque não chega a lugar nenhum, não desenvolve o País e desperdiça as suas potencialidades.

A dívida pública

Hoje é o eixo central da politica econômica, essa dívida pública foi criada após o Plano Real, após a estabilização, no período anterior, em que a estabilidade monetária não era um objetivo, a dívida pública federal interna era desprezível e nunca foi o centro da política econômica.

O volume dessa dívida, hoje em torno de R$ 5 trilhões, não é o maior problema e sim o seu perfil de vencimentos, uma quarta parte, representada por “operações compromissadas” de recompra entre o Banco Central e o sistema financeiro, vence em dias, o que representa uma hipoteca do sistema financeira contra o Estado brasileiro.

O restante da dívida tampouco é de longo prazo como a americana, que se projeta para 30 anos. A dívida brasileira não é girada como investimento e sim como quase-moeda, é o parqueamento da liquidez existente na economia, recursos estacionados aguardando outra destinação nas tesourarias de bancos, seguradoras, fundos de pensão, grandes mineradoras, fundos de investimentos, esses títulos têm liquidez imediata e repousam como reserva de valor para pagar futuros compromissos ou desembolsos para outros destinos, não é aplicado para obter determinada renda, e sim porque não há alternativa no sistema para guardar essa liquidez. É um mito propagado pela mídia alugada pelo sistema financeiro, o de que se não pagar juros altos a dívida não terá compradores. Terá com qualquer juro ou até juro negativo, porque sua função não é renda, é estacionar a liquidez. A parcela aplicada como investimento, pelo Tesouro Direto é pequena e não significativa.

A questão da demanda

Os presidentes dos principais bancos centrais do mundo, Mario Draghi do BCE (Banco Central Europeu), Jerome Powell do Federal Reserve e Harohiko Kuroda, do BC do Japão, se reuniram em Sintra, Portugal, dias atrás, para debater a preocupação com a inflação baixa demais nos seus países (no Japão a pressão deflacionária já dura 30 anos). A inflação baixa demais é um problema, porque significa uma economia estagnada que não gera empregos e aumenta as tensões e desequilíbrios sociais, mesmo nos países ricos, estão todos preocupados com a inflação baixa demais.

Os “economistas de mercado” brasileiros, uma subespécie única no planeta, pela sua cegueira diante das condições do País – um dos mais ricos do mundo em recursos naturais e que chafurda na pobreza, porque não sabe aproveitar esses recursos -, com uma politica econômica presa a formulas que mesmo em países ricos não têm mais credibilidade, repetem através de seus altos falantes na mídia que é preciso criar condições para a volta dos investimentos privados, porque serão esses que criarão empregos. Isso é falso. Investimentos privados que geram empregos precisam de demanda antecedente, é preciso haver pressão de demanda para justificar novos investimentos e essa demanda só se cria com renda nova, que deve ser gerada por expansão monetária, dinheiro nas mãos das pessoas.

Sem demanda não há investimentos e sem estes não haverá empregos. O movimento de capitais estrangeiros que tem chegado ao Brasil nos últimos anos não é para investimentos produtivos, é para compra de ações já emitidas, para compra de empresas, concessões e privatizações, nada que gere novo emprego e nova renda.

Ao contrário, o Brasil tem sido alvo de desinvestimentos, firmas fechando e subsidiárias de multinacionais sendo transferidas para outros países. A politica monetária atual é um desastre, porque congela a economia para que ela não cresça, se crescer gera pressão inflacionaria, que é o demônio dos economistas de mercado, então, eles preferem a estagnação, o desemprego, a falta de renda dos consumidores, porque aí não tem inflação.

Manter a inflação na meta é único objetivo da politica econômica desde o Plano Real, mantida durante todo o governo do PT pelo comando dessa visão no Banco Central. Desde a gestão Gustavo Franco até hoje, todos os presidentes e diretores do banco central são do mercado financeiro, de onde vêm e para onde voltam.

O sinal demonstrado na reunião de Sintra pelos presidentes dos principais Bancos Centrais do mundo é aquilo que é obvio: inflação baixa ou alta não é por si só vicio ou virtude, depende das circunstâncias. No Brasil os “economistas de mercado” que comandam o Banco Central e toda a política econômica, têm como valor absoluto que inflação baixa é sempre boa, isto é falso, inflação baixa por longos períodos pode abrir o portão do cemitério da  economia, o regime de metas de inflação como base da politica econômica é um desastre e um novo governo tem que não só abolir o regime, como impedir que “economistas de mercado” comandem o Banco Central, será o começo do relançamento da economia brasileira para o caminho do desenvolvimento.

O Governo e o Banco Central devem comandar a politica econômica e não serem comandados pelo mercado financeiro, por meio do famigerado Boletim Focus, um Governo que governa deve liderar e não ser liderado.

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