"Modelo Grécia" acorrenta país e o mundo

“Por muitos indicadores, a Grécia está retrocedendo em algo sem precedentes na moderna experiência ocidental. Um quarto de todas as empresas gregas fechou as portas desde 2009, e a metade de todas as pequenas empresas do país se diz incapaz de pagar as contas. A taxa de suicídios aumentou 40%, no primeiro semestre de 2011. Uma economia de escambo se estabeleceu, na medida em que as pessoas tentam contornar os efeitos de um sistema financeiro quebrado. Quase a metade da população abaixo de 25 anos está desempregada. Em setembro último, os organizadores de um seminário sobre emigração para a Austrália, patrocinado pelo governo, que havia atraído 42 pessoas no ano anterior, se viram sobrecarregados com 12 mil inscrições. Banqueiros gregos me disseram que as pessoas retiraram de suas contas um terço do seu dinheiro; ao que parece, muitas delas estavam guardando o que tinham de economias debaixo de suas camas ou enterradas nos quintais. Um banqueiro, que, atualmente, tem como parte do seu trabalho persuadir as pessoas a manter seu dinheiro no banco, me disse: ‘Quem confiaria num banco grego?'”

A descrição da tragédia em curso na Grécia, feita pelo correspondente do New York Times, Russell Shorto (13/02/2012), denota que os problemas do país europeu transcendem em muito as questões financeiras e econômicas e as próprias fronteiras gregas, apontando para o caráter civilizatório da crise sistêmica, da qual a nação que foi o berço da Civilização Ocidental se apresenta como uma advertência para todo o mundo.

Na Grécia, se joga o futuro da união monetária europeia em sua presente forma, estreitamente vinculada a políticas monetaristas de interesse majoritário da alta finança “globalizada” e crescentemente alienada das aspirações e necessidades das sociedades dos países membros do bloco.

Mas, acima de tudo, está em causa uma definição determinante sobre a natureza e as funções de um governo nacional e a orientação de suas políticas públicas, especialmente, as econômico-financeiras. Em síntese, pode-se dizer que se trata do próprio caráter do processo civilizatório. Assim como na tragédia de Ésquilo sobre Prometeu, se o “modelo Grécia” persistir, não apenas a economia do país e o bem-estar de sua população estarão acorrentados aos ditames oligárquicos, para assegurar uma incerta – embora finita – sobrevida a um sistema financeiro disfuncional e gerador de desigualdades, mas o processo tenderá a se estender a outros países, na Europa e fora dela, deixando a perspectiva de um retrocesso civilizatório de consequências imprevisíveis.

As recentes e violentas manifestações populares ocorridas em Atenas e outras cidades, envolvendo centenas de milhares de pessoas e deixando dezenas de prédios incendiados e estabelecimentos comerciais saqueados, representam um claro indício da revolta da população grega contra a imposição de uma virtual ditadura financeira ao país. Neste particular, não faltou a ironia da expulsão de seus partidos de 43 parlamentares da coalizão governista, que votaram contra ou se abstiveram de aprovar o mais recente pacote de austeridade imposto pela “troika” União Europeia-Banco Central Europeu-Fundo Monetário Internacional.

A votação do pacote, em troca de uma nova parcela do pacote de “resgate” de 130 bilhões de euros, para que o país não fique insolvente com o pagamento de sua dívida, foi concluída à meia-noite do domingo 12 de fevereiro, com o prédio do Parlamento sitiado por dezenas de milhares de manifestantes e sob forte proteção policial, que não impediu os tumultos. Os termos do pacote, para os quais a palavra draconiano não é suficiente, impoem condições verdadeiramente brutais ao governo e à população. Entre outros itens, destacam-se:

– a demissão de 150 mil funcionários públicos até 2015, sendo 15 mil ainda em 2012;

– cortes de 20% nos salários do funcionalismo público;

– redução do salário mínimo, de 750 para 600 euros;

– corte do salário-desemprego, de 460 para 360 euros;

– redução de 15% nas pensões.

Os termos do pacote estão contidos em um “Memorando de Entendimento” que se assemelha a um acordo de rendição de uma nação derrotada em uma guerra, o qual detalha as condições impostas pela potência vencedora (no caso, a “troika”, representando os interesses financeiros), chegando a requintes como exigir a redução de gastos com remédios e “a suspensão das limitações para os varejistas venderem produtos de categorias restritas, como alimentos infantis”.

Um dos parágrafos mais humilhantes e emblemáticos do documento é autoexplicativo quanto ao processo que está submetendo o país:

O governo não proporá nem implementará medidas que possam infrigir as regras da livre movimentação de capitais. Nem o Estado, nem outras entidades públicas, concluirão acordos de acionistas com a intenção ou o efeito de obstaculizar a livre movimentação de capitais ou influenciar a administração ou controle das empresas. O governo não iniciará nem introduzirá quaisquer limites de participação votante ou aquisição, e não estabelecerá quaisquer direitos de veto desproporcionais ou não justificáveis, ou qualquer outra forma de direitos especiais nas companhias privatizadas.

Em síntese, liberdade total para os predadores financeiros que estão na origem da crise sistêmica em curso, e não apenas na Grécia.

Tudo isso, em meio ao anúncio de uma queda de 6,8% do PIB em 2011, mais que o dobro do previsto pela “troika” no início do ano passado, e com tendência de aumento.

A gravidade do cenário grego se mostra até mesmo nos comentários de um notório arauto do modelo financeiro anglo-americano, o conhecido colunista financeiro do Daily Telegraph londrino, Ambrose Evans-Pritchard. Em sua coluna de 12 de fevereiro, depois de qualificar como “cartaginesas” as condições financeiras impostas à Grécia, ele adverte, com um sentido histórico mais que oportuno:

A política não pode controlar o consenso democrático ao longo do tempo. O partido Pasok, outrora dominante, desabou para 8% nas pesquisas. O apoio [popular] está se dividindo entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, exatamente como a Alemanha de Waimar sob a deflação de [o chanceler Heinrich] Brüning. O próximo Parlamento grego será recheado com incendiários “antimemorando” e qualquer tentativa das elites gregas de evitar que as eleições ocorram deve empurrar os protestos de rua no rumo da revolução. Em um sinal dos tempos vindouros, a Federação Helênica de Polícia pediu a prisão dos funcionários da “troika” em solo grego, por ataques à “democracia e à soberania nacional”.

Vinte e cinco séculos depois que Platão legou ao mundo a sua República, na qual delineou os princípios de atenção ao bem comum que deveriam orientar as ações de todos os governos, os gregos (desta vez, representados pela população como um todo) voltam ao centro do palco histórico. O desfecho da tragédia deverá ter repercussões muito além da Praça Syntagma.

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