Crescem as alternativas ao dólar

A frente econômica e monetária internacional é muito mais ativa do que se pensa ou se admite. Pouca atenção foi dada à declaração de do presidente Vladimir Putin quando, durante conversas em Moscou com seu colega chinês Xi Jinping, afirmou que “a Rússia é a favor do uso do yuan em acordos com os países da Ásia, África e América Latina”. Putin observou que dois terços das transações entre a Rússia e a China já são realizadas em rublos e yuans. Agora, Moscou está empenhada em usar a moeda chinesa também em pagamentos com outras nações. Claramente, é um incentivo para muitos outros países substituírem o dólar em suas transações financeiras e comerciais.

O impacto internacional dessas opções monetárias também não pode ser subestimado, porque os temores gerados pelas recentes turbulências bancárias nos EUA estão tornando menos atraentes os ativos baseados em dólar. Claro, ele continua mantendo a sua centralidade em relação às moedas dos chamados países avançados e dos mercados emergentes, sendo ainda utilizado em 41% do comércio global. Mas o mundo percebe que uma mudança tectônica está em curso.

Até mesmo Jim O’Neill, ex-economista-chefe do Goldman Sachs, argumenta que “o dólar desempenha um papel bastante dominante nas finanças globais” e convida os mercados emergentes a reduzirem os seus riscos a esse respeito.

Como já foi amplamente relatado, a propensão da Arábia Saudita a usar a moeda chinesa em pagamentos pelas suas exportações de petróleo para a China gerou um desconforto considerável. Há também novos acordos entre a China e o Brasil para a utilização do yuan e do real nas suas transações bilaterais, especialmente, nas áreas de mineração, alimentos e tecnologia. Em um recente seminário organizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), ficou acertada a adesão do sino-brasileiro Banco BOCOM BBM ao CIPS (Sistema Interbancário de Pagamentos da China), a alternativa chinesa ao SWIFT, o sistema internacional mais utilizado para transferências de dinheiro (o BOCOM BBM foi criado em 2016, a partir da fusão do Bank of Communications chinês com o BBM brasileiro). Além disso, a filial brasileira do Banco Industrial e Comercial da China se tornaria o centro de compensação de yuans. Vale observar que o comércio entre os dois países já ultrapassou a marca anual de 170 bilhões de dólares.

Os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais da ASEAN, associação que reúne dez nações do Sudeste Asiático, reunidos em Bali, Indonésia, propuseram o uso de moedas locais em seu comércio e a redução da dependência das principais moedas. O presidente indonésio Joko Widodo defendeu a necessidade de se protegerem de “possíveis repercussões geopolíticas”. Finalmente, o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, após a sua recente visita à China, está impulsionando a criação de um Fundo Monetário Asiático, para reduzir a dependência do dólar e aumentar o uso das moedas nacionais no comércio regional.

A Índia é um caso à parte, pois o país considera-se grande demais para aderir às iniciativas de outros, principalmente, da China. Já há algum tempo, há discussões na liderança indiana sobre como transformar a rúpia em moeda internacional para o seu comércio e o de outros países interessados.

Mais surpreendente é o acordo em yuans assinado entre a petrolífera chinesa China National Offshore Oil Company e a francesa TotalEnergies, referente a 65 mil toneladas de gás natural liquefeito (GNL) importadas dos Emirados Árabes Unidos. A operação é gerida através da Bolsa de Petróleo e Gás Natural de Xangai, também criada para facilitar os pagamentos em yuans. Será interessante conhecer com mais detalhes os acordos econômicos firmados pelo presidente francês Emmanuel Macron durante a sua recente visita a Pequim.

Igualmente, vale lembrar que, apesar da oposição dos EUA, o chanceler alemão Olaf Scholz liderou uma grande delegação de industriais a Pequim, há alguns meses, da qual muito pouco foi divulgado sobre os acordos assinados. Quem sabe como as faturas comerciais serão pagas, em euros, yuans, dólares ou uma combinação delas? A Alemanha é o primeiro parceiro comercial europeu da China, com um volume de comércio bilateral de cerca de 300 bilhões de euros.

Todas essas são iniciativas estritamente nacionais, mas bastante interessantes. O que não está clara é a atitude da União Europeia, que não tem uma política própria de interesse europeu em demasiadas questões estratégicas importantes.

x

Check Also

O caso do First Republic Bank

O First Republic Bank (FRB) de San Francisco, o décimo-quarto maior banco dos Estados Unidos, ...