Indústria: problema não é a China, mas o rentismo e a falta de infraestrutura

O processo de desindustrialização do Brasil prossegue em ritmo galopante e tem sido comum se explicar o fenômeno como resultado da invasão de produtos chineses, contra os quais o País não poderia competir.

A explicação é falsa, afirma o geógrafo Vladimir Milton Pomar, um dos maiores especialistas brasileiros em assuntos chineses. Para ele, o problema é interno, com destaque para a predominância do sistema financeiro e as deficiências da infraestrutura de transportes.

Em entrevista ao sítio Rede Brasil Atual, ele sintetiza: “Não temos transporte ferroviário, nem fluvial, e nós temos um setor empresarial que ganha mais dinheiro com operações financeiras do que na sua atividade-fim.”

Pomar não poupa críticas à opção “financeirista” do empresariado nacional. Para ele, o problema maior é o peso desproporcional do sistema financeiro no conjunto da economia. Além das altas taxas de juros cobradas pelos bancos, que dificultam a tomada de crédito para investimentos em produtividade, muitos empresários brasileiros retirar recursos da produção para investir na ciranda financeira, com lucros assegurados:

Há uma quantidade muito grande de empresas que vão até lá comprar e trazem os produtos para cá. Tem indústrias que vão lá para comprar máquinas e ferramentas, de modo a reduzir o custo de produção no Brasil. E tem indústrias que vão para fabricar lá. Esses caminhos que os empresários brasileiros têm feito são sempre para desindustrializar. A lógica é ganhar dinheiro. Se aqui no Brasil consigo lucrar 3% e produzindo na China e vendendo aqui consigo 10%, dane-se o emprego no Brasil. Cada um vai pensando exclusivamente no seu caso e vai matando não só o mercado consumidor, como cria uma situação de empobrecimento do país (Rede Brasil Atual, 20/06/2018).

A tradicional desculpa de que os baixos preços dos produtos industriais chineses seriam decorrentes de baixos salários e jornadas de trabalho exaustivas já não se justifica, afirma Pomar. Segundo ele, o custo do trabalho no país asiático já é 16% superior ao do Brasil.

Outro problema que dificulta a competição nos mercados internacionais, diz ele, é o “custo do dinheiro” no Brasil. Além dos juros elevados do crédito bancário privado, o atual governo vem promovendo o esvaziamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o fim da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) do banco complica ainda mais a oferta de crédito para o setor produtivo. “Estamos completamente desarmados para nos relacionar com a China”, afirma.

“Temos uma taxa de juros no rotativo do cheque especial que chega a 380% ao ano. No cartão de crédito, de 540%. Isso não existe em lugar nenhum no mundo. Mas parece que, por aqui, todo mundo já se acostumou, porque já existe há tanto tempo que ficamos sem vergonha. Não tem como o setor industrial do Brasil sair do lugar tendo um custo financeiro como esse”, lamenta Pomar.

Enquanto isso, o gigante asiático só tem feito expandir as suas ferramentas de crédito, com o fortalecimento do Banco de Desenvolvimento da China (equivalente ao BNDES), além do Banco Asiático de Desenvolvimento e do Novo Banco de Desenvolvimento, o “banco dos BRICS”. E até mesmo os bancos considerados privados têm uma participação estatal mínima de 50%.

Quanto à infraestrutura, Pomar afirma que investimentos no setor são cruciais para melhorar a competitividade do País, inclusive, frente aos chineses: “Se pegar os países continentais – Rússia, China, Canadá, Estados Unidos e Brasil –, todos têm malha ferroviária enorme, menos o Brasil. Não se transporta nada grande e pesado, com custo baixo, que não seja via fluvial ou ferrovia.”

A atual malha ferroviária de 30 mil quilômetros é comparável à da Itália, de dimensões similares ao Maranhão. Na China, a rede ferroviária ultrapassa os 120 mil quilômetros.

“É evidente que a gente sempre vai ter um custo maior na hora de colocar a mercadoria no porto, ou, quando importa, para internalizar a mercadoria. Com isso, a gente tem uma perda de 20 a 30% no que importa e exporta. Vale para o agronegócio, para madeira, minério”, observa.

O problema mais grave, para Pomar, é o fato de os empresários brasileiros estarem se acomodando com essa situação, com muitos tratando de transferir o máximo possível da sua produção para a China:

Não são ações de improviso, são ações coordenadas pela CNI [Confederação Nacional da Indústria]. Esses caras vão a feiras na China para comprar, visitar empresas, acertar a produção, e essas viagens são promovidas pelo centro internacional de negócios da CNI. É um crime o que esses caras estão fazendo, desde 2004 pelo menos. É uma situação aberrante.

Para piorar, ressalta, os industriais brasileiros não têm plano de médio ou longo prazo para mudar esse cenário e estão viciados no rentismo:

Alguém já viu industrial ou comerciante protestar contra a taxa de juros? A burguesia industrial brasileira é muito mais rentista que empresarial. Essa é a questão. Enquanto tivermos um setor da economia predando os demais, a gente não vai para frente.

Pomar comenta um levantamento segundo o qual 254 das 500 maiores empresas brasileiras auferiram a maior parte dos seus lucros com operações financeiras, e não com a produção.

“Quando a gente vê um país em que as empresas deixam de ganhar dinheiro com a sua atividade-fim e passam a lucrar no cassino financeiro, aí nós estamos fritos. A questão não é a China, ou qualquer outro país. A questão é aqui. Não temos transporte ferroviário, nem fluvial, e nós temos um setor empresarial que ganha mais dinheiro com operações financeiras do que na sua atividade-fim. Se não resolver isso, não vamos concorrer com a China, e a desindustrialização vai continuar”, conclui.

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