As “finanças verdes” contra-atacam: a falácia da atribuição de eventos extremos

Apesar do inocultável retrocesso do catastrofismo climático em âmbito mundial, motivado pelos choques de realidade que levaram ao recuo da até há pouco onipresente “agenda ESG” e suas ramificações financeiras, os notórios problemas da “transição energética”, o descrédito dos cenários climáticos extremos e, sobretudo, a ação decisiva do governo de Donald Trump no desmonte das estruturas correspondentes nos EUA, as “finanças verdes” recusam-se a entregar os pontos.

Para sustentar a aposta na “comodificação” da percepção de riscos climáticos, os mentores da agenda da financeirização ambiental e climática contam com uma ferramenta alegadamente “científica” para avaliar a alegada influência humana em fenômenos meteorológicos e climáticos.

Trata-se da chamada atribuição de eventos extremos (AEE), que se propõe a estimar a probabilidade de que as atividades humanas estejam influenciando diretamente fenômenos como ondas de calor, furacões, secas, enchentes e outros. Um exemplo característico é a seguinte notícia publicada no sítio Climainfo (06/08/2026):

“Os incêndios florestais que há mais de um mês assolam o Canadá neste verão tornaram-se duas vezes mais prováveis devido às mudanças climáticas, causadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis. A conclusão é de um estudo de atribuição divulgado na 5ª feira (6/8) pela rede global de cientistas climáticos World Weather Attribution (WWA).

“Segundo a análise, a elevação da temperatura média global de 1,4°C em relação aos níveis pré-industriais intensificou as condições quentes e secas em boa parte da América do Norte durante a temporada de incêndios, facilitando a ocorrência e a disseminação de chamas. Neste ano, as áreas mais afetadas pelo fogo estão localizadas na província de Ontário e nos Territórios do Noroeste.”

Ou esta notícia do Observatório do Clima (16/07/2026)

“Chuvas intensas atípicas para a região subsaariana têm cerca de cinco vezes mais probabilidade de ocorrer atualmente na África Ocidental do que em um clima pré-industrial (1850-1900). A intensidade dessas precipitações também aumentou entre 4% e 23% por causa das mudanças climáticas. A conclusão é de um estudo publicado nesta quinta-feira (16) pela Rede Mundial de Atribuição (WWA, na sigla em inglês).

“Os temporais e as inundações que atingem países como Togo, Costa do Marfim, Gana e Nigéria já mataram ao menos 100 pessoas. Para Friederike Otto, cofundadora da WWA e professora de ciências climáticas no Imperial College London, as mortes são trágicas, mas previsíveis, já que o clima está mudando mais rápido do que a capacidade de adaptação da maioria dos países.”

Em julho, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA divulgaram um documento (Attribution of Extreme Weather and Climate Events and Their Impactsque pretende ser uma chancela científica da metodologia da AAE. O boletim de imprensa da entidade explica:

“Décadas de dados e pesquisas indicam que as mudanças climáticas causadas pelo homem estão alterando a frequência e a intensidade de vários tipos de eventos climáticos extremos, como furacões, ondas de calor recordes e chuvas extremas.

“A Atribuição de Eventos Extremos (AEE) permite que os cientistas vão além da detecção de tendências amplas e, em vez disso, investiguem como as mudanças climáticas influenciam eventos extremos individuais – fornecendo informações que podem ajudar as comunidades e os tomadores de decisão a entender melhor o papel das mudanças climáticas em eventos climáticos locais e a orientar seu planejamento e políticas. O campo se expandiu para o campo nascente da Atribuição de Impacto de Eventos Extremos (AIEE), que estuda até que ponto as mudanças climáticas causadas pelo homem influenciaram os impactos de um evento extremo, como impactos na saúde humana ou perdas econômicas.

“Os estudos de AEE comparam as características do evento observado, como sua probabilidade e intensidade no clima atual, com um mundo ‘contrafactual’ sem emissões causadas pelo homem [sic]. Os pesquisadores usam uma combinação de dados observacionais, modelos climáticos e meteorológicos e modelos estatísticos para fazer essas comparações e quantificar o efeito das mudanças climáticas no evento extremo.”

A metodologia que orienta a AEE só pode ser descrita como bizarra, comparando o cenário de um mundo sem emissões de carbono de origem humana (nos modelos, o período anterior ao século XIX) aos algoritmos habitualmente utilizados para projetar os aumentos de temperaturas, níveis do mar e outros parâmetros planetários teoricamente resultantes do aumento das concentrações de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, mormente, o dióxido de carbono (CO2). Ocorre que tais modelos matemáticos são notoriamente “engatilhados” para superestimar por larga margem a influência do CO2 e dos demais compostos de carbono na dinâmica climática, o que não tem comprovação factual nem mesmo nos registros do século XX e, muito menos, nos séculos e milênios anteriores à Revolução Industrial do século XVIII. Ou seja, trata-se de uma dupla falácia conceitual.

