Desigualdades e desemprego em alta evidenciam limites da financeirização da economia (e prenunciam insurreições sociais)

No momento em que uma considerável fração das elites econômicas e financeiras globais se reúne em Davos, nos Alpes suíços, para o tradicional convescote anual do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), uma pletora de evidências deixa manifestas a disfuncionalidade da financeirização da economia prevalecente nas últimas décadas e o consequente aumento das desigualdades socioeconômicas em todo o mundo, cada vez mais percebido como uma ameaça à estabilidade mundial.

O próprio WEF, no relatório “Panorama da Agenda Global 2014” (Outlook on the Global Agenda 2014), divulgado em novembro último, lista o aumento das disparidades de renda e a persistência do desemprego estrutural entre as três principais tendências para 2014, atrás apenas do aumento das tensões societárias no Oriente Médio e no Norte da África. Diz o texto:

O aumento das disparidades de renda afeta todos os aspectos das nossas vidas. Ele está impactando a estabilidade social dentro dos países e ameaça a segurança em escala global; e, olhando para 2014, é essencial que elaboremos soluções inovadoras para as causas e consequências de um mundo que se torna cada vez mais desigual.

Às vésperas do evento, o papa Francisco dirigiu uma vigorosa mensagem aos participantes do Fórum, instando-os a não se limitar à retórica e pedindo “decisões, mecanismos e processos dirigidos a uma melhor distribuição de riquezas”. “Eu gostaria de enfatizar a importância dos vários setores políticos e econômicos para a promoção de um enfoque inclusivo, que leve em consideração a dignidade de cada ser humano e o bem comum. Eu me refiro a uma preocupação que deveria orientar cada decisão política e econômica, mas que, às vezes, parece ser apenas uma distração”, disse o Pontífice (Zenit, 20/01/2014).

No mesmo dia, a ONG Oxfam International divulgou o estudo “Trabalhando para os poucos: captura política e desigualdade econômica”, um contundente retrato da crescente desigualdade global, no qual, além de expor alguns dos estarrecedores números do fenômeno, o atribui categoricamente à manipulação dos processos políticos por uma reduzida elite de indivíduos, em detrimento dos interesses da grande maioria das sociedades.

O dado mais chocante foi a revelação de que as 85 pessoas mais ricas do mundo detêm uma riqueza equivalente à renda da metade mais pobre de toda a população mundial. “É assombroso que, em pleno século XXI, uma pequena elite que poderia caber em um único vagão de trem possua tanta riqueza como a metade da população mais pobre do planeta”, disse a presidente-executiva da Oxfam, Winnie Byanyima, que está em Davos para transmitir pessoalmente o seu recado (Oxfam, 20/01/2014).

Segundo o estudo:

A Oxfam se preocupa com o fato de que, se não forem enfrentados, os efeitos são potencialmente imutáveis e levarão a uma “captura de oportunidades”, em que os impostos mais baixos, a melhor educação e os melhores sistemas de saúde serão apropriados pelos filhos dos ricos. Isto cria uma dinâmica e ciclos de vantagens que se reforçam mutuamente e são transmitidos através de gerações. Dada a escala das crescentes concentrações de riquezas, a captura de oportunidades e a representação política desigual representam uma tendência séria e preocupante. Por exemplo:

– quase a metade da riqueza mundial está agora nas mãos de apenas 1% da população;

– a riqueza do 1% mais rico da população mundial atinge 110 trilhões de dólares. Isto é 65 vezes a riqueza total da metade inferior da população do mundo;

– a metade inferior da população possui o mesmo que as 85 pessoas mais ricas do mundo;

– sete de cada dez pessoas vivem em países em que a desigualdade econômica aumentou nos últimos 30 anos;

– o 1% mais rico da população aumentou a sua fatia na renda, em 24 dos 26 países para os quais existem dados para o período entre 1980 e 2012;

– nos EUA, o 1% mais rico capturou 95% do crescimento posterior à crise financeira, desde 2009, enquanto os 90% inferiores ficaram mais pobres;

Essa maciça concentração de recursos econômicos nas mãos de cada vez menos pessoas representa uma ameaça significativa aos sistemas políticos e econômicos inclusivos. Em vez de se moverem juntas, as pessoas são crescentemente separadas pelo poder econômico e político, o que, inevitavelmente, eleva as tensões sociais e aumenta o risco de uma derrocada societária.

O estudo comenta que a percepção de que a formulação de políticas é orientada para favorecer os interesses dos mais ricos é crescente, segundo uma pesquisa efetuada em vários países, Brasil inclusive.

