Nem “exército de Stédile” nem “Estado mínimo”


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A crescente e perigosa polarização política que toma conta do Brasil tem contribuído sobremaneira para ofuscar a percepção das raízes mais profundas dos problemas que mantêm o País prisioneiro da potencialmente explosiva combinação de um governo semiparalisado com recessão econômica, inflação em alta, paralisia de investimentos e aumento do desemprego. Neste momento, o que o Brasil menos necessita é de uma radicalização entre forças movidas por interesses sectários e visões ideológicas e idealizadas sobre a natureza da crise nacional e sua inserção no contexto global.

Dias atrás, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva assumiu publicamente um tom de confrontação, ao ameaçar com a convocação do “exército de Stédile”, referindo-se ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), para se contrapor à tentativa de desestabilização do governo da presidente Dilma Rousseff, que, de fato, tem seduzido vários setores da sociedade descontentes com a deterioração do cenário nacional. Prontamente, na quinta-feira 5 de março, o “exército” atendeu à convocação, quando uma tropa de choque de cerca de 500 mulheres ligadas ao MST invadiu um centro de pesquisas da empresa Suzano Futura Gene, em Itapetininga (SP), destruindo milhares de mudas de eucalipto que faziam parte de pesquisas de melhoramento genético, algumas realizadas durante 14 anos. Como de hábito, a organização saiu impune, a despeito de ter filmado toda a ação e a divulgado imediatamente na internet.

No domingo 8, o próprio “comandante” do MST, João Pedro Stédile, apareceu em um vídeo gravado em Caracas, ao lado do presidente Nicolás Maduro e outras autoridades venezuelanas, na inauguração de um supermercado, fazendo declarações provocativas contra a “direita de merda” venezuelana, à qual sugeria que deixasse o país e fosse para Miami, para que “nos deixem em paz, para trabalharmos, estudarmos e construirmos uma pátria livre e socialista”.

A presença de Stédile em uma solenidade oficial do governo de Maduro (ele próprio às voltas com uma radicalização política ainda mais grave que a brasileira), além do prosseguimento das ruidosas manifestações públicas do MST, contribuem para alimentar ainda mais os paranóicos rumores sobre a iminente ameaça de uma “bolivarianização” do Brasil, que circulam em redes sociais engajadas em mobilizações contra a presidente Dilma Rousseff, sem notar que o movimento boliviariano se originou dentro das Forças Armadas venezuelanas, algo bem distante do caso brasileiro. E pode-se esperar que os “sem-terras” também se apresentem para as manifestações convocadas para a sexta-feira 13, a pretexto da defesa da Petrobras, da reforma política e dos direitos dos trabalhadores – que, curiosamente, consideram (com razão) ameaçados pela política de restrições fiscais do governo.

Por outro lado, as manifestações programadas para o domingo 15, que mostram o tamanho do descontentamento nacional com o desgoverno de Brasília, estão sendo orientadas para um eventual impeachment da presidente, como explica Kim Kagaguiri, coordenador do Movimento Brasil Livre (MBL): “A pauta principal é o impeachment. Já há pareceres jurídicos que embasam isso. Se a presidente não falhou por dolo, falhou por culpa.”

Além do impeachment, o MBL defende o liberalismo econômico e a participação “mínima” do Estado na economia.

Embora se diga contrário ao impeachment, o movimento Vem Pra Rua, que também integra a mobilização, advoga uma ideologia semelhante – “mais transparência, mais ética, mais iniciativa privada e menos Estado inchado (O Globo, 10/03//2015)”.

Entre um extremo e outro, se abrigam as legítimas insatisfações dos mais diversos setores da sociedade, mas o mais preocupante é a inexistência de uma convergência de posições sobre as saídas para a crise, tanto nacional como global. Trata-se de um vazio perigoso, que, entre outros riscos, pode ser aproveitado por interesses externos de olho na movimentação do País, para insuflar ainda mais os conflitos internos, de modo a obstaculizar-lhe o protagonismo global ensaiado na última década, em iniciativas como a formação do grupo BRICS.

Por exemplo, é quase pueril a visão ideológica de que um “Estado mínimo” seja a condição ideal para um país com as contradições do Brasil, em que um Estado vigoroso e relativamente livre da sua captura por interesses privados e corporativos ainda terá, por muito tempo, um papel fundamental a desempenhar. E aqui não se trata de propor esta ou aquela dimensão para o Estado, mas de discutir o seu caráter – se se trata de um Estado verdadeiramente republicano e orientado por um “princípio do Bem Comum” ou de um Estado oligárquico a serviço de interesses particulares. Esta, sim, deveria ser a motivação central da indignação e da mobilização dos brasileiros.

A retomada do nacionalismo e de um projeto de industrialização que seja minimamente blindado das oscilações externas constitui o único caminho para que o País possa reencontrar as perspectivas de desenvolvimento deixadas para trás e, não menos, de uma inserção soberana na nova ordem de poder global que se encontra em gestação.

