Brasil: o mito da restauração da confiança

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André Araújo

Artigo originalmente publicado no sítio Jornal GGN, em 26/05/2016.

A mídia repete à exaustão um termo colocado em circulação pelos “economistas de mercado”, que tornou-se a verdade revelada. O conceito de “restaurar a confiança” significa que, colocados na mesa os preceitos fundamentais da escola clássica, quais sejam o equilíbrio fiscal, a absoluta prioridade no combate à inflação e o Estado mínimo, por lei da gravidade, os investimentos virão e a economia se torna próspera.

A estorieta é falsa. Em um ciclo de profunda recessão, caminhando para a depressão, a receita é incompleta.

O conservadorismo fiscal é, sim, necessário. O Estado não pode jogar dinheiro pela janela em desperdícios completamente irracionais, como aluguel de prédios caríssimos e desnecessários, os imensos custos do Congresso, o mais caro do mundo; da Justiça, a mais cara do planeta; os super salários. Só no Congresso são 6.000 pessoas com salários acima do teto, indivíduos que, no mercado competitivo, não conseguiriam ganhar R$ 2.000, entram na folha do Estado com R$ 32.000; os gastos em diárias, viagens, terceirizações, equipamentos médicos caríssimos e depois abandonados, aluguel de veículos. Tudo isso precisa ser centralizado e racionalizado, pois o Estado brasileiro é péssimo gastador.

Mas ao lado da eficiência com o gasto público é necessário puxar a economia pela demanda gerada por investimento público, o único instrumento para rapidamente criar demanda.

Sem demanda gerada em algum ponto do sistema econômico, tal qual uma locomotiva puxa um trem, a economia não deslancha porque não é a restauração da confiança que traz investimentos, é o aquecimento da demanda que estimula o empresário a investir.

Isso é elementar, mas no Plano Meirelles, assim como em qualquer plano ortodoxo, não há essa previsão. Saneia-se a economia pelo lado fiscal, mas isso não faz por si só a economia deslanchar, a confiança não induz ao investimento se não há demanda. Por que irei fabricar fogões, se o povo desempregado não tem dinheiro para comprar? O Brasil pode ser Triple A, o investimento não virá sem demanda.

O conceito de restaurar a confiança é do mercado financeiro, não é da economia produtiva, nesta o empresário não precisa de tanta confiança se há demanda. O Brasil cresceu entre 1945 e 1975 às maiores taxas do planeta, em meio à inflação e crises cambiais porque havia demanda para comprar tudo.

O Brasil não está em uma fase de economia morna, que permite dar tempo ao ajuste fiscal produzir o discutível efeito confiança. O Brasil está em uma perigosa recessão, pelo seu desdobramento social, não há tempo para esperar dois ou três anos um ajuste fiscal produzir efeito, se é que vai produzir. É preciso estimular a demanda já.

O velho pensamento econômico pré-2008 era monotrilho, ou se seguia uma escola conservadora ou uma escola expansionista, a visão binária não serve mais, porque a economia dos grandes países é muito complexa para uma só receita. É preciso operar com várias receitas ao mesmo tempo, salgado e doce no mesmo prato.

De um lado enxugar os gastos cortando desperdícios, todos os programas sociais precisam ser auditados, há fraudes e desperdícios em todos, mas, ao mesmo tempo, é preciso jogar com pesados investimentos públicos para puxar a demanda, sem o que o Brasil não sairá da recessão.

Como financiar investimentos públicos? Como se faz em qualquer lugar, como fez Roosevelt com o New Deal, como fez Schacht na Alemanha de 1933, pelo rearmamento, como fez Juscelino em 1956, pela construção de Brasília e o programa de 30 Metas, se faz com expansão monetária. Vai gerar inflação? Não ou, se for, muito pouca, porque há enorme capacidade ociosa na economia, em equipamentos instalados e em mão de obra disponível.

Os juros básicos podem ser cortados pela metade, os títulos federais estão em carteiras que não tem outra aplicação, transformar toda a dívida em indexada mais juros de 3% ao ano, está bom demais, hoje daria 10%. Com a baixa de juros o dólar vai a R$5, ótimo, a desvalorização vai estimular a indústria pela exportação e pela substituição de importados.

Economia tem que ser operada de forma flexível, não por cartilhas fixas, é no dia a dia, como fazia Alan Greenspan nos seus 14 anos de Fed. Economia não anda no piloto automático, é preciso ajustar velocidade e roteiro continuamente.

Após 2008, o Instituto para o Novo Pensamento Econômico, de Nova York, com 650 dos melhores economistas do mundo, vários Prêmio Nobel, prega o abandono das receitas de apostila que os nossos economistas tanto adotam pela “nova cozinha” de economia, mistura de escolas, de acordo com as circunstâncias.

Expansão monetária + baixa dos juros + investimento público: a economia sai da recessão em um ano.

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