Ambientalistas e indigenistas apopléticos com Aldo Rebelo e Katia Abreu

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Como era previsível, as nomeações do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e da senadora Katia Abreu (PMDB-TO), respectivamente, para os ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Agricultura (MA), provocaram uma virulenta reação do aparato ambientalista-indigenista internacional e seus apoiadores midiáticos, no Brasil e no exterior. A investida proporciona, não apenas uma didática demonstração do que ambos poderão esperar de tais círculos durante as suas gestões, mas também expõe à luz do dia uma parte importante das redes ambientalistas e indigenistas mobilizadas no País. 

O novo titular do MCTI foi saudado como “retrógrado”, “neoludita” e outros epítetos, em referência ao Projeto de Lei 4.502/1994, proposto por ele, o qual proibia, em órgãos públicos da administração direta, a adoção de tecnologias poupadoras de mão-de-obra, caso os benefícios sociais do processo fossem inferiores ao custo social do desemprego gerado. Além disto, vários comentaristas lembraram a sua conhecida rejeição do alarmismo sobre as mudanças climáticas e a sua atuação como relator do projeto de reforma do Código Florestal.

Na mesma linha, Katia Abreu foi recebida como a “rainha da motosserra”, inclusive, por jornais estrangeiros identificados com as causas ambientalistas e indigenistas.

Na edição do dia de Natal, a Folha de S. Paulo abriu as baterias contra Rebelo, com um artigo de Maurício Tuffari (especializado em assuntos científicos e ambientais), intitulado “Novo ministro da Ciência defendeu posições contrárias à da academia”. Abaixo, um dos lides apontava: “Ministro diz não crer no aquecimento global com causas humanas e já ajudou ruralistas em debate contra cientistas.”

No texto, o jornalista comenta a reação do físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP) e um dos líderes acadêmicos da corrente que promove as supostas causas humanas do aquecimento global no País, que considerou a nomeação “preocupante”. “Obviamente, o novo ministro não tem qualquer afinidade com a área. É lamentável o critério que levou a essa escolha para um cargo de importância estratégica”, disse ele.

Em um texto postado em seu blog, no mesmo dia, Tuffari, que é escreve sobre ciência, educação e meio ambiente, ironiza a escolha, dizendo que a notícia chegou a ser interpretada nas redes sociais “como um possível trote ou pegadinha”.

No dia seguinte, foi a vez dos colunistas estrelas do jornal O Globo, Merval Pereira e Miriam Leitão. O primeiro, na coluna intitulada “Ministério de segunda”, sentenciou:

Para ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, a escolha de Aldo Rebelo, alguém que apresentou projeto de lei para proibir a “adoção, pelos órgãos públicos, de inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra”, mostra bem aonde chegaremos em termos de inovação tecnológica.

O ministério que deveria ser responsável por políticas de ponta na pesquisa e na inovação nas universidades e na indústria vai ser ocupado por um comunista que se vangloria de sua “devoção ao materialismo dialético como ciência da natureza” que, por isso mesmo, considera que as denúncias de aumento da temperatura global são produto de um “cientificismo” que pretende “controlar os padrões de consumo dos países pobres”.

É esse o homem que vai comandar as informações ao IPCC (ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), órgão da ONU que controla as medidas necessárias para enfrentar o problema, que para Rebelo simplesmente não existe.

Por sua vez, Leitão disparou (“As ideias novas”):

(…) Nomear Aldo Rebelo para a Ciência e Tecnologia é realmente sem sentido. Rebelo não é conhecido por suas posições vanguardistas em área alguma, mas em um ponto ele pode atrapalhar bastante o desempenho do país. Estamos no momento-chave das negociações de um acordo sobre mudanças climáticas e o Ministério da Ciência e Tecnologia sempre jogou um papel fundamental nas negociações e formulação da posição brasileira. O mundo assumiu o compromisso de chegar em 2015 a um novo acordo global de redução das emissões, em Paris, e estabelecer os novos objetivos de desenvolvimento sustentável que foram lançados na Rio+20.