5 comments

  1. é uma vergonha, um país do tamanho do brasil, ter que passar por uma situação dessa, do povo ter que sair pra rua e mostrar sua insatisfação e cobrar do governo uma posição mais honesta e transparente, quando todos sabem que ela nunca fez e não faz por merecer ser chefe de uma nação, as maracutaias estão escancaradas e essa senhora diz não saber de nada. quando na verdade, o mínimo que se poderia fazer era renunciar o cargo e pedir desculpas a nação, antes que as coisas fiquem pior. isso seria o mínimo que ela poderia fazer, mas não. Não tem capacidade para governar e nem pede pra sair.

  2. Artigo excelente. Precisamos, antes de tudo, consolidar a República e a Democracia. E combater mazelas que vêm dos tempos coloniais. A Constituição de 1988 é o farol. Saibamos defender o País daqueles que, pela direita ou pela esquerda, torcem pelo “quanto pior, melhor”, e sonham com o restabelecimento de passados autoritarismos ou com a implantação de futuros.

  3. Isso não é novidade, Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), organizou seu bando em 1919 e passou a matar, estrupar, sequestrar, torturar, atacando fazendas em sete Estados do Brasil. Não tinha apoio do governo, não recebia grana de ONGS e não havia contrabando de armas, como se diz na gíria, era com a cara e a coragem. O MST invade fazendas, mata, rouba, queima, , recebe bolsa família, desfila pelas ruas com foices e facões e o governo nada faz. Os caminhoneiros estão levando porrada, sendo presos. Se Stédile tem exército, o Comando Vermelho pode, as FARCS podem, e principalmenten o cidadão honesto pode e deve, por isso criaram o desarmamento para otários. Já passou da hora de nos organizarmos, propormos projeto para o Brasil, principalmente, defender nossas famílias dessas crescentes agressões de petralhas e Stédiles.

  4. Desde fim de ditadura 1985, tem sido infiltrados no Brasil centenas de agentes geopoliticos ultra-sofisticados, geralmente europeos (porque nao provocam suspeita!) , para incentivar distorcao “anarco-trostkista” e pressao “ecologista-indigenista-campones” para desviar a esquerda politica brasileira,que era preparada para pragmatismo nacionalista, com influencia extrenists para sofocar uma coesao nacionalista pos-ditadura. Exemplo e o projeto Belo Monte: Os militares da ditadura, e depois a esquerda politica brasileira, os sindicatos e a industria, e a direita politica brasileira: Todos concordaram com o projeto Belo Monte, que na sua dimensao original(!) podia ter revolvido desde anos (!) algo (!)da crise energetica do Brasil. Mas poucos brasileiros estao ciente desta realidade: Exemplo o antropologo Edward M. Luz, diretor da FUNAI ate 2008 tem aclarado que tem sido a GTZ alema que na decada de 1990 tinha incentivada a pressao contra os gobiernos do Brasil para que homologaram reservas indigenas, muitas delas sem fundamento verdadeiro antropologico ou juridico e nem para “indigenas” . Pressao esta abertamente visivel nas ameacas feitas por senadores ou deputados de EUA , nem mencionar as ameacas feitas fora da visao publica. (Costa Rica tinha sido ameacada segredamente de EUA contra parceiria com o International Criminal Court: “EUA poderia declarar os portos de Costa Rica como sem seguranca para o turismo!”. O sindicato dos funcionarios da presidencia de Costa Rica tinham instalados ‘bugs” no palacio e logo publicaram o “ouvido”!) GTZ – desde 2011 com nome de GIZ e uma “empresa privada” de Alemanha: Gesellschaft fuer Internationale Zusammenarbeit” (Sociedade para Cooperacao Internacional)- mas excluvisamente funciona e exclusivamente esta financiado pelo Ministerio de Cooperacao Internacional do Governo Federal de Alemanha (pais ocupado por 60,000 militares a miles de agentes de EUA). Um dos agentes alemaos ativos no Brasil desde 1992 ate 2010 e o sociologo alemao Thomas Fatheuer: Agente da GTZ-GIZ desde 1992 ate 2003. E como agente diretor da “Fundacao Heinrich Boell” RJ desde 2003 ate 2010: A “Fundacao Heinrich Boell” e o Partido Verde (intervencionistas pro-OTAN) e nem e fundacao: Somente uma turma de agentes geopoliticos financiados pelo Governo Federal da Alemanha. “Fundacao Heinrich Boell” RJ logo tem co-fundado e financiado em 2011 a “Articulacao contra a Copa” para os protestos 2013-2104. Thomas Fatheuer esta de volta na Almanha para dirigir operacoes de intervencao e propaganda de ONGs alemas contra o governo de Brasil. — Agora imagine em 2015, que “contingency operations” tem sido preparados desde “fora” – seja com ou sem um governo de Dilma. Na giria vulgar do americano: “Comin’ an’ goin’ you’r gettin” …….!”

  5. Sou da opinião que devemos todos nos reorganizarmos. E esta reorganização se inicia em cada um de nós. Ela não depende de governos, partidos ou ONG´s mas é necessária. Para o primeiro passo, talvez seja conveniente olharmos para os nossos mal hábitos. A queles que temos a liberdade e o poder de modificar a partir de nossas próprias iniciativas. Os passos seguintes serão descobertos nos próprios resultados obtidos da práticas dos primeiros.

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