O desemprego não está na agenda – crônica de um desastre anunciado

Por André Araújo

Vivendo em São Paulo desde que nasci, muitas décadas, jamais vi tal quantidade de pobreza nas ruas paulistanas. São caminhantes andrajosos, mulheres com crianças, às portas de padarias e feiras, adolescentes e rapazes com caixas de engraxate nas costas, pedindo um lanche ou uns trocados, idosas na porta de bancos e farmácias, mendigos nas estações do metrô. Pedintes sempre houve, mas jamais em tal quantidade. Há no ar, à vista d’olhos, uma miséria crescente e assustadora, porque ela é o portão da fábrica do crime. Os brutos não enxergam, os mais sensíveis sentem no ar. Falo de uma São Paulo rica, falo do bairro dos Jardins onde vivi nos últimos 50 anos, e também do Centro e de bairros centrais, há um clima claro de desalento e carência crescente, triste.

Os bancos brasileiros não se incomodam com a recessão

Em todas as recessões do século XX, foram nove nos EUA, na Grande Depressão de 1929, na crise financeira de 2008, com epicentro em New York, os bancos são os primeiros afetados, perdem rentabilidade, alguns quebram. Na crise de 1929, quebraram 8.000 bancos, na crise de 2008, quebrou o Lehman Brothers, o Citigroup só não quebrou porque foi salvo pelo Tesouro americano, esse é o padrão.

Na recessão brasileira de 2014, que continua até hoje, os bancos brasileiros têm crescimentos de lucros a cada trimestre sem interrupção. No último trimestre, janeiro a março de 2019, bateram novo recorde com crescimento de 16%, numa economia estagnada, só o Bradesco anunciou um lucro de R$ 6,2 bilhões, um crescimento de 22,3% sobre o trimestre anterior. A economia no mesmo trimestre não cresceu praticamente nada, há algo de muito errado numa política econômica que permite essa aberração. O erro está nas taxas de juros que o Tesouro paga, piso para todas as demais taxas de juros, existem LFT (Letras Financeiras do Tesouro) dando rendimento de 14% ao ano, quer dizer 10% de juro real. Nenhum país do planeta tem um Tesouro que paga taxa real semelhante, nem o mais atrasado país da África; o Tesouro do Japão tem juro negativo, cobra para guardar o dinheiro dos bancos e dos ricos; na Europa, os Tesouros acham muito pagar 2% nominais ao ano. Os Tesouros guardam liquidez que não tem onde ficar, não há razão alguma para o Tesouro do Brasil pagar taxas aberrantes em títulos em real que não têm risco algum, podia pagar pouco mais que zero.

Esse verdadeiro assalto ao Tesouro do País, que custa muito mais que o déficit da Previdência, só é possível porque o sistema financeiro beneficiário desses juros controla o Banco Central e o Tesouro, através de prepostos que o sistema financeiro indica e o Governo aceita, por medo dos “mercados”.

Tal distorção criou uma nobreza rentista, tal qual a nobreza francesa ao tempo de Luís XVI, para a qual o crescimento e o desemprego são irrelevantes.

O projeto que não existe

Não há no atual governo projeto algum para o Brasil sair do oceano de pobreza a que foram condenados 180 milhões de brasileiros. As “reformas” são necessárias, porque há ajustes a serem feitos permanentemente em vários núcleos da Administração, não é maná e nem novidade, mas essas reformas, que nada mais são do que ajustes gráficos, não produzem riqueza por si só, não geram renda nova e a quimera de que por causa delas virão investimentos (de onde?) é uma promessa de existir um tesouro no fim do caminho. Não há relação entre essas reformas e investimentos de qualquer tipo.

O Brasil foi campeão mundial de atração de investimentos nas décadas de 50, 60 e 70, anos do “milagre econômico”, com alta inflaçãodéficit orçamentário e déficit cambial, mas havia algo que hoje não há e nem se projeta que haverá: demanda de compras da população rica, média e pobre.

Demanda depende de renda, e esta se cria rapidamente, com investimentos públicos, algo que os neoliberais anacrônicos de hoje nem sonham, porque eles acham que só o investimento privado move a economia, algo irreal nas economias desenvolvidas e absurdamente irreal nas economias emergentes.

Os cegos de Chicago

Uma das características dos sábios é mudar o pensamento a cada ciclo de vida, porque muda o mundo e mudam as circunstâncias. O neoliberalismo de Chicago poderia ser comprado quando, na virada dos anos 60 para os anos 70, o Estado de Bem-Estar Social começou a ficar muito pesado, e veio na ideia do neoliberalismo de Hayek, Thatcher e Reagan uma veia revisionista, que se configurou no mote “menos Estado e mais mercado”.

