Martin Wolf, “salvando o liberalismo” com disfarce humanista

Depois dos lamentos da revista The Economist sobre o desgaste global do liberalismo econômico, que defende desde a sua fundação, há 175 anos, outro arauto da liberdade dos mercados mostra a sua preocupação, o editor do jornal Financial Times, Martin Wolf. A sua coluna da semana passada, reproduzida no Valor Econômico de 26 de setembro, leva o título “Salvando a democracia liberal dos extremos”.
Nos últimos anos, Wolf tem se mostrado um liberal não tão dogmático e, ao contrário dos seus colegas da Economist, demonstra uma sensibilidade real para com os excessos da especulação sem freios e os seus impactos socioeconômicos, que estão na raiz do descontentamento mundial com o status quo. Ele observa:

Em livro recente, e em artigo anterior, Yascha Mounk, da Universidade de Harvard, argumenta que tanto o “liberalismo não democrático” quanto a “democracia não liberal” ameaçam a democracia liberal. Sobre a primeira, a democracia é fraca demais: os laços sociais e a segurança econômica são sacrificados no altar da liberdade individual. Sob esta última, o liberalismo é fraco demais: o poder é capturado por demagogos que governam em nome de uma maioria raivosa ou, pelo menos, de uma minoria de bom tamanho, que é convencida de que constitui “a verdadeira população”. O liberalismo não democrático acaba no domínio da elite. A democracia não liberal acaba em domínio autocrático.
O argumento de Mounk, além disso, é o de que o liberalismo não democrático, notadamente o liberalismo econômico, explica, em grande medida, a ascensão da democracia não liberal: “Grandes porções de política pública são isoladas da contestação democrática”. Ele aponta para o papel dos bancos centrais independente e para a maneira pela qual o comércio exterior é regulamentado por acordos internacionais criados por negociações sigilosas realizadas dentro de instituições remotas.

Mounk, é um dos jovens talentos (36 anos) promovidos pelo Establishment anglo-americano para um esforço de promover algum tipo de mudanças dentro do sistema oligárquico, que permita coibir a ascensão de líderes “populistas” contestadores do sistema, mas não ameace a sua estabilidade. Professor de teoria política em Harvard, é considerado uma das estrelas em ascensão na tradicional universidade e é pesquisador do German Marshall Fund, um dos principais centros de formação de pensamento e formulação de políticas do eixo transatlântico. Este ano, lançou o livro The People vs. Democracy: Why Our Freedom is in Danger & How to Save it (O povo versus a democracia: por que a nossa liberdade está em perigo e como salvá-la; Harvard University Press, 2018). Não obstante, ele não deixa de apontar o dedo para uma das principais causas das contestações à democracia liberal, como esta se apresenta: o fato de que ela tem beneficiado apenas as minorias situadas no ápice das pirâmides socioeconômicas. Um exemplo é seguinte trecho de uma recente entrevista sua à The Economist (21/08/2018), na qual a revista também evidencia a sua ciência da realidade:

Economist – Quanto do rebrote populista é resultado da desigualdade econômica e dos rendimentos estagnados para os 99%? Se consertarmos isto, as tendências populistas irão desinflar – ou há mais em jogo do que a economia?

Mounk – Os populistas estão em ascensão em virtualmente todas as democracias liberais em todo o mundo, e já há um longo tempo. Então, precisamos prestar atenção nas razões estruturais e transfronteriças do seu sucesso. Elas incluem a ascensão da internet e das redes sociais, que facilitam aos de fora desafiar as elites no poder, bem como uma rebelião de partes da população contra a emergência de sociedades crescentemente multiétnicas. Mas também inclui a notável estagnação de níveis de vida dos cidadãos comuns que muitos países, como os EUA, têm experimentado nas últimas décadas. Devolver às pessoas um sentido de otimismo sobre o futuro econômico delas – e do seu país – não irá consertar tudo, mas seria um grande passo no rumo da reconstrução da confiança na capacidade da democracia liberal para entregar benefícios tangíveis para os cidadãos comuns.

Mounk não diz, mas um dos principais problemas desse diagnóstico é que a restauração de tal sentido de otimismo com o futuro passa pela reversão da estagnação socioeconômica e das desigualdades provocadas pela “globalização” financeira das últimas décadas, à qual os beneficiários do sistema “democrático liberal” se agarram a todo custo e não se mostram dispostos a corrigir o rumo.

Por sua vez, Wolf parece concordar, na conclusão do seu artigo:

Mas não podemos simplesmente ignorar as pressões. É impossível para as democracias ignorarem a raiva e a ansiedade generalizadas da opinião pública. As elites têm de promover um pouco menos de liberalismo, mostrar um pouco mais de respeito pelos laços que ligam os cidadãos entre si e pagar mais impostos. A alternativa de permitir que uma grande parte da população se sinta deserdada é perigosa demais. Será que um desequilíbrio desse gênero é concebível? Esta é a grande questão.

E já que Wolf deixa a questão em aberto, sem apresentar qualquer proposta para uma mudança de rumo (afinal, seu jornal divide com a Economist as funções de principais arautos da City de Londres), permitimo-nos acrescentar: a única reforma possível para um sistema cujo principal resultado socioeconômico tem sido a expansão das desigualdades e da injustiça social e, no campo cultural, a destruição da dignidade do homem, é a sua substituição pura e simples, por um sistema realmente compatível com o direito de todos os seres humanos a uma vida digna e ao pleno desenvolvimento das suas capacidades individuais, em um ambiente de respeito ao bem comum das sociedades. O liberalismo e o utilitarismo do qual se nutre, como a História tem demonstrado, passam muito longe dessas metas.

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