O Brasil escoa pelo ralo: os casos Embraer e Braskem

Por André Araújo

O preço pago pelo MDB ao PSDB para que os tucanos apoiassem o impeachment da Presidente Dilma foi a entrega de toda a área econômica do novo Governo ao PSDB. O PSDB tem uma visão de Brasil como País colonial inteiramente submetido ao guarda-chuva imperial dos EUA, todo o núcleo dos economistas neoliberais que cercam o PSDB é constituído de agregados ao sistema financeiro americano, formados nos EUA e com mente colonizada até o ultimo grau.

Esse grupo “au grand complet” vê o Brasil como um Porto Rico em tamanho maior, sonham com maior atrelamento ao comando americano como uma dependência subordinada. A esse núcleo duro de economistas neoliberais, se enlaçam hoje a grande mídia e o “Partido da Justiça”, aí incluindo juízes e procuradores alinhados ao modelo jurídico representado pelo Departamento de Justiça dos EUA, absorvendo e importando para o Brasil suas doutrinas, práticas e ativismos que se transformam no Brasil em missões a cumprir.

É nesse contexto que o Estado brasileiro está se desfazendo de instrumentos valiosos de poder estratégico e sustentação de seu desenvolvimento, ferramentas todas elas criadas e desenvolvidas pelo Estado, como a Petrobras, a Embraer, a Braskem, a Eletrobrás, instrumentos que fizeram o Brasil ter o maior crescimento econômico do mundo entre 1950 e 1980.

O Brasil, agora sob a regência dos economistas neoliberais tucanos, se desfaz desses instrumentos porque, na visão deles, o Brasil tem que depender da Exxon, da Boeing, da Dow, não deve ter estatais de tipo algum, embora 92% das reservas de petróleo do mundo sejam de empresas estatais, assim como são estatais 13 das 20 maiores petroleiras globais, sendo que as quatro primeiras são estatais, o padrão estatal como instrumento estratégico não saiu de moda.

O núcleo colonizado de economistas neoliberais

Esse grupo domina desde o Plano Real os mecanismos centrais de manejo da economia brasileira, a começar do Banco Central, comandado por esse grupo mesmo nos governos do PT. São pessoas da classe média alta, cujo perfil é ter estudado em universidades americanas, ter assimilado o “American way of life” em todos seus maneirismos, atitudes e modo de ver a vida e o mundo. Os filhos, quando estudam no Brasil, são em escolas bilíngues, apenas como preparação para terminar a educação nos EUA e, mais ainda, morar nos EUA é o sonho, as férias são sempre nos EUA, onde muitos têm casa, férias no Brasil são vistas como castigo.

A ideia de um Brasil com aspirações de potência no modelo BRICS é para eles uma aberração. O Brasil não deve ser nada, apenas uma plataforma de mercado “lincada” completamente com a economia americana, um modelo de Porto Rico ou Panamá; para eles, o Brasil não tem capacidade de ser outra coisa e, desta visão, decorre a política econômica.

A noção de um grande País que já teve um Imperador Habsbugo, uma cultura complexa multiétnica e multirracial, maior País do Hemisfério Sul, maior potência ecológica por sua floresta tropical, uma rica e exclusiva História, completamente diferente das repúblicas caudilhescas da América Espanhola, maior País de imigração italiana, árabe e japonesa entre todos, maior País católico, um sucesso cultural pela capacidade de mesclagem sem paralelo no mundo, maior potência agropecuária e já superando os EUA, nada disso interessa ao núcleo colonizado que comanda a economia brasileira.

O caso Embraer

O jornal O Globo, em abjeta manchete em letras garrafais, edição de 6 de julho de 2018,  “Acordo com a Boeing dá novo impulso à Embraer”, confirma a sua vocação de porta-voz desse grupo de economistas neoliberais, dos quais 80% são cariocas, na sua sina de acabar com qualquer vestígio de alguma coisa nacional que tenha a marca Brasil. A manchete é uma completa mistificação.

A Embraer não precisa de impulso da Boeing, tem uma carteira de encomendas de 18,5 bilhões de dólares, suficiente para ocupar suas fábricas por seis anos. Que impulso a Boeing vai dar? Muito ao contrário, há 120 empresas aéreas no mundo padronizadas em aviões da Airbus e não comprarão aviões Boeing. Uma Embraer independente poderia vender a essas empresas, sendo uma divisão da Boeing, não mais.

Países que tem problemas comerciais e diplomáticos com os EUA, e hoje a fila está aumentando por causa das loucuras de Trump, não comprarão mais aviões da Embraer, porque agora o produto é americano, com os controles tecnológicos super-restritivos que são padrão da política comercial americana e, no futuro, podem bloquear as vendas de peças e modernização de aeronaves. Não é previsão. Isso acontece agora com muitos países.

