Manejo da moeda na política econômica

Por André Araújo

A ciência econômica, assim como a ciência médica, existe para aliviar o sofrimento. Os médicos, assim como os economistas, estudam para através da ciência enfrentar os riscos e doenças que a natureza apresenta ao homem, aliviando as dores e as incapacidades.

Se for para deixar os fenômenos da saúde e da economia seguirem o seu caminho natural, não seria preciso estudar ciência médica e nem ciência econômica, bastaria deixar a natureza agir.

Na medicina, se usam técnicas e remédios para curar as doenças, na economia igualmente existem técnicas e remédios para enfrentar as crises, entre as quais a depressão e a recessão.

Curiosamente, no Brasil, os economistas no governo não conhecem técnicas e remédios para enfrentar a crise da recessão que atinge o país há cinco anos, porque desde que esta começou não se usou técnica ou remédio algum para diminuir o sofrimento que a crise causa. As soluções são aprofundar a recessão por meio de congelamento de gastos por 20 anos, direcionando os cortes nos gastos para os pobres, não havendo programa ou providência para cortar gastos do Congresso, das mordomias do Executivo ou do sistema judiciário, todos, sistemas entre os mais caros do mundo e imunes a limites.

Os economistas no governo, que são os mesmos conhecidos como “economistas de mercado”, preferem deixar a doença seguir o seu curso natural, causando imensos sofrimentos como, por exemplo, a existência de 65,6 milhões de pessoas em idade de trabalhar e hoje fora do mercado de trabalho (dados do IBGE, Folha de S. Paulo, 1/8/2018, pág. A13), sem qualquer proposta de inverter a rota da recessão com a criação de demanda nova para gerar renda e, com isso, relançar a economia no caminho do crescimento, receita antiga e conhecida.

A técnica para isso é o manejo da moeda, que em ciência econômica deve ser operada com ciclos de expansão e contração. Quando começa uma recessão, se expande rapidamente a base monetária para criar demanda e, quando esta esquenta demais, se contrai a base monetária para inverter o ciclo de alta demanda, o risco de inflação deve ser tolerado. O Banco do Japão criou um programa para gerar inflação e estimular a economia japonesa. Na Argentina em crise, “Macri deve tolerar a inflação e priorizar a atividade”, diz Mario Blejer, do BC argentino (jornal Valor, 26/7/2018, pág. A16). A inflação é mal muito menor do que o desemprego, até o ortodoxo economista Mario Simonsen dizia que a inflação aleija, mas não mata, e em certas circunstâncias se usa o remédio para curar um mal maior, a recessão se encaminhando velozmente para a depressão. O Brasil teve entre 1950 e 1980 a maior taxa de crescimento do mundo, com inflação alta em todo o período e pleno emprego. O heterodoxo Delfim Neto, então, era mais versátil ainda, usava todas as ferramentas conhecidas, expansão monetária, tabelamento de juros, de preços, de câmbio. O mago Oswaldo Aranha inventou fórmulas geniais no câmbio de cinco categorias e de renegociação da dívida externa, gente inteligente que dava nó em pingo d’água e criaram o Brasil moderno que os de hoje estão destruindo.

O Brasil esta a cada mês perdendo renda nas classes B, C e D, com o que cai a venda de mercadorias e, com isso, diminui a produção em quase todos os setores do mercado de consumo, do iogurte ao cimento, tudo aquilo que o pobre deveria comprar, mas se mantém a venda para os rentistas do Leblon e dos Jardins, estes não estão em crise, porque há uma brutal transferência de renda através do sistema financeiro das classes baixas às altas.

Os “economistas no governo” assistem a esse espetáculo de camarote, como observadores neutros, todos dizendo que virão em um tempo qualquer “investimentos” que farão a economia crescer. É uma ofensa à ciência econômica dizer tal tolice, porque o investimento vem para atender à demanda crescente e não virá em um clima de demanda cadente. Portanto, esse investimento redentor nunca chegará e a economia continuará no seu caminho, agora rumando para uma depressão, estágio pior do que a recessão e que pode desintegrar socialmente o País, depois de destruir a sua economia e as suas instituições.

Nenhum dos atuais candidatos à Presidência propôs qualquer plano econômico para sair da recessão. Este é simples e conhecido há muito tempo: estimular a demanda através de investimentos públicos em infraestrutura, financiados com a emissão de moeda e, se isto levar ao risco de inflação, que seja tolerada, porque a recessão é muito pior do que a inflação, esta tem cura relativamente simples e rápida, a recessão é muito pior e de cura muito mais prolongada e custosa, Schacht curou a hiperinflação alemã, a maior da História, em seis meses.

