Brasil: retomada do desenvolvimento só virá com reindustrialização

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No momento em que, ao contrário do setor bancário, a indústria brasileira registra os seus piores resultados em décadas, começa a ganhar corpo entre especialistas e estudiosos do cenário nacional a ideia de que o País só poderá retomar o caminho do desenvolvimento com a reversão da atual tendência de desindustrialização e “reprimarização” da economia – ou seja, com uma agenda de reindustrialização.

A dramaticidade do problema pode ser apreciada por dois relatórios recém divulgados. O primeiro, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que a retração do setor industrial em 2015 foi a maior das últimas décadas – 8,8% no faturamento, 10,3% nas horas trabalhadas e 6,1% no nível de empregos. A utilização da capacidade instalada caiu para 78,9%, o nível mais baixo da série histórica iniciada em 2003. “A recessão é generalizada. Mas os dados do setor industrial têm ritmo de queda mais intensos do que em outros segmentos”, disse o gerente executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco (Monitor Mercantil, 1/02/2016).

Já a edição atual da Carta IEDI, publicada pelo Instituto de Estudos de Desenvolvimento Industrial, apresenta o Atlas da Complexidade 2014, que abarca o grau de complexidade das exportações de diferentes países, que seus autores, os economistas Ricardo Hausmman (Universidade de Harvard) e César Hidalgo (Instituto Tecnológico de Massachusetts – MIT), consideram determinante para o crescimento econômico de longo prazo dos países.

Como afirma o estudo, o Brasil vai de mal a pior no quesito complexidade das suas exportações, tendo desabado da já depauperada 41ª posição, que ocupava em 2004, para a 51ª, em 2014, atrás até mesmo de vários países em desenvolvimento, como o México, Uruguai, El Salvador e Costa Rica. O líder do ranking, que inclui 123 países, é o Japão, seguido por Alemanha, Suíça, Coreia do Sul, Suécia, Áustria, República Tcheca, Finlândia, Hungria e Eslovênia (estes últimos, por integrar os esquemas regionais de integração intraindustrial, recebendo investimentos preferenciais da Alemanha, EUA e Japão).

O retrocesso brasileiro se deve à deterioração da pauta de exportações, cada vez mais concentrada em produtos minerais (27%, em 2014), produtos vegetais (17%) e alimentos (12%). Dentre os gêneros industriais destacam-se equipamentos de transporte (7%), máquinas/elétricos (6%), produtos de metal (6%) e químicos e relacionados (5%).

No mesmo ano de referência, as importações nacionais foram constituídas por itens industriais mais complexos, como máquinas/equipamentos elétricos (25%), produtos minerais (21%), químicos e relacionados (16%) e equipamentos de transporte (11%).

Em entrevista publicada no sítio do Instituto Humanitas Unisinos (31/01/2016), o economista José Luís Oreiro, professor adjunto da Universidade de Brasília (UnB), explica as consequências do problema:

Tudo isso aponta para aquilo que [o economista da Fundação Getúlio Vargas] Nelson Marconi chama de regressão produtiva. Ou seja, a estrutura produtiva ficou menos sofisticada. Na medida em que isso acontece, o potencial de crescimento da produtividade se reduz e com isso tem uma redução do crescimento potencial da economia. Se o crescimento potencial da economia na década passada era algo em torno de 4%, depois desse movimento de regressão produtivo, o potencial caiu abaixo de 2%. Então, mesmo que não tivesse ocorrido nenhum fator do ponto de vista do ciclo econômico, o Brasil já teria uma desvalorização do crescimento de forma bastante pronunciada de 4% para algo em torno de 1,5- 2%. (…)

Isso gera um impacto para o longo prazo e, nos próximos dez anos, a economia brasileira vai crescer muito pouco, e a média de crescimento vai estar entre 2% e 2,5%, o que é péssimo do ponto de vista do desenvolvimento brasileiro. Se crescermos 2% e o mundo crescer 4%, isso significa que o Brasil está ficando para trás. Vai ser importante nos próximos anos, voltarmos a discutir uma agenda de desenvolvimento econômico para saber como o Brasil vai sair desse processo de semiestagnação e voltar a crescer.

Para isso acontecer, teremos de encarar de modo muito sério a reindustrialização da economia brasileira. Esse será o ponto central, porque não teremos crescimento acelerado com base numa economia exportadora de commodities e intensiva em serviços de baixa intensidade e baixa intensidade tecnológica. Para que o Brasil possa crescer de forma sustentável, vamos ter de reindustrializar a economia, mudar a pauta de exportação em direção a produtos manufaturados e reduzir o peso do setor de serviços na economia brasileira, porque ele está inchado e esse é um setor predominante de baixa produtividade e baixa intensidade tecnológica.