Em uma análise postada em seu blog, o cientista político Roger Pielke Jr., professor da Universidade do Colorado, observa:

“Em primeiro lugar, a pesquisa de atribuição de eventos é uma forma de ciência tática – e pesquisa realizada explicitamente para servir a fins legais e políticos. Esta não é minha opinião, mas foi declarada abertamente em muitas ocasiões pelos pesquisadores que desenvolvem e realizam pesquisas de atribuição de eventos. Tais pesquisas nem sempre são submetidas à revisão por pares, e isso muitas vezes é intencional, já que a revisão por pares leva muito mais tempo do que o ciclo das notícias. Em vez disso, os estudos de atribuição de eventos são geralmente promovidos por meio de boletins de imprensa.

“Por exemplo, os pesquisadores por trás da iniciativa World Weather Attribution (WWA) explicam que um de seus principais motivos para conduzir tais estudos é ‘aumentar a ‘imediatidade’ da mudança climática, aumentando assim o apoio à mitigação’. A cientista-chefe da WWA, Friederike Otto, explica: ‘Ao contrário de todos os outros ramos da ciência climática ou da ciência em geral, a atribuição de eventos foi originalmente sugerida com os tribunais em mente’. Outro cientista frequentemente citado que realiza análises rápidas de atribuição, Michael Wehner, resumiu assim a sua importância (grifos no original): ‘A mensagem mais importante desta (e de análises anteriores) é que ‘As mudanças climáticas perigosas já estão aqui!’.”

Com ele faz coro o físico Ralph B. Alexander, no relatório Contorted Science: The Flawed Logic of Extreme Event Attributionrecém publicado pela Global Waming Policy Foundation britânica:

“Os estudos de atribuição de eventos extremos são profundamente falhos, com erros lógicos e metodológicos fundamentais – resultado de tais estudos serem criados por razões legais e políticas, e não científicas. Os exemplos aqui apresentados, envolvendo ondas de calor, furacões e inundações, são apenas alguns dos inúmeros estudos equivocados que aparecem em relatórios científicos contemporâneos.

“Os relatórios são prejudicados pela falta de metodologia rigorosa, juntamente com uma série de práticas cientificamente falhas e desonestas. Estas práticas incluem o uso de conjuntos de dados de temperaturas que raramente remontam à era pré-industrial, que é o período para a maioria das comparações contrafactuais em estudos de atribuição; falta de atenção suficiente, ou nenhuma, às incertezas nas temperaturas e em outros dados ou previsões de modelos climáticos; e negligência de registros históricos que mostram que alguns eventos extremos estudados tiveram correspondência em eventos comparáveis ​​no passado.

“Os estudos de atribuição de eventos extremos, da forma como são conduzidos atualmente, não reforçam a crença equivocada de que os extremos climáticos estão aumentando devido ao aquecimento global. (…)”

Em uma reportagem sobre o recente relatório das academias de ciências, o jornal The New York Times admitiu: “O principal corpo de assessoria científica da nação emitiu um relatório apoiando um crescente campo da ciência que poderá ajudar a responsabilizar as companhias de petróleo, gás e carvão pelos danos causados pelos extremos do tempo.”

Em outras palavras, a AEE tem muito pouco a ver com ciência e muito mais com um esforço da indústria do catastrofismo climático para sustentar o seu negócio ameaçado pelo choque com a realidade, em especial, com um apoio pseudocientífico à prática da litigância climática, que prolifera em vários países (Brasil inclusive).

É sintomático que a Dra. Friederike Otto da WWA tenha sido nomeada coordenadora do capítulo 3 (Mudanças no clima regional e nos extremos e suas causas) do sétimo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), cuja divulgação está prevista para 2029.

Fundada em 2014 e até hoje dirigida pela Dra. Otto, a WWA é uma iniciativa ad hoc de um grupo de pesquisadores engajados na nobre missão de “alertar o mundo” para a necessidade urgente de reduzir drasticamente o uso de combustíveis fósseis, sob risco de agravar os eventos meteorológicos extremos, entre eles, integrantes do Imperial College (Londres), Instituto Meteorológico Real da Holanda (KNMI) e Red Cross Red Crescent Climate Centre.

Por não ser uma ONG tradicional, a WWA não divulga informações financeiras, sabendo-se apenas que entre os seus beneficiários encontram-se o Bezos Earth Fund do multibilionário Jeff Bezos, a Grantham Foundation e a European Climate Foundation, estas últimas, notórias patrocinadoras da agenda “descarbonizadora”.

Em síntese, a AEE não passa de mais uma ferramenta dos promotores das “finanças verdes” na tentativa de manterem relevante a sua agenda falaciosa, oportunista e disfuncional.

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