Os impostores da economia

As ciências não exatas são um campo fértil para impostores, ao contrário das ciências exatas.

O desmascaramento dos fraudulentos é mais difícil no campo das ciências humanas e pelos filtros largos passam falsários de ideias, teses, doutrinas, copistas, performáticos, atores.

Direito, economia, sociologia, ciência politica, administração de empresas, são terreno para espertos audaciosos e bem falantes que passam por juristas, executivos com MBA em universidades inglesas, gurus, analistas, palestrantes, “economistas-chefes”, comentaristas econômicos, sociólogos com curso em Harvard, o campo da impostura é imenso. Há um livro clássico americano sobre executivos impostores, The Rise of the Rogue Executive, de Leonard Sayles, onde são contadas histórias de executivos impostores que destruíram empresas por incompetência só descoberta muito depois. No Brasil, há muitos casos conhecidos, mas que começam sempre pela apresentação de um executivo-ator com diplomas de várias universidades estrangeiras, todos sem nenhum valor, porque na maior parte dos cursos livres de grandes escolas, quem paga sai com diploma, os cursos reais de valor não são para enfeitar currículos de gente de passagem.

Executivos-impostores têm como primeiríssima providência, quando conseguem um alto cargo contratar uma cara assessoria de imprensa, para obterem títulos de “Homens do Ano”, “Executivo Destaque do Setor”, todos prêmios montados em cima de patrocínios, nada é de graça ou por mérito. Há profissionais para vender esses galardões. Um novo e ambicioso político brasileiro ficou rico atendendo a esse mercado de falsidades, é coisa muito antiga já do tempo de Eça de Queiroz e da indústria de títulos de “comendadores”.

No Direito, há os “juristas de apostilas” ou “juristas compiladores”, advogados que montam livrinhos sem valor, juntando pedaços de teses e julgados e se apresentam como juristas, categoria que só se aplica a doutrinadores e pensadores com teses originais, algo que só se apresenta em dois ou três cérebros de valor em cada geração.

Os impostores da economia não conhecem rudimentos ou princípios básicos de lógica econômica, mas são ótimos em repetir bordões em entrevistas.

Três bordões clássicos identificam o economista-impostor:

1) a economia de um Estado é como a de uma casa;

2) a inflação baixa garante a estabilidade e prosperidade;

3) com a estabilidade, virão os investidores privados e o País voltará a crescer.

Esses bordões são o arroz e feijão de “gurus” como Miriam Leitão, Henrique Meirelles e praticamente todos os comentaristas econômicos da grande imprensa, fora dessa cartilha não conseguem emprego, porque os maiores anunciantes da grande mídia são bancos e fundos de investimentos que dão o tom e a linha de uma imprensa pró-mercado.

Os três axiomas são completamente falsos, mas são repetidos como verdade revelada. Os bordões garantem o meio de vida de incontáveis espertos, um economista de verdade não repetirá essas tolices nem bêbado, porque são um atentado à inteligência. Vejamos seu contrapondo no mundo real:

1) Um Estado pode emitir moeda, coisa que uma dona de casa não pode e, uma vez a moeda colocada em circulação, será gerada renda e esta produzirá nova arrecadação de impostos, um ciclo sob o comando de um Estado e jamais de uma dona de casa.

2) A inflação baixa é neutra, não garante coisa alguma, pode apenas congelar a estagnação. Portugal teve moeda estável por 40 anos de regime salazarista e dois terços da população masculina teve que emigrar, porque não havia empregos no país. Muitos vieram para o Brasil, que tinha inflação alta e oportunidades de negócio, em Portugal  sem inflação, morreriam de fome, no Brasil com inflação, muitos enriqueceram.

3) Investimento privado vem se existir demanda nova, poder de compra para a produção que o novo investimento vai fabricar; se não houver demanda antecedente, não há razão para investir. Como, então, a inflação baixa, sozinha, vai trazer investimentos, como diz Meirelles?

A demanda vem antes do investimento e tanto a demanda como o investimento não dependem de inflação baixa. O Brasil recebeu superinvestimentos de grandes corporações como a Volkswagen, Mercedes Benz, Siemens, Fiat, Voith, Nippon Steel, Dow Química, em tempos de inflação alta e nenhuma estabilidade na economia. O atrativo para o investimento privado foi a existência de mercado para os produtos que as fábricas iriam produzir. Com inflação baixa após o Plano Real, vieram poucos investimentos produtivos novos, a maior parte do capital estrangeiro veio para a compra de empresas existentes e papeis de Bolsa.