Quem quiser ter uma noção de como Rebelo é inadequado para o cargo basta dar uma olhada em alguns parágrafos do seu relatório sobre o Código Florestal. Não pedirei ao leitor que atravesse aquele deserto de ideias novas. É pedir demais. Basta saber que nele, o ministro põe em dúvida o que é o ponto básico das convicções do IPCC – painel intergovernamental de cientistas organizado pela ONU – o de que é a ação humana que está provocando a atual onda de mudanças climáticas. A cada relatório, aumenta o grau de certeza dos cientistas. Existem vozes discordantes e elas são laterais. O Brasil parecerá exótico se desembarcar em Paris com um ministro pondo em dúvida os relatórios do IPCC que dão toda a sustentação científica para o acordo que o mundo tentará assinar. Se ele tiver voz ativa na formulação da nossa posição será um retrocesso de repercussão planetária.

Na véspera do Natal, o Greenpeace divulgou uma nota lamentando a escolha e rotulando Katia Abreu como “Miss Desmatamento”. Para a ONG,

a escolha de Dilma mostra uma identificação de seu governo com as pautas que Kátia Abreu defende, funcionando como um reconhecimento pelos serviços prestados pela senadora nos últimos anos. Pelo visto, quem vai estar no comando das pautas socioambientais e decidindo o destino dos povos indígenas e da proteção da Amazônia não é mais a presidente Dilma (Greenpeace, 24/12/2014).

Dos EUA, a cúpula do movimento ambientalista se manifestou por intermédio do antropólogo Steve Schwartzman, diretor de Política Florestal do Environmental Defense Fund (EDF), um dos organizadores do ambientalismo no Brasil, onde opera desde a década de 1980. Em um longo artigo postado em seu blog, em 5 de janeiro (“Negador das mudanças climáticas nomeado ministro da Ciência do Brasil”), ele disparou contra Rebelo e Abreu:

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, tem repetidamente proclamado a liderança internacional nas mudanças climáticas para o Brasil, em fóruns internacionais, baseada nos sucessos na redução do desmatamento da Amazônia. Mas, dias antes do início do ano novo, Rousseff nomeou dois ministros que lançam dúvidas sobre a liderança do Brasil e são um mau sinal para a atmosfera. (…)

Sem meias palavras, Schwartzman qualificou os dois novos ministros como “Má escolha no. 1” (Abreu) e “Má escolha no. 2” (Rebelo):

A nova ministra da Agricultura, Katia Abreu, foi presidente da Confederação Nacional de Agricultura (a associação nacional de grandes e médios proprietários de terras e rancheiros). Como senadora, ela liderou a poderosa, antiambientalista e antiindígena “bancada ruralista” [em português no original], ou grandes proprietários de terras, e entre os ambientalistas ganhou o título de “rainha da motosserra”. (…)

O novo ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, é um antigo deputado do Partido Comunista do Brasil e um ruidoso militante antiambientalista, além de autor principal da controvertida e desagregadora revisão do Código Florestal.

Rebelo é também conhecido por rejeitar a ciência climática [sic]. (…) Nomear os queridinhos do agronegócio Abreu e Rebelo para o gabinete é bom para a bancada legislativa do PT. Menos evidente é como combinar estas escolhas com a oposição manifesta do governo aos esforços dos “ruralistas” para repelir a legislação ambiental e dos direitos indígenas. Ainda mais difícil é combinar o prolongado apoio do Brasil à ciência climática e à ação climática [sic], para não mencionar a sua política climática nacional, com a rejeição explícita de Rebelo à ciência climática, como “um artigo de fé” e “incompatível com o conhecimento atual”. O que é realmente triste sobre esta escolha não é apenas que Rebelo esteja, claramente, fora de sintonia com a ciência moderna sobre as mudanças climáticas [sic] – e, de fato, com numerosos cientistas de estatura mundial da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Mas, também, que é completamente desnecessário fazer o Brasil parecer realmente provinciano e tolo, no cenário mundial. (…)

No dia seguinte, ninguém menos que o New York Times publicou um artigo com o título: “Climatologistas relutam com escolha de cético para posto chave no Brasil.” No texto, o correspondente Simon Romerojan informa que a nomeação de Rebelo “está alarmando os cientistas climáticos e ambientalistas aqui, um país que te buscado afirmar a liderança nas negociações climáticas globais”.