Na mesma linha, criou-se em São Paulo o Grupo Reindustrialização (GR), que reúne economistas de várias tendências para discutir políticas de desenvolvimento baseadas na recuperação da indústria nacional, em contraponto à financeirização hegemônica. Um dos integrantes do grupo, Antonio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), recorda que este é um debate “recorrente na história econômica brasileira”, remontando ao acirrado debate travado na década de 1940 pelo líder industrialista Roberto Simonsen e o arquiliberal Eugênio Gudin, adepto da tese de que o Brasil deveria se concentrar na sua vocação “agrícola”.

“Tem aqueles que acham que o mercado resolve tudo, e os que acham que a indústria pode induzir o desenvolvimento”, observa Lacerda, para quem o Brasil se tornou “um país de rentistas”. Ele critica o câmbio permanente e artificialmente valorizado e a elevada taxa de juros praticada pelo Banco Central (Vermelho.org.br, 25/11/2015).

Lacerda afirma que o traço de união dos integrantes do GR é a ideia da reindustrialização como fator de desenvolvimento. “Isso parece óbvio, mas há economistas que não pensam assim”, lamenta ele.

Em seu manifesto, divulgado no ano passado, o GR afirma que o País “clama” por uma política de desenvolvimento que vá além do atual ajuste: “Neste contexto, a reindustrialização do Brasil deve ser parte fundamental da agenda de crescimento dada a capacidade do setor industrial de gerar bens com maior valor agregado, de difundir tecnologia, criar empregos de qualidade e, através de seus encadeamentos produtivos, elevar a produtividade de toda a economia.” (O texto integral do manifesto do GR se encontra neste link.)

O GR tem como coordenadores o professor Yoshiaki Nakano, da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, e o diretor de competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Mario Bernardini. Além deles, integram o grupo Luiz Carlos Bresser-Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo, o diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, e economistas ligados à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e PUC-SP.

Em um artigo publicado na edição brasileira do jornal Le Monde Diplomatique, em outubro de 2015, intitulado “Reindustrialização como projeto nacional”, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, integrante do GR, assim sintetizou o dilema da indústria nacional:

(…) Entre 1930 e 1980, o projeto nacional foi de industrialização; de 1980 para cá, a participação da indústria no PIB caiu de 28% para 9%; a participação das exportações de manufaturados na exportação total caiu de 62% em 1990 para 35% em 2014. Enquanto isso, nos Estados Unidos, de cuja desindustrialização tanto se fala, a participação da indústria de transformação no PIB permaneceu em torno de 12%; o que houve lá foi queda da participação do emprego industrial, não da produção.3 Logo, para voltar a crescer, o projeto deverá ser o da reindustrialização, entendida como sofisticação produtiva,para incluir também os serviços tecnologicamente sofisticados.4 O aumento da produtividade ou o desenvolvimento econômico são essencialmente processos de acumulação de capital por meio dos quais se promove a transferência da mão de obra de setores de baixo valor adicionado per capita para setores de alto valor adicionado per capita, que são sofisticados tecnologicamente e pagam melhores salários. Nos últimos 35 anos, temos feito o inverso, transferindo mão de obra da indústria para os serviços não sofisticados. Para reindustrializar o país, teremos de continuar a cuidar da produtividade do lado da oferta; deveremos continuar a dar prioridade à educação, à ciência e à tecnologia, à melhoria da infraestrutura e ao aperfeiçoamento das instituições. Mas essas são ações de longo prazo, às quais o Brasil, como muitos outros países, dedica o melhor de seus esforços. O essencial é mudar a política macroeconômica e colocar os juros e o câmbio no lugar certo. É dar às empresas brasileiras existentes e potenciais que sejam competentes tecnológica e administrativamente acesso à demanda, seja interna ou externa, que uma taxa de câmbio sobreapreciada a longo prazo vem recusando há muito tempo. O resto será feito pelo mercado e por uma política industrial estratégica.

Depois de anos de hegemonia pró-rentista, o ressurgimento de um impulso em prol da reindustrialização e do aumento da capacidade de agregação de valor às atividades produtivas nacionais assume uma relevância determinante para o futuro do País. O MSIa Informa pretende acompanhar e contribuir para apoiá-lo, na medida das suas possibilidades, e incita os visitantes a também se engajarem nele.

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