EUA: racha expõe “governo mundial”

A censura coletiva imposta pelas empresas controladoras das grandes redes sociais estadunidenses ao presidente Donald Trump e numerosos dos seus seguidores, na sequência dos episódios de 6 de janeiro, expôs às claras as motivações, o modus operandi e o ânimo da cúpula do Establishment oligárquico que domina o país, pilar central da hierarquia de poder que temos qualificado como “governo mundial” – termo que tem ganho mais adeptos, como veremos em seguida.

Nos dias seguintes à invasão do Capitólio, o país e o mundo foram surpreendidos pela atuação coordenada das empresas – Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e Twitch -, bloqueando unilateralmente as contas de Trump e de um grande número de seus seguidores, ato de censura prévia explícita que poderá ter sérios desdobramentos, quanto ao controle da opinião pública por aquelas empresas. Apenas no Twitter, Trump tinha 88 milhões de seguidores.

A disposição de censurar o presidente já havia sido demonstrada de forma contundente em novembro, dias após a eleição que entregou a Casa Branca a Joe Biden e Kamala Harris, quando as principais redes de televisão estadunidenses – MSNBC, NBC, CNBC, CBS e ABC – interromperam simultaneamente a transmissão de uma entrevista coletiva de Trump, acusando-o de estar mentindo.

Agora, na posição de vítima, o próprio Trump já se posicionou como algoz em relação à mídia digital, quando foi conveniente à sua agenda, como ocorreu em agosto último, quando determinou restrições ao uso das plataformas chinesas TikTok e WeChat nos EUA (sem falar na sua furiosa investida contra a megaempresa Huawei, para favorecer empresas estadunidenses e de países influenciados pelos EUA na disputa pela tecnologia 5G).

Não obstante, a atitude das empresas foi recebida com apreensão até mesmo por mandatários estrangeiros que não tinham relações das mais amigáveis com Trump.

Refletindo as reservas de vários dos seus colegas europeus, a chanceler alemã Angela Merkel afirmou que o poder de colocar eventuais restrições à livre expressão deveria ser restrito aos legisladores, não a empresas privadas. “O direito à liberdade de opinião é de importância fundamental. Em função disto, a chanceler considera problemático que as contas do presidente tenham sido suspensas permanentemente”, disse o porta-voz Steffen Seibert (Reuters, 11/01/2021).

Já o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, foi à jugular da questão, investindo diretamente contra a estrutura de “governo mundial”. Em suas palavras: “Isso que fizeram nos EUA é um mau sinal, um mau presságio, de que empresas privadas decidem silenciar, censurar… Não vá se estar criando um governo mundial com o poder de controle das redes sociais, um poder midiático mundial, ademais, um tribunal de censura como a Santa Inquisição, mas para a manipulação da opinião pública, isto é gravíssimo. Foi um antes e um depois, o que ocorreu há dias nas redes sociais (Página Central, 08/01/2021).”

Dias depois, López Obrador anunciou que irá propor a discussão do tema no âmbito do G-20. Para tanto, o chanceler Marcelo Ebrard explicou que o México já está em contato com países da União Europeia (UE), América Latina e Sudeste Asiático, para discutir e apresentar uma proposta conjunta que evite a formação de um “governo supranacional” controlado por empresas privadas (RT, 14/01/2021).

Essas atitudes radicais refletem os temores crescentes daquela estrutura de poder quanto à cada vez mais evidente incapacidade de preservação da sua hegemonia global, não apenas devido ao inexorável fortalecimento do eixo geoestratégico-geoeconômico eurasiático, fomentado pela dupla China-Rússia, mas, não menos, pelo aprofundamento do divórcio entre a estrutura político-institucional dos EUA e as aspirações e necessidades da sociedade em geral. Um problema crucial é o aumento sistemático da desigualdade socioeconômica, agravado pelas consequências da pandemia de Covid-19 (uma pesquisa divulgada em dezembro pela revista Forbes revela que 48% dos pequenos negócios correm o risco de fechar definitivamente). Para ele, a agenda oligárquica não prevê qualquer proposta, exceto a de manter os “negócios como sempre”.

Com todas as suas idiossincrasias e seu estilo de cowboy hollywoodiano, Trump tem sido o catalisador do descontentamento de uma vasta parcela da sociedade estadunidense, como se viu nas duas últimas eleições presidenciais. Em grande medida, o seu apelo se deveu à sua oposição aberta ao processo de globalização financeira e desindustrialização, às guerras intermináveis da “Nova Ordem Mundial” pós-1990, à agenda identitária e às políticas malthusianas, com ênfase na promoção do aborto por instituições como a Fundação Internacional de Paternidade Planejada (IPPF) e agências das Nações Unidas, das quais retirou os fundos públicos que lhes eram destinados – sem deixar de mencionar os apelos a valores transcendentes caros à maioria dos estadunidenses.

É evidente que um segundo mandato seu poderia converter-se num grande obstáculo à agenda malthusiana, ambientalista e econômica do projeto de capitalismo pseudoinclusivo do “Great Reset”. A despeito da tentativa de acomodar-se aos desígnios hegemônicos do Establishment, como se viu no assassinato do líder militar iraniano Qassem Soleimani, há um ano, Trump não foi aceito pela cúpula de poder, ao contrário dos seus adversários de 2016 e 2020, Hillary Clinton e Joe Biden, veteranos operativos daquela casta. Por isso, precisa ser escorraçado do poder de forma humilhante, a despeito do risco de que o descontentamento de uma grande parcela dos seus eleitores frustrados continue gerando turbulências nos próximos meses, evidenciando um racha profundo na população estadunidense.

Por sua vez, Biden e Harris sinalizam, precisamente, com a pauta dos senhores do poder real: na área econômica, o “Grande Reset” do Fórum Econômico Mundial, secundado pela agenda da “sustentabilidade” e da “descarbonização” da economia e, na social, a agenda identitária “politicamente correta” (quesitos nos quais o Brasil precisará precaver-se). Isto, sem prejuízo da agenda permanente de intervenções e provocações belicistas externas, controlada diretamente pelo “complexo de segurança nacional” (haja vista a convocação por Biden de vários veteranos do governo de Barack Obama para o setor).

Afortunadamente, uma grande parte do planeta se mostra cansada de tantas turbulências e se engaja cada vez mais na agenda da integração eurasiática, iniciativa que poderá receber um importante reforço indireto pela oposição dentro do G-20 às tentativas do “governo mundial” de estabelecer um domínio sobre a opinião e os critérios de verdade via redes sociais. Em síntese, é preciso aproveitar essa oportunidade imperdível de se deixar para trás a mentalidade binária remanescente da Guerra Fria e tratar de consolidar um mundo cooperativo baseado no respeito pleno às soberanias dos Estados nacionais. ­­­

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