A “Fantástica” dobradinha Globo-Marina

Em 31 de agosto último, o Fantástico da Rede Globo de Televisão anunciou a todo o Brasil que a seca que afeta a Região Sudeste, principalmente, o estado de São Paulo, se deveria à “devastação desenfreada da Amazônia”.

Citando um estudo feito por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a reportagem sequer se deu ao trabalho de discutir as complexas causas do problema, limitando-se a reproduzir as conclusões do trabalho, cujos autores são notórios adeptos da controvertida – e não comprovada – tese do aquecimento global causado pelas atividades humanas. A conclusão simplista foi a de que a Amazônia “bombeia para a atmosfera a umidade que vai se transformar em chuva nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Quanto maior o desmatamento, menos umidade e, portanto, menos chuva. E sem chuva, os reservatórios ficam vazios e as torneiras, secas”.

Fiéis à inclinação da família Marinho para a promoção do ambientalismo, os produtores do Fantástico não se melindraram em procurar outros pesquisadores do clima, em busca de opiniões mais equilibradas sobre um problema de tamanha seriedade.

Por suas inclinações semelhantes, não surpreendeu que a candidata presidencial do PSB, Marina Silva, tenha endossado as ruidosas “denúncias” do Fantástico. Em seu programa eleitoral de 16 de setembro, ao apresentar as suas propostas para a política ambiental, ela disparou:

Defender o meio ambiente é uma necessidade. Pensar o contrário é uma irresponsabilidade. O planeta todo está sofrendo os efeitos da devastação ambiental. Os reservatórios de água das grandes cidades, como em São Paulo, estão em colapso. A falta de chuvas no Sudeste não é por acaso, ela é consequência do desmatamento que acontece lá na Amazônia. E não é só isso, quando falamos em investir em energias renováveis é porque temos que diminuir as emissões de gases poluentes. Elas causam o efeito estufa, que aumenta a temperatura em todo colaborando para a escassez de água. É preciso ter firmeza para implementar políticas públicas que não deixam o desmatamento voltar a crescer. Quando fui ministra do Meio Ambiente, o desmatamento caiu de forma significativa. E deixei o ministério quando percebi que o governo estava tomando um rumo errado. Infelizmente, este assunto deixou de ser importante no atual governo. No meu governo, vai ser prioridade.

Ao final, o locutor informou: “Marina vai proteger as florestas e aumentar em 40% a área de florestas plantadas. Vai criar o Conselho Nacional de Mudanças Climáticas, com participação do governo federal, dos estados e da sociedade. E vai estabelecer metas para a redução da emissão de carbono com ganhos ambientais.”

Não fosse Marina uma militante ambientalista histórica, que sempre favoreceu uma visão radical da proteção do meio ambiente, e demonstrasse um mínimo de seriedade quanto aos problemas ambientais realmente prioritários para o País, a começar pelas deficiências da infraestrutura de saneamento básico, ela poderia ter se dado ao trabalho de consultar cientistas com uma visão mais sóbria do fenômeno. Este Alerta ouviu o climatologista Luiz Carlos Baldicero Molion, pesquisador aposentado do INPE e professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que observou:

Essa matéria do Fantástico não tem base científica alguma. É que os leigos acreditam que a floresta, por sua evapotranspiração, fornece umidade para a atmosfera. Ao contrário, devido à rugosidade, ou aspereza aerodinâmica da superfície para o escoamento do ar, a turbulência e a atividade convectiva (formação de nuvens e chuva) é maior com a presença da floresta. Ou seja, a presença da floresta faz com que a umidade que entra na região vinda do Oceano Atlântico Norte, a principal fonte de umidade para as chuvas de verão no Brasil, seja mais eficientemente transformada em chuva sobre a Amazônia. Assim, se ocorresse um desmatamento em grande escala, a rugosidade diminuiria, choveria menos na Amazônia e mais umidade seria transportada para o Sudeste e Centro-Oeste e choveria mais, e não menos, em São Paulo (Alerta Científico e Ambiental, 11/09/2014).

Outro pesquisador, Ricardo Augusto Felício, professor de Climatologia do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), complementou:

A seca em São Paulo não tem nada a ver com isso. Trata-se da Oscilação Decadal do Pacífico [um ciclo de aquecimento/resfriamento do Oceano Pacífico Oriental – n.e.], entrando em fase fria. Ocorrências de La Niña [resfriamento das águas superficiais do Pacífico – n.e.] mais frequentes e, especificamente, neste ano, durante o verão, os ventos alíseos ficaram bem concentrados na calha Norte do Brasil, levando a colossal umidade para os estados do Norte e derivando depois para o Sul, formando intensas chuvas na Amazônia, Rondônia etc. – por isto alagou tudo – e acabaram também se concentrando, nesta colossal volta de carrossel, nos estados do Sul, mas bem para o lado Oeste/Noroeste – daí o recorde de vazão no Paraná, de 46 milhões de m3/s, quebrando marca anterior de 23 milhões de m3/s, de 1983, se não me engano.

O que aconteceu com a área central? Ficou sem ver a água, que vem do oceano e não da floresta! Um intenso anticiclone ficou permanente sobre o Brasil Central e o Sudeste e, pelo visto, não vai sair tão cedo.

Tanto Molion como Felício foram signatários da carta aberta que 17 cientistas brasileiros (mais o geólogo Geraldo Luís Lino, coeditor do Alerta em Rede) enviaram à presidente Dilma Rousseff, em maio de 2012, alertando-a sobre as inconsistências da agenda climática baseada na inexistente responsabilidade humana sobre as mudanças climáticas globais.

Quanto à candidata do PSB, essa é mais uma evidência de que, se eleita, a sua desastrosa visão sobre a questão ambiental, que ela tratou de implementar com afinco durante a sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente, poderá retornar multiplicada, caso ela chegue ao Palácio do Planalto.

One comment

  1. Quase 2 meses depois deste excelente texto, não foi desta vez – para o bem do Brasil – que ela se elegeu. Permaneceu como em 2010, ano em que, pelo PV, tornou o controvertido das mudanças climáticas causadas pelo homem (mas nunca comprovadas) um dos temas principais de sua campanha. Naquele ano, a COP-15 (uma das mais decisivas para os ativistas da causa) ainda estava “fresquinha”. Desta vez ela foi mais modesta em sua pregação. E não é para menos. A causa do AGA está em baixa em todo mundo, pois cada dia que passa fica mais e mais evidente a total falha dos modelos em suas projeções. Não podemos acreditar que sejam apenas “falhas”. Na verdade, as projeções do relatório do IPCC de 2007 foram as mais “histéricas” e políticas já feitas. Soma-se a isto, a participação de Hollywood, com os filmes de ficção “um dia depois de amanhã” e “uma verdade inconveniente” do Al Gore. Este último, é frequentemente – e erroneamente – chamado de Documentário. Por trás da histeria do o-fim-do-mundo-é-hoje-a-noite grandes interesses econômicos, geopolíticos e interesses menores, como os dos cientistas que tornaram-se uma máquina autoalimentada por falsos alarmes.
    Voltando à Marina, não sabemos se ela virá. Na presente data ela está dependendo de que Aécio Neves ganhe a eleição. Ninguém nunca apostaria que os dois políticos estivessem juntos em uma campanha. Mas, esta é a situação bizarra que se criou. Caso ele ganhe, ela terá sobrevida política e voltará com suas bandeiras antinacionais no futuro. Caso ele perca, sua carreira política estará em sérios apuros.
    E agora ?

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