A ameaça do terrorismo “islâmico-ocidental”

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A impressionante onda internacional de indignação e repulsa motivada pelos ataques terroristas em Paris, na semana passada, não deve ensejar a perda de uma perspectiva mais abrangente sobre o terrorismo islâmico. Como temos ressaltado nesta Resenha, ao longo de mais de uma década, não se trata de um fenômeno com existência independente, mas inserido no contexto da estratégia de hegemonia global do Establishment oligárquico anglo-americano, para o tem servido como um conveniente oponente substituto, após o fim da União Soviética, para justificar a preservação – na verdade, ampliação – de toda a maquinaria político-militar estabelecida em torno da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que já assume sem melindres a sua autoatribuída missão de “gendarmeria global”, com atuação potencial em todo o planeta.

Não estamos, aqui, afirmando que os ataques em Paris foram mais uma das numerosas operações “bandeira falsa” (false flag, em inglês), que são especialidades dos serviços de inteligência das principais potências da OTAN, com vasta experiência na manipulação de extremistas e radicais para a realização de atos terroristas ou, alternativamente, realizando-os eles próprios e criando evidências para atribuí-los a proverbiais bodes expiatórios. Mas, no mínimo, dois dos terroristas franceses tiveram uma ligação direta com a Frente al-Nusra, um dos grupos islamistas apoiados pelas potências da OTAN para a investida contra o governo de Bashar al-Assad, na Síria, além de estarem há anos na lista de vigilância dos serviços de inteligência da França, Reino Unido e EUA. Seja como for, as responsabilidades pelos ataques estão longe de se limitar aos terroristas.

Da mesma forma, a despeito da tsunami de manifestações e proclamações de que o alvo dos ataques teria sido a “liberdade de expressão” (supostamente, uma marca registrada do Ocidente, rejeitada pelos fanáticos islâmicos), o mais provável é que o objetivo real fosse aprofundar o clima de tensão na Europa, visando a abrir caminho para uma eventual versão francesa ou europeia da Lei Patriota estadunidense, aprovada às pressas após os ataques de 11 de setembro de 2001, que converteu os EUA em um Estado policial que nada fica a dever à antiga Alemanha Oriental.

Entre as décadas de 1960 e 1980, essa foi a marca registrada da chamada Operação Gládio e sua “estratégia de tensão”, que vitimou centenas de pessoas inocentes em vários países europeus, em atentados que foram atribuídos a esquerdistas radicais e simpatizantes do comunismo, com o objetivo de aterrorizar as populações, para afastá-las dos partidos socialistas e levá-las a aceitar políticas restritivas dos seus direitos civis. Investigações feitas a partir da década de 1990 revelaram que, no topo, estavam a CIA e o Pentágono estadunidenses, o MI-6 britânico e a OTAN, mas todos os serviços de inteligência dos países membros da Aliança Atlântica tiveram participação no esquema de “terror sintético”.

Não por acaso, muitos observadores se referem a essa promiscuidade entre os serviços de inteligência da OTAN e o terrorismo islâmico como “Operação Gládio B”, na qual os bois de piranha comunistas e socialistas foram substituídos pelos islamistas.

Na verdade, a manipulação do terrorismo islâmico remonta à década de 1970, com a chamada estratégia do “arco de crises”, com a qual britânicos e estadunidenses pretendiam fomentar insurgências desestabilizadoras entre as populações muçulmanas do entorno da URSS, em especial, no Cáucaso e na Ásia Central. A invasão soviética do Afeganistão, no final de 1979, aparentemente, foi uma resposta a uma dessas operações, tramada pelo então conselheiro de Segurança Nacional do governo Carter, Zbigniew Brzezinski, que até hoje se vangloria do fato.

Em resposta à invasão, a CIA e o MI-6, com o apoio dos serviços de inteligência do Paquistão, Arábia Saudita e Israel, organizaram um vasto exército de mercenários recrutados em vários países árabes, os mujahidin, para ajudar os afegãos a combater os soviéticos, que se retiraram em 1988 (o prolongado conflito acabou contribuindo consideravelmente para o enfraquecimento final do regime soviético).

Com o fim do conflito, os milhares de sobreviventes, com enorme experiência de combate, se espalharam pelo planeta, organizando-se em grupos que viriam a formar as hordas de jihadistas da atualidade, inclusive a famigerada rede Al-Qaida. Na década de 1990, de forma sintomática, os mujahidin participaram ativamente de conflitos nos Bálcãs, na Somália, na Chechênia e outros “pontos quentes”, com frequência, do lado que coincidia com os interesses estratégicos anglo-americanos, particularmente, quando se tratava de se contrapor aos interesses da Federação Russa.

Na fase da “guerra ao terror” pós-2001, aqueles veteranos ajudaram a formar e adestrar as novas gerações de jihadistas. Muitos deles, agrupados em grupos ou organizações infiltrados pela inteligência anglo-americana, se encarregaram de ações terroristas de grande utilidade para a nova versão da “estratégia de tensão”, que tem servido para justificar as quase inimagináveis dimensões do aparato de “segurança nacional” dos EUA e sua projeção europeia encarnada na OTAN. Em vários casos, como os de Bali (2002), Madri (2004), Londres (2005) e outros, houve numerosas evidências de que se trataram de operações “bandeira falsa”, devidamente acobertadas pelos seus mentores, com a cooperação de uma mídia anestesiada e pouco disposta a questionar as versões oficiais.

