O ilusionismo creditício de Paulo Guedes

No final de junho, diante do desastroso desempenho da economia, o superministro Paulo Guedes anunciou a intenção de liberar para os bancos privados mais de R$ 100 bilhões dos depósitos compulsórios retidos no Banco Central, como forma de estímulo para novos créditos, após a aprovação da reforma da Previdência pelo Congresso.

Com a reforma praticamente assegurada, embora sem o suculento prato principal da introdução do regime de capitalização privada para os trabalhadores, e diante das crescentes pressões por alguma iniciativa do governo para o resgate da economia do pântano depressivo, Guedes & cia. estudam um “pacote do dia seguinte”, não só para estimular a economia, mas também reduzir a dívida pública e, principalmente, o tamanho do Estado.

Segundo o Valor Econômico de 6-8 de julho, o pacote contempla uma reforma tributária, a aceleração das privatizações, um plano de barateamento do gás natural (leia-se privatização do setor), liberação do PIS/Pasep e parte do FGTS e outras medidas pontuais, que, em tese, deverão estimular o consumo e, principalmente, o “apetite” dos investidores privados, no qual o superministro e sua equipe depositam as expectativas de reversão da crise e retomada do crescimento.

Entretanto, se depender apenas da disposição para o consumo e de novos investimentos produtivos, é bastante improvável que a economia ganhe tração para deixar o pântano onde se encontra atolada desde 2015. Nos registros históricos, não há o caso de algum país que tenha superado uma depressão prolongada como a brasileira sem fortes investimentos públicos em atividades multiplicadoras de valores, em especial, infraestrutura física. Com praticamente todos os setores produtivos em retração ou estagnados, altos níveis de capacidade ociosa e estoques nas empresas, endividamento e inadimplência das famílias, desemprego, subemprego e desalento em níveis recordes, é ilusório se acreditar que o setor privado e os consumidores possam encabeçar sozinhos uma recuperação.

E aí reside o problema, pois a visão de Guedes et alii é dominada pela ideia – há muito superada nos países mais desenvolvidos – de que os “mercados” são suficientes como forças motrizes da economia, e quanto menos intervenção do Estado, melhor. Neste sentido, ele não tem uma política econômica para o conjunto da Nação, limitando-se a administrar as expectativas de curto prazo dos agentes econômicos e, acima de tudo, preservar a hegemonia dos mercados financeiros. Em essência, um vendedor de ilusões e guardião do status quo.

Por isso, não surpreende que, em meio à maior depressão da história nacional, a riqueza financeira dos brasileiros (ou melhor, da ínfima fração da população com ativos financeiros) tenha aumentado 7% em 2018, bem acima da média mundial de 2%, segundo um levantamento da consultoria Boston Consulting Group (Valor Econômico, 10/07/2019).

Resultado compatível com a constatação de que os índices de desigualdade socioeconômica, que vinham em queda desde 2002, tenham se revertido a partir de 2017, de acordo com os dados do IBGE.

O abismo entre as expectativas vendidas para o “dia seguinte” e a lúgubre realidade da da economia ficou retratado de maneira marcante pelo suicídio do empresário Sadi Gitz, dono da Cerâmica Escurial, fundada por ele há mais de 30 anos em Sergipe, em um seminário com a presença do governador do estado e do ministro das Minas e Energia. O gesto desesperado, segundo relatos, teria se devido ao iminente fechamento da empresa, após a perda de mais de 600 postos de trabalho, com a alta dos preços do gás natural.

De forma menos dramática, o gerente industrial da Duratex, Eduardo Carobeli, justificou o fechamento da fábrica de louças da empresa em São Leopoldo (RS), com a demissão de 480 pessoas: “Nos preparamos para um Brasil que não veio (Jornal do Comércio01/07/2019).”

Não veio e não virá, enquanto representantes do mercado financeiro, como Guedes e seus fieis escudeiros, continuarem com a carta branca outorgada pelo presidente Jair Bolsonaro.

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