Davos – tateando no escuro?

Anno Hellenbroich, de Wiesbaden

A edição deste ano do Fórum Econômico Mundial, mais conhecido como Fórum de Davos, proporcionou uma boa leitura do estado mental das elites internacionais que se reúnem anualmente no resort suíço para discutir as tendências mundiais. O tema algo grandioso deste ano foi: “A Quarta Revolução Industrial: o que significa e como responder a ela”. Porém, em contraste com os anos anteriores, houve muito menos participantes nos diferentes paineis de discussões. O que mais chamou a atenção foi a autoconcepção manifestada por aqueles pretensos semideuses olímpicos, que costumam fingir “saber” as respostas para tudo, mas exibiram apenas o seu wishful thinking e mostraram estar tateando no escuro, em relação aos grandes problemas globais.

Um exemplo foi uma discussão do secretário de Defesa dos EUA, Ashley Carter, com o presidente do Fórum, Klaus Schwab, na qual o secretário, essencialmente, convocou os presentes a seguir e apoiar os EUA e se unir ao papel modelar do país no mundo. Com isto, Carter demonstrou que o seu mapa mental parece ser similar ao do príncipe e chanceler austríaco Metternich, mentor da organização do Congresso de Viena de 1814-15, para articular um “equilíbrio de poderes” na Europa, após a derrota de Napoleão Bonaparte.

Em realidade, muitos desses “olímpicos”, na política, negócios e academia, estão tateando no escuro, sem qualquer noção do que poderá acontecer nos próximos meses, nem na economia global, onde grandes choques financeiros não podem ser descartados, nem sobre a crise dos refugiados na Europa ou os conflitos no Oriente Médio. Embora a crise dos refugiados tenha sido um tema importante do Fórum, ficou claro que o seu manejo poderá fraturar o bloco europeu, uma vez que a Alemanha está isolada em suas posições sobre a crise, desprovida de qualquer solidariedade continental.

Em um painel intitulado “O futuro da Europa”, que contou com a participação dos primeiros-ministros francês, Manuel Valls, o grego Alexis Tsipras e o holandês Mark Rutte, a líder empresarial italiana Emma Marcegaglia e o ministro da Fazenda alemão Wolfgang Schäuble, este último exigiu, como condição essencial para se lidar com a crise da imigração, a implementação de um “Plano Marshall” para investimentos na casa dos bilhões de dólares, nos países de origem dos refugiados, no Oriente Médio e Norte da África.

Outro ponto fora da curva ocorreu no painel “Panorama para a Rússia”, cujos debatedores foram o ex-ministro da Fazenda russo Alexei Kudrin, o vice-premier Yuri Trutnev e o diplomata alemão Wolfgang Ischinger, presidente da Conferência de Segurança de Munique. No evento, Trutnev anunciou que, a despeito da crise econômica, a Rússia está tocando um grande programa de investimentos no Extremo Oriente do país, e que mais de 30 países participarão, este ano, de uma conferência em Vladivostok, para discutir o programa.

Não obstante, vale registrar que os pesos pesados da política russa estiveram ausentes do Fórum, tendo a presidente do Banco Central, Elvira Nabiullina, sido obrigada a cancelar a sua participação, devido às dramáticas turbulências verificadas nos mercados do rublo, devido ao declínio dos preços do petróleo.

No citado painel, Ischinger afirmou que os últimos quatro anos foram, essencialmente, “anos perdidos”, e sublinhou os seus comentários com a observação de que existem duas “narrativas” completamente diferentes, na Rússia e no Ocidente, sobre as causas do problema. Sem se aprofundar, ele deixou implícito aos presentes que, agora, é preciso que haja uma abordagem diferente.

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