Manuela Picq, o Conselho Mundial de Igrejas e a desestabilização de Rafael Correa

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A breve prisão da “jornalista brasileira” Manuela Lavalas Picq, em Quito, Equador, foi tratada pela mídia em geral como mais uma manifestação da alegada intolerância do presidente Rafael Correa para com os seus opositores. Não obstante, apesar de ela já ter praticamente sumido do noticiário nacional, após a sua liberação, na segunda-feira 17 de agosto, uma análise menos superficial do caso fornece pistas que levam à origem da insidiosa campanha de desestabilização movida contra Correa, instrumentalizada por elementos internos ligados aos movimentos indígenas, mas idealizada por uma entidade chave do aparato de “governo mundial” controlado pelo Establishment oligárquico anglo-americano e seus apêndices europeus, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

Sob o disfarce da promoção de um falso ecumenismo religioso, o CMI foi criado por altos representantes do Establishment anglo-americano, para funcionar como o centro de uma série de campanhas de desestabilização interna contra Estados nacionais colocados na mira dos seus mentores (ver, p.ex., Resenha Estratégica, 3/10/2012). As motivações de tais campanhas podem ser religiosas (o CMI foi um dos principais promotores da “Teologia da Libertação”) ou causas de grande apelo social, como os direitos humanos, proteção do meio ambiente e dos povos indígenas, desarmamento civil, questões “raciais” e, mais recentemente, a ideologia de gênero.

No livro Quem manipula os povos indígenas contra o desenvolvimento do Brasil: um olhar nos porões do Conselho Mundial de Igrejas(Capax Dei Editora, 2013), Lorenzo Carrasco e Silvia Palacios afirmam:

Não foi casual que a fundação do CMI tenha sido oficializada em 1948, juntamente com a criação de várias outras instituições e entidades que viriam a desempenhar papeis fundamentais na estratégia hegemônica do Establishment anglo-americano. Entre elas, destacam-se: a Agência Central de Inteligência (CIA) e a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA, resultantes da Lei de Segurança Nacional de 1947, que reformulou a estrutura de defesa e inteligência estadunidense para as necessidades do pós-guerra; o Escritório de Coordenação Política (OPC), braço de operações clandestinas da CIA (…); o Instituto Tavistock, centro de guerra psicológica britânico (1948), com várias ramificações nos EUA; a Organização do Tratado do Atlântico Norte (1949), sob cuja alçada foram estabelecidas numerosas redes clandestinas paramilitares e de inteligência (stay-behind), frequentemente ligadas ao crime organizado, que, a partir da década de 1970, viriam a protagonizar uma série de ataques terroristas contra a população civil, como parte de uma “estratégia de tensão” permanente; a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), em 1949, embrião do movimento ambientalista internacional, de orientação malthusiana, antiindustrial e antitecnológica.

Por detrás de todas essas entidades, encontramos vários personagens conhecidos, com destaque para os irmãos Dulles e a família Rockefeller. Com elas, a partir daquele período do pós-guerra imediato, o Establishment anglo-americano passou a adotar o intervencionismo nos assuntos internos de outras nações como uma marca registrada da sua estratégia de dominação global, com desdobramentos que perduram até os dias de hoje.

O CMI foi um dos principais articuladores da instrumentalização política do indigenismo, na América Latina, tendo sido um dos patrocinadores da célebre Conferência de Barbados, em 1971, onde foi estabelecida a agenda da “luta para a libertação” dos povos indígenas da região. O apoio do CMI foi crucial para a criação de algumas das principais ONGs que viriam a constituir o núcleo do movimento indigenista latino-americano (entre elas o Conselho Indigenista Missionário-Cimi brasileiro). No Equador, nas décadas de 1980 e 1990, a ONG Igreja e Sociedade na América Latina (ISAL), uma virtual subsidiária do CMI, desempenhou um papel fundamental na organização dos movimentos indígenas, impulso do qual surgiram a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), o movimento Pachakutik, o Ecuarunari (abreviatura de Movimento dos Indígenas do Equador, em quéchua) e outras, que estão no centro da atual investida contra Correa.

Não por coincidência, o mandatário equatoriano é um dos raros chefes de Estado em todo o mundo que têm se atrevido a combater abertamente essa rede internacional de intervenções antinacionais.

Manuela Picq e seu namorado, o advogado Carlos Pérez Guartambel, atual presidente da Ecuarunari, com quem foi detida, são qualificados e experientes militantes profissionais a serviço dessa rede transnacional.

