Por Paulo Gala*
Originalmente publicado no sítio do autor (28/08/2021).
Todos os países hoje ricos passaram por fases bem definidas de crescimento econômico. Num primeiro momento, as economias pobres empregam a maioria de seus trabalhadores na agricultura e no setor de mineração. O progresso se dá num segundo estágio, pela industrialização, quando trabalhadores são transferidos dos setores agrícolas de subsistência para manufaturas com produtividade mais elevada. Parte das pessoas que migra para as cidades não consegue empregos na manufatura e vão para o setor de serviços não sofisticados, atuando no varejo, como garçons, atendentes etc. Se o processo de desenvolvimento avança, novos empregos são criados em indústrias de média e alta tecnologia e serviços sofisticados (finanças, advocacia, marketing, TI, design, entre outros). A disseminação de empregos nesses setores de manufatura de alta tecnologia e serviços sofisticados, de alta produtividade, puxam para cima também os salários dos outros setores. Alguns países não conseguem chegar nesse estágio e ficam presos no meio do caminho. Os economistas chamam esse fenômeno de armadilha de renda média, situação em que o país desenvolve apenas indústrias de baixa intensidade tecnológica, agro, mineração e serviços de baixa sofisticação. É o caso do Brasil. Até mesmo os países que são potências agrícolas empregam não mais do que 5% de sua força de trabalho nessa atividade, como Espanha, França, EUA, entre outros. Os grandes contingentes de pessoas empregadas na agricultura mundo afora estão em países ainda relativamente pobres nas culturas de subsistência. Destaque aqui para Indonésia, Índia, China e Brasil. As assim chamadas “potências agrícolas” empregam seus trabalhadores nos serviços sofisticados, indústria e agroindústria (alimentos processados). Como bem lembra Adam Smith, a causa da riqueza das nações é a divisão do trabalho que depende do tamanho do mercado abastecido por tal nação. A causa da divisão do trabalho é o processo fabril de produção, o famoso exemplo da fábrica de alfinetes. A causa do enriquecimento dos países é o processo de industrialização. Os economistas chamam isso hoje de produtividade.
Para tornar essa discussão de Smith mais atual, poderíamos dizer que a industrialização causa aumento de complexidade produtiva de uma economia e uma sofisticação do setor de serviços (serviços empresariais originalmente ligados à indústria que depois podem se autonomizar). Países que enriquecem conseguem avançar na produção dos chamados bens e serviços intangíveis: indústrias de alto conteúdo tecnológico e serviços empresariais. Essas características do setor industrial de alta produtividade, economias de escala e grandes possibilidades de inovações tecnológicas não são encontradas na agricultura. As sementes modificadas vêm de processos genéticos fabris. As máquinas e drones agrícolas são produtos de ponta da indústria. Os fertilizantes e defensivos agrícolas dependem de uma indústria química hiperavançada. O que há de mais moderno no agro não é agro. Por isso, países ricos e com agro potente são também grandes produtores de agroindústria: EUA, Canadá, Holanda e França, por exemplo. O Brasil deveria buscar um modelo nesses países. Usar suas vantagens agro para catapultar sua agroindústria. Tentar avançar nessas frentes não desmerece nossos avanços no setor do agro, frutos de anos de pesquisas e investimentos, especialmente do setor público, por meio da Embrapa.
O que não está claro ainda no país é que o setor agropecuário é insuficiente para gerar riqueza suficiente para 210 milhões de pessoas. Hoje o Brasil já está entre os três maiores produtores de soja do mundo. O Brasil já é um campeão mundial do agro e já somos um dos celeiros do mundo. Já somos um dos maiores produtores de carne do planeta. Nada disso atenuou a nossa estagnação econômica e o brutal desemprego e precarização de nosso mercado de trabalho. O agro é parte relevante e importante da nossa estratégia de desenvolvimento por vários motivos: traz divisas estrangeiras, ocupa territórios desintegrados, traz segurança alimentar etc. Mas será sempre um setor coadjuvante no processo de enriquecimento do país. Foi assim no mundo. A agroindústria hoje no Brasil é muito dependente de multinacionais. Todos os insumos de alta tecnologia que usamos no agro são importados ou produzidos por alguma multinacional. Precisamos de empresas brasileiras que saibam fazer isso, para gerar bons empregos aqui e não em suas matrizes, especialmente na área de pesquisa e desenvolvimento de produtos. As tecnologias são geradas fora e usadas aqui em nosso agro. Temos que ser capaz de gerar tecnologias nossas, próprias. Para isso, a competição com as multinacionais é muito violenta e sem apoio do governo, com subsídios à inovação, financiamento e compras públicas, não chegaremos longe na sofisticação produtiva que abastece o agronegócio. Este é o nosso desafio. Não há caso na história dos países do mundo de desenvolvimento econômico sem um processo como esse. A retomada de nosso processo de desenvolvimento e enriquecimento passa necessariamente por uma reindustrialização do país, agora em bases mais modernas e com foco em sustentabilidade ambiental. Um processo que necessita de apoio do nosso Estado, dado o grande atraso do país em relação às industrias de ponta de mundo. Esse é o único caminho para o Brasil. Enquanto continuarmos com essa ideia de que nosso país será o celeiro do mundo e isso nos salvará, continuaremos afundando.
* Economista, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e autor de vários livros, entre eles o fundamental Brasil, uma economia que não aprende: novas perspectivas para entender nosso fracasso, escrito em coautoria com André Roncaglia (Ed. do autor, 2020).

Español
Msia Informa