O fenômeno não é inevitável, nem “natural”, afirma o documento da Oxfam:

Essa tendência perigosa pode ser revertida. A boa notícia é que existem exemplos claros de sucesso, tanto históricos como atuais. Nas três décadas posteriores à II Guerra Mundial, os EUA e a Europa reduziram a desigualdade enquanto se tornavam mais prósperos. A América Latina tem reduzido significativamente a desigualdade, na última década – por meio de impostos progressivos, serviços públicos, proteção social e trabalho decente. Um aspecto central para este processo têm sido políticas que representam a maioria, em vez de ser capturadas por uma pequena minoria. Isto tem beneficiado a todos, tanto ricos como pobres.

À Oxfam, se juntou a Organização Internacional do Trabalho (OIT), com o relatório “Tendências de Emprego Globais 2014: o risco de uma recuperação sem empregos” (Global Employment Trends 2014: The risk of a jobless recovery), cujos dados não são menos impactantes. De acordo com a agência, o número de desempregados aumentou em 2013, atingindo cerca de 202 milhões em todo o mundo, um acréscimo de 5 milhões em relação a 2012. A maior parte do aumento, 45%, foi registrada na Ásia Oriental e Meridional, seguidas pela África Subsaariana e a Europa. A contribuição da América Latina foi relativamente pequena, de apenas 1% do total. Não obstante, o relatório diz que a tendência atual é de alta e, se não for revertida, deverá atingir 215 milhões, até 2018.

Os jovens continuam sendo os mais afetados pela “recuperação débil e desigual”, afirma o documento. Em 2013, cerca de 74,5 milhões de jovens entre 15 e 24 anos de idade estavam desempregados, quase um milhão a mais que no ano anterior. Entre eles, as taxas de desemprego são, em média, três vezes superiores às dos adultos, relação que atingiu um máximo histórico. Os níveis de desemprego jovem são particularmente elevados no Oriente Médio e Norte da África, assim como em alguns países da América Latina, Caribe e Europa Meridional.

Um fator especialmente preocupante é o forte aumento da proporção de jovens que não trabalham, não estudam e não estão recebendo qualquer formação profissional – a chamada “geração nem-nem”. Em alguns países, calcula-se que um quarto dos jovens entre 15 e 29 anos de idade se encontram em tal situação.

Ao apontar as causas do problema, os autores do relatório dão uma no cravo e outra na ferradura:

As políticas monetárias continuam sendo flexíveis, proporcionando um impulso benéfico [sic] à demanda global… Não obstante, as tendências recentes indicam que se está produzindo um movimento de uma parte cada vez maior da liquidez criada por tais políticas monetárias rumo aos mercados de ativos, em vez de para a economia real. Esta situação pode provocar bolhas nos preços dos ativos e dos bens imóveis, freando potencialmente o crescimento do emprego a longo prazo.

Por tudo isso, não é casual que a confiança nas lideranças eleitas também seja uma tendência mundial. Uma pesquisa efetuada pela organização estadunidense Edelman Trust Barometer, em 27 países, revelou que apenas 44% de 27 mil entrevistados com nível universitário afirmou confiar nos governos, contra 52%, em 2011. Ao mesmo tempo, 58% dos entrevistados disse confiar nos empresários, 2% a mais que em 2011. Porém, o diretor da entidade, Richard Edelman, adverte: “Os empresários podem interpretar isso como sendo o momento para promover a desregulamentação, como fizeram há uma década. Este seria um monumental erro de julgamento. A nossa pesquisa indica uma ressaca na reputação dos negócios, desde a Grande Recessão de 2008.”

Desafortunadamente, o grande obstáculo para a superação desse cenário continua sendo a escassa disposição das elites políticas e econômicas para contestar o status quo, com medidas efetivas que deveriam começar pela re-regulamentação em regra do sistema financeiro mundial, de modo a recolocá-lo a serviço da economia real, e não o oposto, como se verifica hoje. Em cúpula após cúpula, a exemplo do G-20, diagnósticos precisos são produzidos, mas com escassos resultados práticos. Possivelmente, como temos ressaltado nesta Resenha, será preciso esperar que a crise atinja um paroxismo que leve o sistema financeiro a uma implosão, acompanhado por um bastante provável acirramento das manifestações populares motivadas pela crescente insatisfação com as desigualdades socioeconômicas, como já vêm ocorrendo em diversos países.

Na década de 1930, Franklin Roosevelt aproveitou a oportunidade proporcionada pela Grande Depressão para lançar as bases da transformação dos EUA na locomotiva produtiva e econômica do planeta, alavancada pela II Guerra Mundial. A base do seu New Deal foi proporcionada pelo controle das finanças e a sua recolocação ao serviço da economia real – exatamente, o desafio que se apresenta hoje às lideranças mundiais.

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