"É assim que uma líder se parece": a empolgação do Establishment com Marina Silva

“Esperança e lideranças fortes estão em falta, nos tempos atuais. Mas se você quiser ver uma amostra de ambas, bem como dar uma olhada em uma história que repercute em todo o mundo, veja este vídeo. (Está em português. Abaixo há uma tradução ao inglês, preparada pela [revista] The Economist.)

“O vídeo é um filmete de propaganda de dois minutos de Marina Silva, uma mulher que se ergueu da pobreza esmagadora, trabalhando como doméstica para ganhar a vida, para se tornar a atual líder na eleição presidencial do Brasil. É um trecho de um discurso de Silva, em que ela se refere à atual líder do país, Dilma Rousseff, respondendo à afirmativa de Rousseff de que Silva acabaria com o Bolsa Família, um programa social criado para ajudar os brasileiros mais pobres e bastante popular no maior país da América Latina.”

Com os dois parágrafos acima, o editor da revista estadunidense Foreign Policy, David J. Rothkopf, inicia o seu entusiástico perfil de Marina Silva, publicado no sítio da revista, no último dia 19 de setembro, com o pomposo título: “É assim que uma líder se parece: por que a mensagem de Marina Silva repercute da Amazônia ao Oriente Médio e à Casa Branca.” Trata-se de uma das mais empolgadas manifestações do apoio do Establishment oligárquico anglo-americano à candidata do PSB à Presidência da República, como se percebe nos artigos entusiasmados com os quais ela tem sido premiada, em publicações do Establishment, como a própria revista de Rothkopf, The EconomistFinancial Times e outras.

Em sua empolgação, Rothkopf traça aos seus leitores um perfil de Marina, exaltando a sua trajetória de superação pessoal (reconhecidamente meritória, diga-se de passagem) e destacando a sua passagem pelo Senado, em termos que denotam a sua relevância para a agenda do oligárquica:

(…) Ela continuou o seu ativismo no cargo e lutou pela aprovação de leis e regulamentações que reverteram a tendência de destruição das florestas brasileiras, que são tão vitais para o meio ambiente global, a ponto de serem chamadas “os pulmões do planeta”, porque produzem um quinto do oxigênio do mundo.

Aparentemente, Rothkopf ignora ou finge ignorar que este é um dos mitos recorrentes, pelo menos, sobre a Floresta Amazônica, que é uma formação em estado de “clímax”, ou seja, biologicamente amadurecida, que à noite consome o oxigênio que produz durante o dia (sem falar no fato de que pulmões não produzem oxigênio, mas o consomem, transformando-o em dióxido de carbono).

Comentando a sua ascensão na disputa presidencial, após a morte de Eduardo Campos, a empolgação de Rothkopf decola:

Muita coisa pode mudar e, certamente, em parte, a ascensão de Silva foi alimentada pelo choque e a simpatia que se seguiram à morte de Campos. Mas, como tanto o discurso no início como a sua impressionante carreira demonstram, ela foi elevada por mais que apenas um capricho do destino. Esta é uma mulher extraordinariamente formidável [extraordinarily formidable, no original – n.e.], cuja ascensão oferece lições e repercussões que deveriam tocar muita gente, bem além das fronteiras do Brasil.

E, adiante, ele volta ao tema da importância de uma eventual Presidência Marina para a agenda dos seus pares oligárquicos:

Silva – que tem ancestrais indígenas, afro-brasileiros (sic) e portugueses, mas se descreve como negra – seria a primeira tal presidente em um país que, ao mesmo tempo em que se orgulha da sua enorme diversidade racial, ainda luta para ver este orgulho produzir resultados verdadeiramente representativos, nos níveis políticos mais elevados. Da mesma forma, certamente, ela representaria uma extraordinária ascensão na escadaria socioeconômica do país. E, ademais, o jornal The Guardian indicou que, em um planeta que está lutando para enfrentar uma maciça crise climática, Silva se tornaria a primeira presidente “verde” do mundo. Isto é especialmente importante, dadas a centralidade e a liderança do Brasil nos assuntos ambientais.

Rothkopf não é um jornalista qualquer. E a revista que edita também não é uma publicação qualquer. Fundada em 1970, teve entre os seus fundadores o célebre Samuel Huntington, um dos principais ideólogos do Establishment anglo-americano até a sua morte, em 2008, notório pelo conceito do “choque de civilizações”, que substituiu a Guerra Fria no ideário oligárquico, como pretexto padrão para a preservação da hegemonia militar encabeçada pelos EUA. Posteriormente, foi comprada pela Fundação Carnegie para a Paz Internacional, uma das principais fundações da elite “sangue azul” estadunidense, e, em 2008, pela Graham Holdings Company, controladora, entre outros, do jornal Washington Post, que dispensa apresentações.

Em tempo: a sugestão de que Marina seria a primeira presidente negra do Brasil só se justificaria no contexto estrito dos critérios politicamente corretos prevalecentes no País, que permitem considerar como negras quaisquer pessoas cuja tonalidade de pele não seja branca. Ainda assim, ela seria apenas a primeira mulher negra a assumir a Presidência, já que a primazia masculina caberia ao mulato Nilo Peçanha (que hoje pode ser considerado negro), ocupante do cargo entre junho de 1909 e novembro de 1910, depois do falecimento de Afonso Pena (1906-1909), de quem era vice.

De qualquer maneira, como se percebe, a antiga seringueira que se converteu em uma líder “extraordinariamente formidável” goza de altíssimas simpatias entre aqueles altíssimos círculos de poder em Washington e Londres.

One comment

  1. A Marina se transformou na candidata preferida dos estadunidenses e seus aliados. Imaginem o que ela dará em troca. Lembrem-se o que Henry Kinssinger falou: Nós americanos não temos amigos, apenas interesses.
    Votar com a Marina é concordar e ser cúmplice em uma nova sequência de crimes lesa-pátria como ocorreu nas gestões do FHC. Trata-se de mais um ataque a nossa soberania usando como estratagema toda e qualquer forma de atingir os que lutam belo bem-comum do povo brasileiro. Pela defesa da soberania do Brasil: Fora Marina e seus apoiadores ianques.

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