Europa: ópera bufa em meio à tragédia épica

Os resultados das recentes eleições na Itália, somados aos incessantes protestos populares em vários países europeus, denotam a grande dificuldade de as elites políticas e econômicas da zona do euro defenderem o “projeto europeu” em sua forma presente, em que as políticas econômicas e financeiras dos governos do bloco ficam subordinadas aos ditames da alta finança globalizada e a população é convocada a pagar a conta dos prejuízos causados pelos excessos especulativos desta última. E uma avaliação superficial aponta uma tendência de alta para essa dificuldade.

Na Itália, as eleições de 24-25 de fevereiro produziram um quadro de incertezas quanto à viabilidade de formação de um governo com capacidade de sustentação política além de um prazo curto e imprevisível. Mas, acima de tudo, o eleitorado italiano emitiu um sonoro recado aos governantes, tanto do país como do bloco europeu: a rejeição maciça aos programas de austeridade financeira da “troika” União Europeia-Banco Central Europeu-Fundo Monetário Internacional, cujos resultados – esperados – têm sido a retração econômica, o desemprego maciço e o desalento social, em todos os países onde a receita tem sido aplicada.

A despeito das grandes diferenças nos discursos e plataformas políticas, os três partidos que lideraram a votação, com 84,1% dos votos, fizeram campanhas contrárias à austeridade. De forma bastante significativa de tal rejeição, a Escolha Cívica do ex-premier Mario Monti, o favorito dos mercados financeiros e dos “eurocratas” de Bruxelas, recebeu o apoio de pífios 10,5% do eleitorado.

O problema reside em que as diferenças da votação dos três partidos mais votados foram pequenas o suficiente para impedir que a formação do novo governo dependa de uma coalizão, que, pelas características dos próprios partidos, tende a ser marcada por grandes incertezas. O Partido Democrático (PD) de Pier Luigi Bersani (centro-esquerda) recebeu 29,5% dos votos; o Povo da Liberdade (PdL) do ex-premier Silvio Berlusconi ficou com 29,1%; e o Movimento Cinco Estrelas (M5S), do incendiário comediante Beppe Grillo, considerado a grande supresa do pleito, amealhou nada menos que 25,5% e será a primeira força na Câmara dos Deputados e a segunda no Senado.

Por suas divergências ideológicas, uma coalizão entre o PD e o PdL é bastante improvável e, por sua vez, Grillo, que lidera um grupo que muitos definem como um bando de amadores e anarquistas, sem sede física, experiência política e uma plataforma definida, já anunciou que o M5S não apoiará automaticamente qualquer governo.

Em uma cáustica análise publicada em 5 de março, o sítio franco-belga Dedefensa sintetizou o imbróglio: “Qual é o programa de Beppe Grillo? Quem sabe? ‘Bem-vindos à Itália, onde ninguém sabe o que vai acontecer’, diz Maria Laura Rodotá, do Corriere della Sera, no The Observer de 3 de março. E depois? Com Monti, todo mundo sabia ‘o que vai acontecer’: liquidação geral!”

A demonstração do abismo cada vez mais profundo que se cava entre a cidadania em geral e as lideranças europeias veio da enxurrada de críticas externas, principalmente, da Alemanha, rotulando a Itália como um país de indivíduos “infantilizados”, por terem preterido um eurocrata de alto coturno como Monti a “palhaços” como Berlusconi e Grillo.

O jornal Die Welt lamentou, em editorial: “Mais de metade dos italianos votou por alguma forma de populismo. Isto significa uma recusa quase infantil em admitir a realidade.”

O ex-ministro da Fazenda Peer Steinbruck, candidato do Partido Social-Democrata (SPD) à chancelaria nas eleições de setembro próximo, se disse “horrorizado pelo fato de que dois palhaços venceram as eleições” (Spiegel Online, 26/02/2013).

Mais direta, a agência de classificação de risco Moody’s divulgou uma declaração, afirmando que os resultados do pleito italiano “elevaram o risco de que o movimento de reformas estruturais obtido no governo de Mario Monti desacelere, se é que não será completamente paralisado”.

Como bem observou o colunista do sítio Foreign Policy in Focus, Conn Hallinan, em 28 de fevereiro:

O “caminho bem sucedido” e as “reformas” que o governo de Monti colocou em marcha elevaram a taxa de desemprego da Itália para 11% – 50% para os jovens -, fechou 100 mil pequenas empresas, o coração da economia italiana, e enviou um milhão de graduados universitários para fora do país. O crescimento está negativo em 0,9% e o país enfrenta a sua segunda recessão em quatro anos.

Tais números ganham relevância maior por ser a Itália a terceira economia da zona do euro, atrás apenas da Alemanha e da França, e o próprio FMI prevê que, em 2013, o PIB do bloco deverá ter uma retração de 0,2%.

Com tamanho desperdício de recursos humanos, principalmente entre os jovens, não admira que a Europa esteja fervilhando com os protestos contra as políticas de austeridade. Em Portugal, no sábado 2 de março, cerca de um milhão de pessoas – 10% da população do país – saíram às ruas de Lisboa e outras cidades, para vociferar contra a “troika”.

Em Lisboa, uma das faixas levadas pelos manifestantes exibia os simbólicos dizeres: “Que se lixe a troika! É o povo que mais ordena!” A primeira frase é autoexplicativa; a segunda remete a um dos grandes momentos da história portuguesa recente, a Revolução dos Cravos de 1974, que encerrou as quatro décadas do esclerosado e despótico regime salazarista. A frase é um trecho da letra da canção-símbolo do movimento, Grândola, vila morena, cuja divulgação pelo rádio foi a senha final para a deflagração do levante militar de 25 de abril. Sintomaticamente, a canção tem sido utilizada em protestos recentes, em Portugal e outros países. No último dia 15 de fevereiro, um grupo de manifestantes interrompeu a sessão quinzenal do primeiro-ministro Passos Coelho no Parlamento, entoando a canção, antes de serem retirados pela segurança da casa. Dois dias depois, em Madri, milhares de espanhóis enfurecidos cercaram o Parlamento e, além das palavras de ordem disparadas contra os seus políticos, também cantaram a canção, que também já foi ouvida em manifestações em Bruxelas e parece estar a caminho de se tornar um hino oficioso da revolta contra a “troika” (aos leitores que não a conheçam, sugerimos a interpretação da grande fadista lusa Amália Rodrigues, disponível no Youtube).

Tudo indica que a insatisfação da cidadania europeia com a tragédia que está sendo obrigada a encenar não será aplacada com facilidade. Talvez, se o descontentamento aumentar e gerar uma massa crítica, as lideranças do projeto europeu se vejam obrigadas a mudar o enredo da peça.

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