Glass-Steagall: repensando o (quase) impensável

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A aprovação da chamada Lei Glass-Steagall, em 1933, foi um dos pilares da estratégia do presidente Franklin D. Roosevelt (1933-1945) para reverter a Grande Depressão nos EUA, já no seu quarto ano. A lei estabeleceu vários princípios de regulamentação para o sistema financeiro estadunidense, refreando os processos especulativos que prevaleceram na década anterior e acabaram resultando na quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, à qual a depressão se seguiu. Entre eles, criou a Corporação Federal de Seguros de Depósitos (FDIC, na sigla em inglês), para proteger os depositantes, freou a cartelização do sistema bancário e – talvez, o seu item mais importante – separou as atividades dos bancos de depósito e de investimento, impedindo que o dinheiro dos clientes pudesse ser empregado em operações especulativas pelos banqueiros. Peça fundamental do New Deal de Roosevelt, a Glass-Steagall favoreceu os setores produtivos da economia e durou até 1999, quando foi revogada, no Governo Clinton (1993-2001), vítima do poderoso lobby pró-rentista gerou a tsunami da “globalização” financeira da década de 1990. Desde então, a sua simples menção tem sido recebida em Washington como se fosse o maior dos insultos, apesar de que a sua ressurreição em uma forma atualizada seria um item crucial para uma mais que necessária re-regulamentação do sistema financeiro, não apenas estadunidense, mas internacional.
Por isso, é interessante que o assunto tenha sido objeto da atenção de um profissional do calibre de Simon Johnson, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), atual professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e coeditor do blog especializado BaselineScenario.com. Em um artigo divulgado pelo Project Syndicate, publicado no Brasil pelo Valor Econômico de 3 de novembro (“Como ressuscitar a Glass-Steagall”), ele demole os argumentos dos rentistas e seus apoiadores contra uma nova lei semelhante à Glass-Steagal. Entre outros itens, diz que alguns dos maiores problemas da crise de 2008 ocorreram em bancos – como o Citigroup – “erigidos com base na premissa de que integrar as atividades de banco de investimento e de varejo traria estabilidade e melhores serviços”.
Trata-se de leitura altamente recomendável, em um momento em que, como costuma ocorrer em tais ocasiões, o aprofundamento da crise global abre oportunidades para se “pensar o impensável” – no caso, algo que vá contra a ideologia prevalecente entre os mantenedores do status quo.

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