Apesar do uso do plural, o único entrevistado é o antropólogo Márcio Santilli, fundador do Instituto Socioambiental (ISA) e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), que lamentou: “De início, eu pensei que fosse algum erro, que ele estava dançando a dança das cadeiras e havia sentado na cadeira errada. Infelizmente, aí está ele, supervisionando a ciência brasileira e um momento bastante delicado, quando as emissões de carbono do Brasil estão aumentando novamente (New York Times, 6/01/2014).”

No Reino Unido, o tradicional The Guardian (24/12/2014), notório pela seu apoio incondicional à agenda ambientalista-indigenista, comentou as nomeações com um provocativo artigo do correspondente Jonathan Watts, intitulado “‘Rainha da motosserra’ do Brasil nomeada nova ministra da Agricultura”. Embora centrado em Abreu, o texto também dispara contra Rebelo, “um homem com a reputação de cético das mudanças climáticas”.

Em entrevista à jornalista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo (5/01/2025), Abreu explicitou o que parece estar se consolidando na cúpula do governo federal como um freio ao radicalismo ambientalista-indigenista. Respondendo uma pergunta sobre a possibilidade de que as demarcações de terras indígenas sejam paralisadas, ela deixou claro que
não vai mais sair nada nunca do jeito que está. O STF [Supremo Tribunal Federal] já decidiu que terra demarcada não pode ser ampliada. Até então tinham saído várias, de forma equivocada, empurradas pela Funai a toque de caixa.

Desafios do MCTI

Em seu discurso de posse no MCTI, na presença da presidente Dilma Rousseff, Aldo Rebelo sinalizou que, ao contrário do que afirmam os seus críticos antecipados, tem uma ampla noção da relevância estratégica das políticas de sua pasta para as perspectivas futuras do País.

“A melhor forma de proteger o Brasil e o interesse nacional é fortalecer e desenvolver cientificamente, tecnologicamente o País, ampliando as suas possibilidades de inovação. É isso que nós temos que fazer. (…) Embora as leis científicas sejam universais, os produtos da ciência podem dividir os povos e a humanidade ou servir a colonialismo entre os países”, disse ele.

“Todos nós sabemos que a inovação é fundamental na disputa da economia. O Brasil, ou enfrenta esse desafio ou fica para trás”, afirmou.

Segundo ele, o processo de inovação não se destina apenas às grandes indústrias: “A inovação é também o que a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] faz ao desenvolver tecnologia para o pequeno agricultor lá do interior do País, sem nenhum prejuízo para os grandes projetos e investimentos.”

Para tanto, enfatizou, é necessário um esforço integrado entre os governos federal, estaduais e municipais, as instituições científicas e tecnológicas, empresas e a sociedade em geral: “A ciência, tecnologia e inovação não pode existir apenas em Brasília, apenas nos institutos. Deve existir nos estados e municípios. Temos que estimular os municípios a constituírem equipes próprias ou delegarem ações relacionadas com o tema.”

Um compromisso assumido foi o de ampliar os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT): “É preciso recompor, principalmente, os recursos para o FNDCT para compensar os recursos que foram perdidos e ampliá-lo [o fundo], para cobrir as necessidades do horizonte alargado que nós queremos para o desenvolvimento científico e tecnológico do País.”

Ele acrescentou ainda que tal esforço constitui um desafio permanente e estratégico para o desenvolvimento do País: “É estratégico no sentido econômico e também no sentido da defesa e soberania do País.”

O ministro sinalizou que, no desenvolvimento dessa “tarefa estratégica para o País”, o MCTI deverá trabalhar em conjunto com outros ministérios, como Defesa, Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Educação e Saúde (MCTI, 5/01/2014).

3 comments

  1. Espero que o Brasil pare de dar corda para depois não se enforcar. Está mais que claro que há variações climáticas, como sempre houveram, e que apesar da fúria destruidora do homem ocidental consumista não é isto que destruirá catastroficamente o planeta. Infelizmente a maioria dos pesquisadores nacionais são da classe dos sem-opinião-própria e escravos da forma de pensar euro-americana, sendo que a maioria joga o jogo geopolítico por ignorância e um desejo quase infantil de ter reconhecimento internacional. O pesquisador brasileiro vive um transe em busca de credenciais e títulos, pouco importa o que se faça ou suas consequencias para o Brasil. Aldo é um dos poucos políticos com posição formada e sustentada ao longo de anos. Kátia Abreu é a esperança para um MAPA fossilizado no século passado.

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