Para começar, ela não é uma simples correspondente da rede Al-Jazira, como foi apresentada. Filha de pai francês e mãe brasileira, ela tem vivido praticamente toda a sua vida adulta no exterior e sua atividade jornalística parece resumir-se a escrever artigos para a rede catari como colaboradora. Poliglota, graduou-se em Relações Internacionais na França e fez doutorado nos EUA, além de ter passado um ano como bolsista no Instituto de Estudos Avançados da Universidade Princeton. Desde 2004, vive no Equador com um visto de “intercâmbio cultural”, onde é professora na Universidade San Francisco de Quito e uma dedicada militante das causas indígenas. A julgar pelo seu currículo, as suas especialidades são os assuntos indígenas e a ideologia de gênero, a insidiosa ideia de que os gêneros não seriam determinismos biológicos, mas construções culturais e sociais.

O resumo do trabalho desenvolvido em Princeton, intitulado “Amazônias cosmopolitas: desentrelaçando a modernidade do Estado”, proporciona um vislumbre dos seus interesses:

Como povos indígenas chegaram a participar de uma parada pelos direitos homossexuais, em um lugar chamado Benjamin Constant, no interior da Amazônia? O que pode aparentar ser de interesse anedótico, levanta questões menos triviais. É inesperado se encontrar a modernidade sociocultural [sic] em uma região que é a epítome de uma natureza selvagem, isolada e apolítica. Como podemos reconciliar o entendimento prevalecente sobre uma Amazônia desvinculada da modernidade política, com o seu cenário LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais] cosmopolita? Meu projeto, inspirado por esse fato, explora o imperativo de mudar a nossa visão quando olhamos a modernidade.

Princeton é um dos principais centros de formação dos operativos do “governo mundial”. Dali saíram, entre outros luminares, os irmãos John Foster e Allen Dulles, fundadores do CMI e, mais tarde, respectivamente, secretário de Estado estadunidense e diretor-geral da CIA, ambos integrantes do núcleo central da estrutura do “governo mundial” estabelecida no pós-guerra imediato, em torno da experiência da atuação conjunta dos serviços de inteligência anglo-americanos.

Em março de 2011, em Washington, Picq participou de um seminário sobre a proposta de criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), promovido pelo Instituto Brasil do Centro Wilson (Wilson Center), outro importante think-tank estadunidense. O CMI apoiou ativamente a criação da CNV, com a maldisfarçada finalidade de fustigar as Forças Armadas brasileiras.

Em junho do mesmo ano, o CMI repassou ao então Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, cerca de 4 mil páginas de documentos sobre a repressão movida contra os opositores do regime militar brasileiro, que se encontravam em sua sede em Genebra, Suíça. Em novembro, quando a presidente Dilma Rousseff anunciou a criação da CNV, o moderador do Comitê Central do CMI, o ex-pastor Walter Altmann, encontrou-se em Brasília com a então ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário, para manifestar o apoio do CMI à constituição da comissão.

Em emblemáticos artigos escritos para a Al-Jazira, Picq demonstra a ideologia antidesenvolvimentista e a visão bucólica dos indígenas, características dos militantes indigenistas. Em um deles, de maio de 2012, ataca já no título o projeto hidrelétrico de Belo Monte, no rio Xingu – “Belo Monte: a democracia danificada do Brasil”:

Belo Monte perpetua as estratégias militares para desenvolver o país, modernizando a Amazônia. A despeito da ampla oposição contra os custos sociais e ambientais dessa enorme usina hidrelétrica, [a presidente Dilma] Rousseff tem avançado teimosamente com ele, com pouco respeito pelas normas nacionais e internacionais. Em toda a região, megaprojetos estão afogando ecossistemas inteiros e danificando a demcoracia. Além dos impactos de longo prazo irreversíveis das represas amazônicas, a história de Belo Monte chama a atenção para o que a esquerda ainda tem que aprender sobre a democracia.

Em outro artigo, em março de 2013 (“Estradas amazônicas: a bela ou a fera?”), ela volta a atacar os projetos de infraestrutura, desta vez, as estradas:

Estradas representam desenvolvimento. É por isso que o governo equatoriano se jacta de fotografias de sorridentes indígenas Shuar, seminus com suas tradicionais pinturas corporais e penas, ao lado de rodovias pavimentadas, simbolizando a conectividade moderna. Rodovias trazem mudanças. Mas tais mudanças são facas de dois gumes, dificultando a avaliação dos impactos de longo prazo dessas rodovias. Embora as estradas amazônicas facilitem o acesso aos serviços de saúde e educação, elas também introduzem novas doenças, destroem culturas e estilos de vida indígenas e fomentam a colonização botânica [sic]. A sua conectividade significa um acesso fácil às economias de mercado, mas também implicam em degradação ecológica, desintegração social e proliferação de conflitos ecoterritoriais.