Entretanto, o aspecto mais relevante para o entendimento dos ataques em Paris é a conversão dos países invadidos e atacados pelas potências da OTAN – Iraque e Líbia, diretamente, e Síria, indiretamente – em centros de difusão do jihadismo, onde antes o problema não existia. Evidentemente, nem todo jihadista é um agente inconsciente dos interesses anglo-americanos e a maioria, certamente, odeia genuinamente o Ocidente e seus valores e símbolos. Mas, muitas vezes, ao investirem contra os seus alvos em importantes cidades ocidentais, estão beneficiando a agenda hegemônica do Establishment.

Ademais, é preciso registrar que, de longe, a maior proporção de vítimas do jihadismo se encontra entre os próprios muçulmanos, como se observa, principalmente, naqueles três países (em Paris, duas das 17 vítimas dos ataques da semana passada eram muçulmanas).
Em uma entrevista à rede russa RT, o presidente sírio Assad observou, de forma quase premonitória, que o terrorismo está sendo “exportado da Europa para o Oriente Médio”. Segundo ele:

A verdade é que o ISIS [Estado Islâmico do Iraque e da Síria] foi criado no Iraque, em 2006. Eram os EUA que ocupavam o Iraque, não a Síria. [O líder do ISIS] Abu Bakr al-Baghdadi estava em prisões estadunidenses, não em prisões sírias. Então, quem criou o ISIS, a Síria ou os EUA? (…) A maior percentagem de terroristas europeus que vêm para a Síria é francesa, e houve alguns incidentes na França. Também houve um ataque na Bélgica, contra um museu judaico. Então, o terrorismo na Europa não está mais dormente, ele está sendo despertado (RT, 4/12/2014).

Em um boletim de imprensa divulgado após os ataques em Paris, o presidente do Fórum Público Mundial Diálogo de Civilizações (WPF, na sigla em inglês), Vladimir Yakunin, que também é presidente da empresa estatal Ferrovias Russas, afirmou:

Infelizmente, os trágicos eventos em Paris também demonstram que grupos jihadistas estão sendo usados por algumas potências para a sua agenda geopolítica, seguindo a máxima absolutamente errada de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Uma política de “mudança de regime” tem criado o vácuo político em que esses grupos estão florescendo e, agora, estão ameaçando a Europa.

Por outro lado, ele não deixou de colocar o dedo na ferida, quanto ao contexto geral em que ocorreram os ataques:

Não há justificativas políticas para a violência terrorista, já que a violência não resolve qualquer problema, mas cria outros problemas. Mas, acima desta clara condenação do terrorismo e do seu abuso da religião, não se deveria perder de vista que existem tensões crescentes nas sociedades europeias e um aumento de atitudes xenofóbicas, antissemíticas e islamofóbicas. Intencionalmente ou não, a crescente alienação e confrontação entre as comunidades religiosas e culturais está beneficiando os extremistas, que propalam defender os interesses e a honra dos grupos desassistidos, inclusive os seus valores religiosos. Obviamente, nem os governos nem a sociedade civil encontraram a saída para este dilema e necessitam de uma nova estratégia, em lugar de um vago e indefinido multiculturalismo.

O diálogo de civilizações deve ser praticado em todos os níveis da sociedade e deve incluir, não apenas o respeito aos outros, mas também, o desenvolvimento social, a igualdade de oportunidades e a integração real. O diálogo de civilizações não é apenas um formato de conversas, mas um exemplo vivo da existência das possibilidades de se fazê-lo. A educação intercultural e uma cultura de não violência e paz deve substituir a alienação e a confrontação.

A mídia tem uma responsabilidade especial a esse respeito, em fomentar o entendimento mútuo entre pessoas de diferentes origens étnicas e religiosas, retraindo-se das tendências, dos preconceitos e das provocações agressivas. A liberdade de imprensa é uma grande conquista da democracia, mas não é absoluta e, como todas as outras liberdades, tem os seus limites quando viola a liberdade de outros. Os sentimentos dos crentes de todas as religiões deveriam ser respeitados pela mídia responsável (WPF, 8/01/2015).

As advertências de Yakunin são fundamentais para quem quiser ter um entendimento mais realista do fenômeno do terrorismo “islâmico-ocidental”.

One comment

  1. Concordo plenamente com a avaliação feita sobre estes episódios, e saliento que o mundo está diante de um problema seríssimo, como foi o nazismo na segunda guerra mundial, mas agora de proporções gigantescas.
    A solução pelas armas é a pior de todas, mas é a mais imediata para conter
    os ataques terroristas.
    O radicalismo Islâmico na defesa de Maomé e do Corão, ( Alcorão como queiram), preocupa a todos. A solução está em combater, mas com idéias diferentes, quem semeia este fanatismo religioso que põe a vida do ser humano em segundo plano, contrariando totalmente o ensinamento Cristão, não aceito por eles em hipótese alguma.
    E agora, o que podemos fazer para iniciar a solução deste problema?
    Que Deus nos salve antes, porque a situação começa a fugir do controle das nações.
    Concordo plenamente que a imprensa tem uma responsabilidade muito grande nesta hora, e os ataques ao jornal Francês foi motivado pelo próprio jornal, que agora tenta esfarrapadamente resgatar a imagem diante do Islamismo.
    Falta diálogo entre as nações, falta mesmo, mas digam-me, é possível dialogar com os extremistas islâmicos?
    Sem dúvida nenhuma, são sinais dos tempos, e cada dia mais eu acredito na escritura sagrada.
    Que Deus nos proteja a todos e ilumine o coração deles para que tomem consciência do mal que fazem, matando pessoas.

    Cesar Augusto de Cesaro.
    Passo Fundo – RS

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