Produto brasileiro não tem qualquer restrição no mundo, ao contrário, é sempre bem visto. Um produto de fabricante americano tem restrições em grande número de países. Para quem não sabe, todas as subsidiárias de empresas americanas no mundo estão sujeitas às leis americanas.

Nos tempos do embargo a Cuba, as fábricas brasileiras de multinacionais americanas não podiam vender um parafuso a Cuba. Todas essas unidades recebem formulários semestrais de relatórios do Departamento de Comércio para preencher com os seus destinos de exportação, estejam essas fabricas no Brasil, no Japão ou na Alemanha. Cansei de assinar esse tipo de relatórios, que são rigidamente obedecidos pelas multinacionais americanas.

O episódio Dresser Industries

A Embraer vai perder vendas e não ganhar “impulso”, como abjetamente diz o jornal sabujo O Globo. A Rússia sob sanções americanas, a China em guerra comercial com os EUA, o Irã em pé de guerra com os EUA, vão comprar produtos com o selo da Boeing? Claro que não.

Quanto ao controle da Embraer pela Boeing, o Brasil perde completamente a direção estratégica dessa empresa que tem Brasil no nome. Como divisão da Boeing, todo o projeto tecnológico passa para controle americano, eles decidirão a nova família de jatos, a E-3, onde será fabricada, com que peças e componentes, com que mão de obra e engenharia; todo processo industrial muda de comando, e quem já vendeu empresa para multinacionais americanas sabe como eles são rápidos na conversão de uma empresa independente para uma simples divisão de um grande grupo.

A divisão de jatos comerciais, que é a que foi vendida à Boeing, é responsável por 90% do lucro total da Embraer. As divisões que não foram vendidas são as mais fracas, a de defesa e a de jatos executivos, que dependiam da divisão de jatos comerciais, o pulmão da Embraer, para seu fluxo de caixa. A Embraer é valiosa pela sua área de jatos comerciais.

No setor de jatos executivos, a concorrência é acirrada, existem no mundo mais de 20 fabricantes, a área de defesa depende de governos, é difícil ganhar a concorrência, é complicado fabricar, é difícil receber, o que garantia o grupo Embraer era exatamente a divisão que vai para a Boeing.

Em 1982, a filial francesa da fabricante americana de compressores Dresser Industries recebeu uma encomenda da petroleira estatal da então União Soviética, para fornecer os compressores para um novo gasoduto ligando os campos de gás da Sibéria à Europa Ocidental. A encomenda era importante para a Dresser France. Noticiado o pedido russo, o Departamento de Comércio dos EUA, invocando o Export Administration Act de 1979, vetou o negócio por ser contra o interesse estratégico dos EUA. A empresa era americana, mas a fábrica era na França. O governo francês não teve dúvida, nacionalizou a fábrica francesa da Dresser e manteve a encomenda. O conflito de jurisdição ficou famoso.

Depois do acordo com a Boeing, a Embraer estará sujeita aos controles americanos de exportações administrados pelo Departamento de Comércio, que poderá vetar exportações para uma série de países sob sanções dos EUA, como Rússia e Irã.

Se a Embraer, agora legalmente sob controle de uma corporação americana, desobedecer ao controle político do governo dos EUA, os dirigentes da Boeing poderão ser presos e a Boeing multada em várias vezes o valor da encomenda, assim, nem se sonha em não se cumprir a legislação. É uma absurda aplicação extraterritorial da lei americana, mas as subsidiárias estrangeiras de corporações americanas se consideram sujeitas à lei americana, esse é um conflito absurdo que o resto do mundo finge não ver, uma completa violação do conceito de soberania dos países em seu território.

Países como o Brasil aceitam sem pestanejar, como no caso da Petrobras estar sendo processada pelo Departamento de Justiça dos EUA por alegados atos de corrupção praticados no Brasil. A Embraer foi processada e multada em US$ 180 milhões, por alegados atos de corrupção praticados na República Dominicana, a lei americana com jurisdição universal rege atos praticados fora dos EUA por empresas não americanas.

O caso Braskem

A petroquímica é uma extensão da indústria petrolífera, foi criada no Brasil basicamente no Governo Geisel como prolongamento (“downstream”) da atividade básica da Petrobras, extração e refino de petróleo. Depois de vários formatos, iniciados com o modelo chamado de “tripartite” – capital estatal + nacional privado + multinacional –, foi criada uma série de empresas petroquímicas, que depois de várias etapas foram reunidas na Braskem, um guarda-chuva corporativo entre Petrobras e Odebrecht.

Agora, graças à Lava Jato, esse grande sistema está sendo vendido a um grupo apátrida que se esconde atrás de um biombo holandês, a Lyonell Basell, empresa que faliu em 2011 e cujo espólio foi comprado pela holding Access Industries de Nova York, por sua vez controlada pelo russo-americano-israelense-britânico Len Blavatnik, oligarca cuja fortuna de 21 bilhões de dólares foi formada nos obscuros processos de privatização dos bens da ex-União Soviética.