Ao ser detida, na quinta-feira 13, Picq acompanhava uma marcha encabeçada pela Conaie, que percorreu várias cidades do país durante dez dias e, juntamente com outras organizações sociais, integra uma série de protestos contra Correa, em oposição ao seu projeto de emendas constitucionais que, entre outras medidas, regulamentam a ação das ONGs e reduz a sua capacidade de interferência com a exploração dos recursos naturais nacionais. Guartembel era um dos líderes da marcha, juntamente com o prefeito de Zamora Chinchipe, Salvador Quishpe, um dos líderes do movimento indígena Pachakutik, e o economista Alberto Acosta, ex-aliado e ex-ministro de Correa, vinculado a ONGs alemãs.

Guartembel é um veterano dirigente de ONGs indígenas e está à frente do Ecuarunari desde 2013. Ao assumir o cargo, uma de suas primeiras providências foi uma viagem a Washington, onde recebeu o apoio da Human Rights Watch Americas, na figura do seu presidente José Miguel Vivanco, conhecido ativista da agenda de “direitos humanos” do Establishment, para a sua campanha contra Correa. Na ocasião, em uma conferência promovida pelo igualmente notório Diálogo Interamericano, Vivanco acusou Correa de promover “os retrocessos mais graves na América Latina, em matéria de liberdade de associação e expressão” (El País, 28/10/2013).

É importante registrar que, como o próprio Correa tem assinalado, tais manifestações estão longe de contar com um apoio maciço entre as comunidades indígenas. Em entrevista à agência Andes, a presidente da Confederação dos Movimentos Indígenas de Chimborazo (Comich), Delia Caguana, afirmou que a base dos movimentos indígenas reconhece as mudanças ocorridas no país desde que Correa assumiu o governo, em 2007, especialmente, em termos da abertura de estradas e da expansão dos serviços de educação e saúde. Por isso, afirmou, em 22 das 33 organizações membros da Conaie decidiram não participar da marcha promovida pela entidade:

Elas tomaram decisões. Primeiro, não participar da revolta organizada pela Conaie. Segundo, ratificar o apoio ao presidente Rafael Correa, porque ele está promovendo o projeto político da batalha histórica do movimento indígena. (…) Há ex-líderes da Conaie que estão promovendo uma revolta. Mas nós, como movimento indígena, afirmamos que não participaremos.

Segundo ela, existem problemas que podem ser resolvidos com vontade política, e esta tem sido, exatamente, a atitude do governo diante das demandas dos movimentos indígenas. Por isso, critica as lideranças do movimento que, em suas palavras, “têm conversas com a extrema-direita, buscando os seus próprios benefícios e não os dos seus povos”.

“Nós pensamos nas comunidades. É por isso que quando temos problemas, nós os apresentamos e os nossos pedidos são ouvidos por algum ministro ou funcionário do governo. Não há a necessidade de se organizarem revoltas ou greves”, disparou.

A líder indígena recordou, precisamente, o caso da Ecuarunari, criada para a luta contra os latifundiários e a discriminação:

(…) Agora, eu não entendo o que está acontecendo com líderes que trabalham com a extrema-direita. Eles perderam a sua essência e fazem a organização parecer ruim. (…) A nossa consciência está limpa, porque estamos trabalhando em benefício da sociedade. Nós estamos pedindo uma mudança profunda. Pela primeira vez na história, esse presidente [Correa] está promovendo um projeto político. (…)

Outro líder indígena, Miguel Lluco, um dos fundadores da Conaie, também criticou a atual liderança da entidade:

O levante indígena é a mais elevada forma de protesto que existe. Se eles vão usar isso, concordando com a direita, é porque venderam a dignidade das nacionalidades e dos povos indígenas do Equador à direita; isto é uma conseqüência muito grave e a história terá que julgá-los. Nós não vamos agir como um degrau para a direita (TeleSur, 31/07/2015).