A “inflação na meta” não trouxe qualquer nova prosperidade ao Brasil, apenas atendeu aos interesses do mercado rentista, que afeta 2-3% da população brasileira, enquanto a prosperidade da economia produtiva atende aos interesses de 97% da população, e esta não depende de “inflação na meta”, depende de renda e demanda para poder consumir.

A moeda e a recessão

A receita se executa pelo manejo da moeda, mais arte que ciência. Keynes tentou explicar em sua obra-prima Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, mas poucos economistas leram e menos ainda entenderam. A visão de Keynes sobre economia era filosófica e circunstancial, via a economia como um meio e não um fim. Já os economistas americanos que o combateram na reunião de Bretton Woods de 1944, onde Keynes fez tudo para evitar que o dólar, sob controle de um único Estado, fosse a moeda reserva mundial, e foi derrotado, esses economistas se dedicaram a elaborar fórmulas prontas que passaram a exportar.

Keynes teve seu o contraponto na segunda versão da Escola Monetarista, a chamada “Escola de Chicago” de Milton Friedman, hoje completamente superada, como foi a primeira versão, de Irving Fisher, que duas semanas antes do estouro da crise de 1929 disse que a “economia americana nunca esteve tão sólida”. A primeira escola monetarista terminou com a crise de 1929 e a segunda escola monetarista acabou com a crise de 2008, menos no Brasil, onde a notícia ainda não chegou.

Os economistas brasileiros anteriores ao Plano Real tinham pleno conhecimento e consciência do pensamento econômico mais amplo do que simples fórmulas de lousa, que passaram a ser a ferramenta exclusiva dos “economistas de mercado”, sem que adaptassem seu conhecimento técnico às circunstancias de cada país, sociedade e estágio histórico.

Os grandes economistas brasileiros eram também pensadores de ampla cultura geral. Roberto Campos era formado em teologia, curtia cinema e artes plásticas, conhecia História como poucos, era um homem do humanismo completo. Outros, como Celso Furtado, Dionísio Dias Carneiro, Rômulo de Almeida, Roberto Simonsen, Ignacio Rangel, Mario Henrique Simonsen, eram todos grandes pensadores políticos com visão de Estado, e não pigmeus “economistas de mercado”, que é o que hoje temos, com seus cursinhos americanos pré-pagos e manuais de ajustes, tripés e lições de casa, e bordões como “metas de inflação” usadas como mantra, substituindo a inteligência e a arte. Que economista de mercado de hoje canta óperas como Mario Henrique Simonsen, um excelente barítono? Um cérebro que se foca só em economia será sempre limitado. No mínimo, um economista precisa ser grande conhecedor de História, de história da economia e do pensamento econômico, quem dizia isso era Keynes.

O farol Keynes, gigante do pensamento, que dizia que a economia era o último de seus interesses, cultivava todas as artes, especialmente o balé clássico, a poesia da era do ouro do Círculo Bloomsbury e a música. Keynes tinha a economia como algo menor que a cultura clássica, a economia para ele era algo do que se tinha necessidade para viver, mas não para elevar o espírito, este se encontrava nas artes, na estética, na filosofia, na História clássica.

Outro contemporâneo de Keynes, no lado oposto do espectro politico, Hjalmar Schacht, era formado em Filosofia e poderia operar na máxima ortodoxia, como na neutralização da hiperinflação alemã de 1923, mas também podia operar na máxima heterodoxia, como na criação dos “marcos de compensação” para rearmar o Terceiro Reich, do qual foi ministro da Economia. Keynes, rigoroso ortodoxo nas suas funções no Tesouro da Índia, podia ser logo depois um aventuroso heterodoxo na carta a Roosevelt de 31 de maio de 1933, que foi a base do New Deal, eram homens tão inteligentes que podiam operar em várias frequências, dependendo do tratamento que a circunstância requeria. E nessa manifestação da mais alta inteligência, Keynes foi contestado por uma lady inglesa: “Mas o senhor muda de ideia a toda hora, que incoerência!” Ao que Keynes respondeu: “Minha senhora, eu não mudo, o que mudam são as circunstâncias.” Os nossos economistas são como a lady inglesa que nunca muda.

