Campeões do neoliberalismo promovem investimentos públicos em infraestrutura

No Reino Unido e nos EUA, berços do neoliberalismo e grandes paladinos retóricos do afastamento do Estado das economias, os investimentos públicos em infraestrutura voltam à baila, como respostas ao débil desempenho das duas economias, em especial, levando-se em conta a necessidade de uma robusta recuperação dos efeitos da pandemia de Covid-19.

Em março, o governo britânico anunciou planos de lançar um novo Banco de Infraestrutura Nacional (NIB, sigla em inglês), o qual permita ao país fomentar os investimentos no setor e viabilize o que o chanceler do Erário (ministro da Fazenda) Rishi Sunak chama de “revolução industrial verde”, visando às metas de “descarbonização” da economia (Construction News, 03/03/2021).

Apesar da “contaminação” da proposta com a insana agenda ambiental/climática, o mero fato de que o país de Margaret Thatcher se veja forçado a tal iniciativa denota que uma dose de realidade ainda pode ser encontrada em parte das suas elites dirigentes, enquanto outra facção dela se orienta pela ilusória meta de restauração dos dias de glória do Império Britânico (ver “Senilidade estratégica do Reino Unido”, Resenha Estratégica, 31/03/2021).

O principal objetivo do banco será o de “cobrir lacunas no mercado, com financiamentos diretos de projetos de investimentos, para gerar tanto benefícios sociais como retornos financeiros”, além de atuar como catalisador de certos setores e tecnologias.

Afinal de contas, os rótulos “verde”, “sustentável” e outros que integram a cartilha ambientalista, podem ser facilmente aplicados à grande maioria dos investimentos em infraestrutura, inclusive, projetos energéticos avançados (p.ex., energia de fissão ou fusão nuclear), ferrovias de alta velocidade e outros.

O NIB deverá ter uma capitalização inicial de 22 bilhões de libras esterlinas (R$ 170 bilhões), com a pretensão de atrair até £ 40 bilhões (R$ 310 bilhões) de investimentos privados, para projetos “verdes”. Sunak também anunciou o lançamento de um título soberano “verde” e de um esquema para permitir investimentos de pessoas físicas.

O banco será totalmente controlado pelo governo britânico e supervisionado pelo Tesouro.

No outro lado do Atlântico, no país de Milton Friedman e do “Consenso de Washington”, o presidente Joe Biden apresentou um portentoso pacote de 2 trilhões de dólares de investimentos em infraestrutura, construção e reparos de imóveis, escolas e hospitais, pesquisa, desenvolvimento e inovação e melhoramentos industriais, além de prover incentivos para cuidadores de idosos. A iniciativa, que precisa ser aprovada pelo Congresso, lembra o icônico New Deal, com o qual Franklin D. Roosevelt (1933-1945) enfrentou os efeitos da Grande Depressão e lançou as bases da recuperação proporcionada pela mobilização industrial para a II Guerra Mundial. Aliás, a semelhança se estende à oposição ao plano, pois, assim como na década de 1930, os Republicanos já se mobilizam para torpedeá-lo no Congresso – e, apesar da ligeira maioria Democrata em ambas as casas parlamentares, a aprovação está longe de garantida.

Em um artigo publicado no Washington Post de 3 de abril, o jornalista Fareed Zakaria, uma das estrelas da rede CNN, escreveu:

Enquanto Donald Trump proclamou que queria “Tornar os EUA Grandes de Novo”, o presidente Joe Biden está tentando fazer isso concretamente. O mote do ex-presidente levou os estadunidenses a pensar nostalgicamente sobre as décadas de 1950 e o início da de 1960, quando os EUA dominavam o mundo e sua economia produzia salários crescentes para trabalhadores e executivos. Uma característica definidora daqueles anos foi o investimento federal em infraestrutura, pesquisa científica e educação (pensem nas rodovias interestaduais, na NASA e na maciça expansão de universidades públicas). Em contraste, nos anos recentes, Washington tem gasto dinheiro, majoritariamente, para financiar o consumo privado, dando às pessoas reduções de impostos ou transferências de dinheiro. O plano de infraestrutura de Biden é o primeiro grande programa fiscal em cinco décadas, que voltaria a enfocar os investimentos.

Se aprovado como proposto, o megapacote será pago, principalmente, com uma elevação dos impostos corporativos, dos atuais 21% para 28%, durante 15 anos, o que, como alegam os defensores do plano, ainda seria cerca de metade dos níveis anteriores aos cortes de impostos aprovados pelo Congresso controlado pelos Republicanos, em 2017. Os recursos previstos deverão ser desembolsados em um período de oito anos (NPR, 01/04/2021).

Assim como no Reino Unido, a proposta de Biden sugere que um setor do Establishment de Washington, mais pragmático do que ideológico, quer usar recursos públicos em atividades mais produtivas do que promover guerras e intervenções militares infindáveis por todo o planeta. De fato, os 2 trilhões de dólares do plano de investimentos, a serem gastos em oito anos, equivalem a menos de três anos do orçamento direto do Pentágono e a pouco mais de um ano do orçamento global do “complexo de segurança nacional” estadunidense, da ordem de US$ 1,5 trilhão, o qual inclui diversas rubricas externas ao Departamento de Defesa e supera os orçamentos militares combinados de todos os demais países do mundo.

Em um artigo anterior, publicado no Washington Post em 18 de março (e reproduzido no “Estadão” de 30 de março), Zakaria observou com ironia:

Considerem dois exercícios de poder contrastantes. O programa do caça F-35 dos EUA, atormentado por sobrecustos e problemas técnicos, acabará custando US$ 1,7 trilhão aos contribuintes. A China irá gastar uma quantia semelhante na sua Iniciativa Cinturão e Rota, um ambicioso conjunto de empréstimos, ajuda e financiamento para infraestrutura em todo o mundo, voltado para criar uma maior interdependência com dúzias de países que são importantes para Pequim. Que dinheiro é melhor gasto? (…)

Tendo gasto duas décadas travando guerras no Oriente Médio sem muito sucesso, agora, o Pentágono reverterá ao seu tipo favorito de conflito, uma guerra fria com uma potência nuclear. Ele pode levantar quantias infindáveis de dinheiro para “ultrapassar” a China, mesmo se a deterrência nuclear torna improvável que haja uma guerra real na Ásia. É claro que deve haver guerras orçamentárias em Washington – mas estas são as batalhas que o Pentágono sabe como vencer!

O texto de Zakaria é indicativo da pugna interna que se trava nos altos círculos de poder estadunidenses e representa um grupo aparentemente minoritário, mas crescentemente consciente da obsolescência das ideologias, tanto geopolíticas como econômicas, frente à enormidade e complexidade da crise global.

Ensinamento que, aliás, é da maior relevância para os países que não quiserem ser arrastados por ela.

x

Check Also

“Escassez” deliberada ameaça novo apagão no Brasil

Em 28 de junho, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, fez um pronunciamento ...