Brasil: é imprescindível reverter a desindustrialização

Um artigo do empresário Carlos Rodolfo Schneider, no “Estadão” de 16 de novembro (“Redescobrindo a importância da indústria”), é o enésimo brado de advertência sobre a acelerada deterioração da indústria brasileira. Membro do Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e do Conselho Empresarial da América Latina, Schneider faz uma síntese alarmante de um processo que ocorre diante da passividade generalizada das elites dirigentes nacionais, como se se tratasse de um fenômeno “natural” incontornável, como um cataclismo cósmico.

Diz ele:

A indústria de transformação é o setor que mais investe em inovação (69% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento no Brasil, segundo a Confederação Nacional da Indústria), que mais recolhe tributos, que paga os maiores salários (da iniciativa privada) e que gera o maior efeito multiplicador: a cada R$ 1 produzido, são gerados R$ 2,40 na economia brasileira, ante R$ 1,66 da agricultura e R$ 1,49 do setor de comércio e serviços. Mas, nas últimas quatro décadas, o setor vem encolhendo no País por falta de atenção das políticas públicas e pela deterioração da competitividade da nossa economia, o famoso custo Brasil. Segundo o IBGE, em 1980, ele representava 33,70% do PIB, a preços correntes, e em 2018, apenas 11,31%.

Citando um estudo dos economistas Paulo César Morceiro e Milene Tessarin, da Universidade de São Paulo (USP), sobre o processo de desindustrialização de 30 países que representam 90% da indústria mundial, ele observa que o caso brasileiro o mais grave, como atestam os números.

Em 1980, o Brasil tinha o sexto maior parque industrial do mundo, responsável por 4,1% da produção mundial, contra 1,65% da China. Em 2019, segundo a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), a participação do Brasil no valor adicionado da indústria global havia caído para 1,19%, ficando o País na 16ª posição, atrás da Turquia (15ª), Rússia (13ª), México (11ª), Indonésia (10ª) , Índia (5ª) e China (1ª). Ou seja, em apenas quatro décadas, a indústria nacional passou de ser 2,5 maior que a da China para 25 vezes menor. Nas palavras de Schneider, “um tombo e tanto, acentuado por agravante denominado especialização regressiva, que significa que setores de maior valor agregado cedem espaço para produtos básicos, ligados a commodities, consequência justamente do custo Brasil”.

A propósito do famigerado custo Brasil, ele explica:

Como os custos para produzir no Brasil são mais altos, quanto mais longa a cadeia produtiva, maior a defasagem no fim. Isso leva à concentração no início da cadeia, com pouca agregação de valor. É mais produtivo, por exemplo, exportar soja em grão do que óleo de soja.
Em 2019 o governo federal estimou o custo Brasil em R$ 1,5 trilhão por ano. É o que custam as ineficiências estruturais, burocráticas e econômicas que comprometem a competitividade das nossas empresas. A começar pela caótica estrutura de impostos, que obriga a um gasto de horas sete vezes maior para tentar pagar corretamente os tributos (1.509 horas/ano, segundo o Banco Mundial, ante a média mundial de 226 horas/ano). Isso absorve 1,2% do faturamento das empresas industriais, número 9,3 vezes mais elevado do que dos principais parceiros comerciais. Além do que, no Brasil a tributação não é isonômica entre os setores, e a indústria é o mais onerado: respondia em 2019 por 26% dos tributos federais, para uma participação de 11,3% no PIB.

Em 2019, o País registrou o 12º ano consecutivo de balanço comercial setorial negativo, com um déficit de US$ 34,1 bilhões, de acordo com o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), uma das raras entidades nacionais que tem se empenhado em bradar no deserto contra tal situação. Para complicar, diz Schneider, a queda nas exportações foi quatro vezes mais acentuada nos ramos de alta e média tecnologia do que nos de baixa tecnologia, confirmando a tendência de “reprimarização” do setor.

Schneider cita o diretor-geral da UNIDO, Li Yong, que destaca a importância das políticas industriais para a prosperidade sustentável a longo prazo, devido a três fatores básicos: maior produtividade em relação à agricultura e aos serviços; maior efeito multiplicador na economia; o setor que mais gera inovações e avanços tecnológicos. Segundo ele, isso ajuda a explicar tanto a evolução socioeconômica de países que têm fortalecido as suas indústrias, como os do Sudeste Asiático, como a estagnação do Brasil devido à desindustrialização.

Um exemplo doméstico é o desempenho diferenciado de Santa Catarina em relação ao contexto nacional. Segundo a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), o estado é o mais industrializado do País em termos de participação setorial no PIB (Produto Interno Bruto), chegando a 27%, sendo 20% da indústria de transformação, o dobro da média nacional, gerando mais de um terço dos empregos formais.

Schneider conclui: “São dados importantes para orientar políticas econômicas e para inspirar a classe política. Os problemas de competitividade, em grande parte, dependem de fatores estruturais como baixa produtividade, complexidade do sistema tributário e precariedade da infraestrutura. Devemos seguir com o esforço das reformas, desenvolver políticas industriais voltadas para a quarta revolução industrial, a indústria 4.0, e definir programas de apoio horizontais, e não para 17 setores, para que não sejam eleitos vencedores e vencidos.”

Reverter a desindustrialização nacional é pauta prioritária para qualquer futuro governo comprometido com a reconstrução do País, no momento simbólico em que completa o seu segundo centenário como nação independente. Todavia, será preciso uma verdadeira mudança de paradigma na orientação das políticas econômicas e financeiras, para recolocar a devida ênfase nas atividades produtivas que configuram a economia real e colocar de lado a hegemonia desfrutada pelo rentismo nas últimas décadas, responsável pela conversão dos títulos da dívida pública e outras atividades especulativas no melhor negócio da praça (vide os lucros dos grandes bancos no terceiro trimestre do ano, medalha de bronze em termos históricos). Sem falar na evidência de que o custo Brasil não poderá ser reduzido de forma permanente, sem maciços investimentos – principalmente, públicos – em educação, saúde pública e infraestrutura física, além de um grande esforço de racionalidade e desburocratização tributária.

Ou seja, será preciso que o Brasil deixe de ser uma fábrica de juros e volte a privilegiar a produção de bens e serviços ligados à economia real.

Em suma, estamos falando de uma redefinição do projeto nacional, que vá além de meras palavras de ordem, como choques de capitalismo, cartas ao povo brasileiro, pontes para o futuro, agendas social-liberais e outras formulações retóricas vazias de compromissos reais com o bem comum e a retomada de um sonho de progresso e avanço civilizatório.

(Imagem: CNI.)

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