EUA: onde foram parar 21 trilhões de dólares?

O que se poderia dizer de um esquema de corrupção serial capaz de desviar mais de 1 trilhão de dólares por ano? Em termos brasileiros, seria como duas ordens de grandeza a mais que uma década do chamado “Petrolão”. No mínimo, que estaríamos diante do “pai de todos os escândalos” de corrupção do planeta. Pois, embora nem mesmo o mais imaginoso ficcionista ou roteirista de Hollywood tenha escrito um argumento como esse, ele é real, apesar de a a grande mídia não ter-lhe dado a divulgação devida, deixando a tarefa de investigar o assunto a um punhado de investigadores independentes.

A história é direta: entre 1998 e 2015, dois órgãos do governo dos EUA, o Departamento de Defesa (Pentágono) e o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD, na sigla em inglês), registraram irregularidades contábeis que somam nada menos que 21 trilhões de dólares. O número estarrecedor corresponde a uma média de 1,235 bilhão de dólares por ano, muito superior aos próprios orçamentos oficiais combinados das duas repartições (para comparação, o PIB dos EUA em 2017 atingiu 19,3 trilhões de dólares).

A trama bizarra tem sido investigada, entre outros, por Catherine Austin-Fitts, ex-secretária assistente no HUD no Governo Bush pai (1989-1993) e diretora do sítio de assuntos financeiros e estratégicos Solari.com, e o economista Dr. Mark Skidmore, professor da Universidade Estadual de Michigan, que têm se empenhado em dar-lhe publicidade, com sucesso até agora limitado.

Um artigo do Dr. Terrence Leveck, publicado no sítio Solari.com, oferece um panorama geral da situação:

Em 10 de setembro de 2001, o então secretário de Defesa Donald Rumsfeld disse que, no orçamento do DOD [Departamento de Defesa] de 1999, “de acordo com algumas estimativas, não podemos rastrear 2,3 trilhões de dólares em transações”. No dia seguinte, os EUA experimentaram os ataques terroristas que mudaram o nosso mundo para sempre, e essa revelação impressionante foi esquecida, até recentemente.

Quando em uma conta ocorre uma discrepância que não pode ser rastreada, é comum que se faça o que é chamado um ajuste indocomentado ou pré-lançamento contábil [journal voucher, no original]. Isto é semelhante ao que se faz quando faltam dez dólares quando se confere o livro contábil, somando ou subtraindo esta soma para ajustar tudo com o banco. Em 1999, o montante ajustado pelo Pentágono representava oito vezes o orçamento do DOD daquele ano, um terço maior que o orçamento federal total.

Em 2015, o montante relatado pelo Escritório do Inspetor-Geral (OIG) havia aumentado para 6,5 trilhões de dólares, apenas para o Exército. O Dr. Mark Skidmore, professor de Economia na Universidade Estadual de Michigan, pensava que isso não fazia sentido e suspeitava de um erro da imprensa. Investigando o assunto e usando os dados publicados nos próprios sítios do governo, ele descobriu que 21 trilhões de dólares em ajustes indocumentados haviam sido relatados pelo DOD e o HUD, no período 1998-2015. Isto significa 65 mil dólares para cada pessoa nos EUA (Terrence Leveck, “The Federal Government Can’t Account for $21 Trillion. Does Anybody Care?”, 17/02/2018).

Dos 21 trilhões, Skidmore descobriu que 11,5 trilhões se referiam apenas ao Exército, em geral, no lado dos gastos. No relatório de 2015 do OIG, ele encontrou uma única transferência do Departamento do Tesouro para o Exército, no valor de 800 bilhões de dólares, quando o orçamento oficial do Exército para aquele ano foi de 122 bilhões. Quanto aos 688 bilhões adicionais, eles não foram alocados pelas comissões específicas do Congresso e o Exército, simplesmente, não sabe dizer onde foram gastos.

Em contatos com o OIG, Skidmore não conseguiu falar com nenhum dos autores do relatório. Dirigindo-se ao Escritório Orçamentário do Congresso (CBO) e ao Escritório Geral de Contabilidade (GAO), ele foi informado de que se houvesse de fato um problema com o orçamento, haveria audiências no Congresso, mas até agora não houve nenhum sinal disto.

Em síntese, apenas em 2015, o Exército dos EUA recebeu 688 bilhões de dólares sem saber dizer de onde veio o dinheiro e onde foi gasto.

Pouco depois, Skidmore descobriu que os links para a documentação relevante haviam sido desabilitados, mas ele tinha feito cópias e disponibilizou os documentos no Solari.com (“DOD and HUD Missing Money: Supporting Documentation”).

Em uma entrevista ao jornalista Greg Hunter, do sítio USAWatchdog, citada no artigo, o economista afirmou que se trata de uma fraude de proporções colossais:

Skidmore – Como isso pode acontecer e o que isso significa? Se bilhões de dólares estão entrando e saindo, parece que está fora da nossa Constituição e fora do mando da lei. Por exemplo, eu sei que algumas dessas atividades, apenas em favor da proteção das pessoas envolvidas e, é claro, da segurança nacional, têm que ser, de certa maneira, um orçamento negro [paralelo e secreto]. Sempre há coisas assim, mas em geral são gastos autorizados e uma certa percentagem deles é orçamento negro, e apenas muito poucas pessoas na arena de segurança ou dentro do Congresso têm conhecimento. Mas isso vai muito além daquilo. Estou assustado.

Greg Hunter – O senhor diria que isso ameaça a democracia dos EUA?

Skidmore – Sim, eu acho que se isso está fora do mando da lei e a lei diz que precisamos ter uma contabilidade financeira adequada e que todos os gastos precisam ser autorizados pelo Congresso, me parece que há alguma coisa acontecendo, e isto é perturbador.

Leveck adianta cinco explicações possíveis para tal aberração:

1) O dinheiro desaparecido foi gasto de forma adequada, mas a infraestrutura contábil existente é incapaz de alocá-lo.

2) O dinheiro foi “desperdiçado”, isto é, gasto de forma irresponsável.

3) O dinheiro foi direcionado a projetos negros [black projects] e Programas de Acesso Especial, em quantidades maciças, por fora do processo constitucional de alocações e, por conseginte, sem o conhecimento do Congresso e da cidadania, para propósitos desconhecidos.

4) O dinheiro foi usado para manipular mercados, para manter o status de moeda de reserva do dólar.

5) O dinheiro está sendo roubado por meio de fraudes e conluios, entre o governo e interesses privados.

Ou, talvez, uma combinação de tudo isso.

De nossa parte, ficamos com esta última opção.

Seja como for, o fato inescapável é que se os EUA podem fraudar a sua contabilidade orçamentária em tais proporções quase inimagináveis, para as finalidades ocultas na agenda hegemônica das suas elites dirigentes, isto reforça a noção de que todo o sistema financeiro que tem em Wall Street um dos seus polos representa uma gigantesca fraude. Fraude em nome da qual os demais países – Brasil inclusive – não deveriam continuar a sacrificar as aspirações de bem-estar e progresso das suas populações.

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