A extrema-direita à qual ambos se referem inclui os setores das elites oligárquicas equatorianas, que estão protestando contra Correa por conta da sua intenção de taxar as grandes fortunas e pela sua atitude determinada diante dos abusos da grande mídia ligada a tais grupos. Assim, Correa se vê acossado por duas frentes aparentemente distintas, mas, na prática, unidas em sua vinculação às redes do “governo mundial”. Em sua luta sem quartel com esse aparato intervencionista, ele já determinou o encerramento das atividades no país de algumas das suas principais organizações, como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a Fundação Konrad Adenauer alemã e outras.

Correa coloca o dedo na ferida

Em particular, o presidente equatoriano entrou na lista de opositores do “governo mundial” por estar combatendo a ação das suas redes no país, onde 7% da população têm origem indígena, não se melindrando em apontar o dedo para as influências externas. Em novembro de 2012, na Cúpula Ibero-americana de Cádiz, ele disparou: “Sempre disse que o mais perigoso é o esquerdismo do tudo ou nada e o indigenismo infantil, que vê a pobreza como parte do folclore, que aceita as pessoas vivendo na miséria como parte de uma bela paisagem (IzquierdaHispanica.org, 16/11/2012).”

Em outra ocasião, afirmou: “[Os indigenistas dizem] não à mineração, não aos recursos naturais e [a qualquer atividade] de onde se possam extrair recursos para tirar rapidamente o nosso povo da pobreza. (…) Isto não é ser de esquerda, isto é asneira, infantilismo, é uma irresponsabilidade que faz fracassar qualquer projeto de esquerda (EstrategiayNegocios.net, 15/01/2014).”

Em uma entrevista à revista estadunidense New Left Review de setembro-outubro de 2012, Correa sintetizou a sua experiência de tratar com os movimentos indígenas do país:

Isso não significava, entretanto, apostar na fragmentação do Estado ou pôr fim à unidade nacional. A ideia de sempre foi a de reconhecer a diversidade e a diferença, para torná-los [os índios] mais integrados e coesos enquanto nação, mas não para gerar qualquer autonomia territorial que enfraqueça o Estado nacional. No mesmo sentido, reconheceram-se os direitos da natureza, a possibilidade de formar áreas indígenas, o direito à água como um bem público, e a mesma ideia da democracia comunitária. (…)

Não aceitamos o consentimento prévio [dos índios], um mecanismo pelo qual as comunidades deveriam autorizar o Estado caso este quisesse usar os recursos estratégicos do país, e isso gerou muito descontentamento em setores próximos ao movimento indigenista. Os recursos naturais são de propriedade pública, são bens comuns, e não pedíamos permitir que comunidades pequenas, por maior que seja a sua legitimidade histórica nesses territórios, tivessem a última palavra sobre o seu uso. (…) Nós governamos para todos os equatorianos e equatorianas, e não podemos ceder às pressões de minorias, por mais justificadas que as suas demandas possam parecer.

[Os indigenistas] estavam acostumados a ditar “ordens”, que, acreditavam, deviam ser aceitas pelo governo, pelo simples fato de vir deles. Não aceitam o debate democrático e não aceitam que quando o povo elege um partido para governar o país, o faz em função de um programa político. Eles acreditam que as suas ordem são legítimas, pelo simples fato de terem sido vítimas. Mas não pode ser assim. (…) A sua visão é fundamentalista e está muito influenciada por ONGs estrangeiras, com um discurso ecológico que não consegue entender as grandes necessidades do povo equatoriano. (…)

Não compartilhamos a visão do problema indígena como sendo um problema somente dos índios, que deva ser tratado por instituições indígenas. Este é o enfoque do multiculturalismo neoliberal que proliferou durante a década de 1990 na América Latina. O problema indígena é de todo o Estado equatoriano e todas as instituições públicas devem contribuir para resolvê-lo, independentemente de serem ou não dirigidas por indígenas.

Sem dúvida, o governo brasileiro – responsável por uma população indígena proporcionalmente 17 vezes menor que a equatoriana – teria uma ou duas coisas a aprender com a atitude de Correa.

Com a mesma determinação, Correa tem fustigado a ideologia de gênero, a qual já qualificou publicamente como “perigosíssima”. Em uma discussão pública, em dezembro de 2013, ele afirmou que, “academicamente, [a ideologia de gênero] não resiste à menor análise”. “Uma coisa é o movimento feminista pela igualdade de direitos, o que apoiamos de todo o coração. Mas há alguns excessos, uns fundamentalismos que propõem coisas absurdas. Já não versam sobre a igualdade de direitos, mas sim sobre a igualdade de todos os aspectos, que os homens pareçam mulheres, e as mulheres, homens. Já basta!” – disparou ele (Resenha Estratégica, 15/01/2014).

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