Grécia quer New Deal, não "novo Versalhes"

Editorial do jornal Solidariedade Ibero-americana, 2ª quinzena de janeiro de 2014.

“No final das contas, todos estamos pedindo a mesma coisa: que o governo atue nos melhores interesses do seu povo.”

As palavras são de Mari Henrahos, uma espanhola de 67 anos, na manifestação convocada pelo Podemos, o mais novo partido do país, que levou mais de 100 mil pessoas às ruas de Madri, em 31 de janeiro, muitas das quais portando bandeiras gregas. E coube ao líder do partido, Pablo Iglesias, fazer a ilação que está tirando o sono dos “eurocratas de Bruxelas” e dos próceres da alta finança global: “Na Grécia, eles fizeram mais em seis dias do que muitos governos fizeram em muitos anos (The Guardian, 31/01/2015).”

A referência é ao Syriza, partido vencedor das recentes eleições gregas, que está sacudindo a rotina dos “negócios como sempre” na União Europeia (UE), ao contestar as políticas de austeridade financeira impostas ao país para assegurar os privilégios dos credores da dívida pública e a unanimidade exigida por Bruxelas nas sanções contra a Federação Russa. E, além de deixar em polvorosa o Establishment, está emitindo um alento à cidadania europeia oprimida pelas restrições adotadas desde a crise de 2008, que resultaram apenas em mais desigualdade, desindustrialização, desemprego e desesperança para a maioria.

Em sua campanha, o novo premier Alexis Tsipras não escondeu a intenção de atacar de frente o problema da impagável dívida grega, equivalente a 175% do PIB do país, pleiteando um abatimento de 50% dela, à maneira do que fez a Argentina na década passada, de modo a ajustá-la à capacidade de pagamento do país. Como afirmou, em entrevista à BBC (26/01/2015), o seu ministro da Fazenda, Yanis Varoufakis: “O que temos tido… é uma espécie de simulação de afogamento [waterboarding] fiscal que transformou a nação em uma colônia da dívida.”

Se Varoufakis tivesse dito que seu país foi submetido a condições não muito diferentes das impostas à Alemanha pelo desastroso Tratado de Versalhes, após a I Guerra Mundial, não estaria longe da verdade.

Ademais, Atenas já anunciou que não apoia incondicionalmente as sanções contra Moscou. Não por acaso, o presidente Vladimir Putin foi o primeiro a enviar uma carta pessoal a Tsipras, seguido pelo chinês Xi Jinping, deixando aberta a possibilidade de que, diante de um eventual “ostracismo” por parte da UE, seu governo poderá voltar-se para os gigantes do BRICS.

Não obstante, em uma carta ao povo alemão, publicada no diário financeiro Handelsblatt, antes das eleições, Tsipras apontou o seu rumo preferido para a Grécia e a Europa: “A nossa tarefa é promover um New Deal europeu, dentro do qual o nosso povo possa respirar, criar e viver com dignidade. Uma grande oportunidade para a Europa está para nascer na Grécia. Uma oportunidade que a Europa não pode se dar ao luxo de perder.”

Se recusar, a “Europa de Bruxelas” corre o risco de perder bem mais que a Grécia.

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