Schacht, depois de liquidar com a hiperinflação de 1.000% ao dia na Alemanha, criou os mecanismos para armar o Terceiro Reich, enfrentou o Tribunal de Nuremberg, foi ser o guru econômico da Indonésia recém-independente. Que arco fantástico de experiência humana!

Todos esses cérebros de primeira ordem, Keynes, Schacht, Albert Hischmann, eram “economistas das circunstâncias”, operavam dentro do quadro específico de cada situação e país, e não com cartilhas congeladas e iguais para situações diversas, criando pesadelos como a recessão brasileira, em um País riquíssimo de recursos, recessão produto da estupidez.

O Brasil pode sair da recessão com o uso da expansão monetária programada, R$ 50 bilhões mensais colocados em obras de infraestrutura necessária, em 40 meses, serão R$ 2 trilhões, há que se tolerar alguma inflação, que depois se contrai com depósitos compulsórios para enxugar a liquidez, há mecanismos para manejar a moeda para frente e para trás.

Mas também é possível que não haja inflação, porque há uma gigantesca reserva de ociosidade na capacidade produtiva brasileira e na mão de obra hoje desempregada. O risco de inflação só nasce no pleno emprego e, com 65 milhões de desocupados, esse risco está muito longe.

Não há nisso nenhuma novidade. Os EUA fizeram tal programa há pouco tempo, com a politica de “quantitative easing”, 80 bilhões de dólares por mês. O Banco Central Europeu fez a mesma coisa, 40 bilhões de euros por mês. O Banco do Japão já tinha feito para tentar acabar com a depressão, criou um programa para estimular a inflação numa economia muito deprimida. Politica monetária se toca como acordeão, se expande e se contrai, só burros de aldeia mantêm a base monetária fixa por décadas, sem ajustá-la às necessidades de liquidez para o crescimento, como faz o Brasil, hoje o maior santuário de economistas fósseis do planeta, País gigante, onde o pensamento econômico está paralisado no museu da PUC Rio, há décadas.

Estamos hoje com seríssima crise social, com mais de 60 milhões de desocupados, o que aumenta extraordinariamente o terreno dos conflitos sociais, o recrutamento de jovens sem futuro para a criminalidade, a dissolução de famílias, o abandono de crianças, o rebrotamento de doenças. Tudo isso é muito mais grave do que não atingir o fatídico “centro da meta”, como se isso fosse o total da economia, tema que já beira o ridículo, com discussões de preço de alfaces e abobrinhas. Gente grande que se pretende sabia e séria discutindo centésimos de um por cento da influência do preço do tomate sobre as passagens aéreas, parecendo quadros humorísticos do genial Chico Anísio, onde, em vez de tratar dos grandes movimentos da economia, as Miriams, Tecos e Sardenbergs se enrolam na discussão das irrelevâncias, dos fiapos, das minúcias, dessa cômica “economia dos índices”, que parece papo de malucos e nada tem a ver com as macrodecisões de uma política econômica de Estado. Cérebros menores se debruçam como clérigos medievais sobres atas do Copom, como se fossem bulas papais, atribuindo uma sacralidade idiota sobre as “intenções” desse apostolado de pigmeus arrogantes, que não enxergam além de suas mesas e máquinas de café.

Desde um Mario Henrique Simonsen, não se vê nas colunas mestras do governo brasileiro um único grande formulador de política econômica, capaz de lidar com as circunstâncias de um grande País em complicado estado de regressão econômica e social. Como foi possível se entregar a gestão da economia de um grande País a medíocres como Henrique Meirelles e Ilan Goldfajn, cujas cabeças se esgotam numa mesa de câmbio e juros e nada mais além disso? Nenhuma visão de Estado, de grande País emergente, ao nível da Rússia, China e Índia, nada além de uma gestão de carteira. Não se vê remotamente nessas almas penadas uma preocupação, por menor que seja, com o megadesemprego da população das periferias, com os 63 milhões de inadimplentes carimbados no Serasa, com os milhões de jovens sem futuro, com a desindustrialização, os esqueletos de ambulatórios e hospitais inacabados, com as 350 lojas que fecharam no Centro do Rio só no primeiro semestre de 2018. Os comandantes da política econômica parecem estar em Marte e não no Brasil.

Ciência econômica não existe para causar sofrimento, mas é uma ciência perigosa em mãos de incapazes e aventureiros. Falsos economistas são tão perigosos como falsos médicos.

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