Blatvatnik, residente em Moscou, aparece como um dos principais acionistas da petroleira siberiana TNK, parte do imenso complexo petrolífero estatal da ex-URSS. A TNK foi vendida à British Petroleum-BP, em 2003, por 55 bilhões de dólares, ficando Blavatnik com 7 bilhões de dólares, base de sua fortuna. Len é até hoje acionista e está no board da UC Rusal, maior produtora mundial de alumínio.

A partir de seus ativos russos, Blatvanik formou o seu império, hoje com 200 companhias, entre as quais a Warner Music, pela qual pagou 3,3 bilhões de dólares, a grife de luxo Tory Burch, grande número de hotéis, como o Faena de Buenos Aires, Grand Hotel du Cap Ferrat, na Riviera, um prédio histórico em Kensington Palace Gardens, em Londres, pelo qual pagou 200 milhões de libras. Blavatnik tem sua própria produtora de filmes, com sucessos como The Butler e Mr. Holmes, do produtor Lee Daniels. Tentou comprar a MGM sem sucesso.

A Lyondell Basell, por sua vez, é uma das três maiores petroquímicas no mundo, só nos EUA tem 22 complexos industriais, a sede americana é em Houston em duas supertorres modernas de escritórios, tem também nove fábricas na Europa e uma no Brasil, em Pindamonhangaba.

Também no Brasil, a Access Industries, através de uma subsidiária, controlava a firma de telecomunicações Nextel, que vendeu sua operação brasileira por US$ 70 milhões.

Len Blatavnik se esmera nos contatos políticos. Na Inglaterra virou “Sir” por sua doação de 75 milhões de libras à Universidade de Oxford, outros milhões para a Royal Opera House, a Tate Gallery, onde construiu um prédio exclusivo com seu nome, a Universidade de Cambridge, onde patrocina um programa de bolsas.

Em Israel, Len Blavatnik é um dos mais próximos amigos do premier Benjamin Netanyau, na Rússia, é muito próximo ao presidente Vladimir Putin, através de seu sócio Viktor Vekselberg, um dos melhores amigos de Putin.

Nos EUA, Len Blvatnik é um grande doador de fundos para campanhas dos dois partidos. Em 2011, doou para a campanha de Obama e também para o republicano Mitt Romney. Em 2015-16, doou novamente para os dois partidos, para Hillary Clinton e Andrew Cuomo, eleito governador de Nova York; para os republicanos, doou 7,35 milhões de dólares e 1 milhão para a festa de posse de Donald Trump, mas também doou para as campanhas de senadores, especialmente de Marc Rubio, John McCain e Lindsay Graham. O incrível é que também doou para um grupo anti-Trump dentro do Partido Republicano, mas seus lobistas americanos são todos ligados ao círculo político do presidente Donald Trump. (Veja aqui)

Por sua rede de doações eleitorais, entrou no radar do promotor especial Robert Mueller e está sendo investigado como um dos dutos de doações russas para campanhas eleitorais americanas, dada a proximidade de Blavatnik com o líder russo Vladimir Putin, através do circuito Vekselberg; as ligações políticas na Rússia são complexas e fechadas.

Em outubro, devem estar concluídas as negociações para que a Lyonell Basell compre o controle da Braskem, que assim ficará em mãos limpas, como deseja a cruzada moralista brasileira. Afinal, as credenciais de compliance da ex-falida Lyondell Basell e do oligarca russo controlador final do negócio são impecáveis, especialmente, no corredor Odessa-Londres-Nova York-Tel Aviv-Amsterdam.

Len Blavatnik, considerado na lista do jornal Sunday Times como o homem mais rico do Reino Unido, é o líder da sofisticada comunidade de “oligarcas” russos residente em Londres, aqueles que de repente apareceram como “donos” das empresas estatais russas, sem que se conhecesse como e quanto pagaram por elas.

Quanto à Braskem, trata-se de empresa contaminada pela “maior corrupção da história do mundo” segundo o professor Marco Antônio Villa, visto que os sócios são Petrobras e Odebrecht. A sua venda deve-se à derrocada financeira da Odebrecht e à política de “privatização banca” da Petrobras, uma reação à lenda da “Petrobras quebrada”, propagada para dar cobertura à liquidação de ativos da empresa sem licitação, tudo na conta da cruzada moralista.

Os 25 oligarcas russos residentes em Londres têm quatro dos dez maiores iates do mundo, times de futebol, jatos privados Boeing 737 e as mais caras mansões de Londres. Perto deles, os corruptos brasileiros são trombadinhas de feira – mas com a venda da Braskem para os oligarcas russos de Londres, a moralidade brasileira estará resgatada.

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