Mas a crise de 2008 colocou uma lápide no túmulo do neoliberalismo dos anos 70, porque foi o Estado americano quem salvou o mercado.

Os “cegos de Chicago” de hoje não se reciclam e nem ajustam a sua visão de mundo, por falta de base cultural e daquilo que o verdadeiro sábio tem em abundância: a dúvida permanente. O verdadeiro sábio não tem certezas absolutas, está sempre pronto a rever conceitos. O cego (para não dizer burro) tem certezas finais e absolutas sempre. Se chá de tangerina curou uma gripe na sua infância, ele vai querer curar um câncer com chá de tangerina.

Essa foi a genialidade de Keynes contra as certezas de Hayek. Há vários Keynes, o de 1910 era um, o de 1919 (“Consequências Econômicas da Paz”) era muito diferente, o Keynes que salvou a economia americana e mundial com o New Dealem 1933 (carta a Roosevelt em 30 de maio de 1933) era outro, já o magistral Keynes de Bretton Woods, que criou o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o GATT (hoje Organização Mundial de Comércio), em 1944, era ainda mais novo do que os Keynes anteriores. Esse é o verdadeiro sábio. Louve-se Milton Friedman, que sabia rever conceitos, no fim da vida, reviu muitos deles em magníficas conversas com Alan Greenspan, seu antigo adversário de ideias. Essa revisão de Friedman jamais é citada pelos “cegos” (ou burros) de Chicago, preferem o Friedman antigo, o medíocre não gosta de mudar de caminho.

O atual motorneiro da economia cita as reformas chilenas de Pinochet, que fracassaram a ponto de o ditador chileno expulsar os neoliberais de seu governo, com a demissão do ministro da Fazenda Sergio de Castro e trocá-lo por um general. As consequências das reformas neoliberais chilenas custaram o cargo a Pinochet, perdeu de maneira vexaminosa o referendo que lhe custou o poder, exilou-se e o Chile teve na sequência governos socialistas.

De qualquer modo, comparar o Chile ao Brasil é mais um sinal de estupidez,  nada, absolutamente nada tem a ver o Chile com o Brasil, as economias são completamente diferentes, assim como a demografia, a geografia, a educação, a formação cultural. De qualquer modo, lembrem-se que, mesmo no auge do neoliberalismo chileno, ninguém cogitou de privatizar a Codelco, a estatal do cobre chileno, até hoje 100% estatal, já aqui querem vender a Petrobras.

Um time de operadores de bolsa

Hoje dirige a economia brasileira um time de operadores de bolsa, sem qualquer visão de políticas públicas, que aliás detestam. É uma raridade.

Grandes economias emergentes, como a Índia, China e Rússia, são dirigidas por economistas formados no campo das políticas de planejamento e projetos públicos. A economia chinesa, falsamente de mercado para o público externo, é baseada em planos de desenvolvimento criados e executados pelo Estado. Na Índia, em escala menor, o Estado é central na economia, no México, o Estado está completo no petróleo, eletricidade, saneamento.

No Brasil de hoje, mesmo na área neoliberal, há economistas com visão de Estado e experiência em políticas públicas. Não estão neste Governo, com exceção de um, mas que compensa sua má experiencia no Estado com uma invencível falta de criatividade e de projeto de País, Joaquim Levy, cujo cardápio é um só.

O conto das reformas e a condenação do país à pobreza final

O mito da “reforma que resolve tudo” convence cada vez menos pessoas, mas como não há nada mais na prateleira é o que se oferece, contando sempre com o apoio luxuoso da mídia econômica brasileira, a pior do planeta, pelo sabujismo e falta de postura, entrevistas-vôlei sem um contraponto, como a que nos brindou a Globonews, onde João Borges timidamente pergunta ao rei da empáfia, o presidente da Petrobras, que pontificava ao perguntador seus planos para liquidar com a Petrobras, dizendo barbaridades como, “as refinarias só rendem 7% ao ano”; então, por que alguém vai comprá-las?

Com o apoio da mídia, o plano de “uma economia de mercado para 30 milhões e o resto que se lixe” vai de vento em popa. É o que temos hoje.

x

Check Also

A craca neoliberal e o exclusivo “capitalismo sem risco” brasileiro

No final de março, quando já havia certeza sobre o grande impacto da pandemia de ...