Zika e microcefalia – novas calamidades causadas pela falta de saneamento e saúde preventiva

saneamento-falta-de

O desabafo do radialista Rogério Jordão, da Rádio Santa Cruz AM, de Jequitinhonha (MG), talvez, seja a síntese mais contundente da calamidade representada pela explosão dos casos de microcefalia causados pelo vírus zika, que levou à primeira decretação de emergência sanitária nacional desde 1917, quando a gripe espanhola fez algumas dezenas de milhares de vítimas no País.

“O zika é o mais recente sintoma de um velho Brasil. Aquele que relega o básico ao campo das impossibilidades”, disse ele aos ouvintes, encerrando um comentário sobre o assunto, em 6 de janeiro.

Anteriormente, Jordão havia colocado o dedo em uma das grandes feridas da saúde pública nacional:

Difícil não associar a epidemia de zika, o primeiro grande drama nacional de 2016, ao velho problema da falta de saneamento básico. Saneamento, o tipo de obra invisível, que fica debaixo da terra, que aos políticos não rende maiores holofotes. Obras básicas que desaparecem do olhar público. Quantas vezes se pronunciou a palavra s-a-n-e-a-m-e-n-t-o na campanha presidencial de 2014? Quem falará disso nas eleições municipais que se avizinham?

Além das notórias deficiências de saneamento (um dos mais graves problemas nacionais, que, no entanto, recebe menos atenção e publicidade do que os prognósticos alarmistas sobre o clima de 2050), os especialistas são unânimes em apontar a incapacidade das autoridades federais, estaduais e municipais, de estabelecer uma política de saúde preventiva adequada.

Já em maio do ano passado, após o surgimento dos primeiros casos da febre Zika, na Bahia, um boletim da Associação Médica Brasileira (AMB), convenientemente intitulado “Zika Vírus: a doença que evoluiu na incompetência de uma saúde preventiva eficiente”, ouviu o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Dr. Érico Arruda, que foi direto:“Temos vários fatores para este desfecho, um deles é a maneira desorganizada de enfrentar as doenças infecciosas. Na saúde preventiva do país, sempre se corre para resolver os problemas de grande repercussão, e não se ataca os demais. Vivemos como bombeiros. Nos deslocamos todos para uma ação, e não conseguimos correr para outras.”

Segundo ele, outros fatores contribuintes para a pouca efetividade das políticas preventivas são: 1) o financiamento público insuficiente; 2) falta de saneamento básico; e 3) reduzida adesão da população à prevenção de doenças, devido à falta de educação.

O vírus zika foi isolado pela primeira vez na década de 1940, em estudos com macacos da floresta de Zika, em Uganda. Em 1964, foi identificado pela primeira vez em humanos, na Nigéria, e de lá se espalhou por outras regiões da África e Ásia. Em 2007, chegou à Oceania e os especialistas suspeitam de que o vírus tenha chegado ao Brasil em 2014, trazido por turistas que vieram assistir à Copa do Mundo, quando passou a ser transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti.

O boletim da AMB informa, ainda, que não existe vacina para a doença e a única forma de preveni-la é acabar com os focos de reprodução do mosquito transmissor, “tarefa que ultimamente não tem obtido êxito, haja vista a epidemia de dengue que assola várias regiões do Brasil”.

Em 2015, os casos notificados de dengue atingiram o recorde histórico de 1,5 milhão em todo o País, com 860 mortes.

A rigor, talvez, calamidade seja um substantivo suave para definir a gravidade da situação. Na quarta-feira 20 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou um novo boletim epidemiológico, dando conta do registro de quase 3.900 casos de microcefalia causada pelo Zika, 363 a mais que na semana anterior, o que significa uma proporção de dois novos casos por hora!

O vírus já foi registrado em 20 estados do País, com o Nordeste registrando a grande maioria das notificações (3.402 casos), seguido pelo Sudeste (240), Centro-Oeste (161), Norte (89) e Sul (apenas um caso confirmado). Pernambuco é o estado mais afetado, concentrando um terço dos casos confirmados.

Em uma reportagem publicada em 10 de janeiro, no portal UOL (“Saiba o que Fez do Brasil a ‘casa ideal’ para o Aedes Aegypti”), o jornalista Carlos Madeiro entrevistou vários especialistas, cujas opiniões foram convergentes.

Segundo a Dra. Vera Magalhães, professora titular de Doenças Infecciosas da Universidade Federal de Pernambuco:

O mosquito vive muito bem próximo ao ser humano, e como a maioria das pessoas mora de forma inadequada, sobrevivendo em grandes cidades com desigualdades sociais e alta densidade, produzindo muito lixo, facilita a manutenção dos focos. A urbanização desordenada é um fator determinante. (…) O poder público tem que traçar políticas públicas no sentido de tentar melhorar a qualidade de vida da população, como coletar o lixo em todas as áreas. O saneamento é fundamental. Estamos passando agora por um racionamento de água nas cidades do interior [de Pernambuco], principalmente a população de baixa renda não tem recipientes adequados, mas precisa acumular água. Isso tudo facilita a manutenção dos focos.

Para o Dr. Gastão Wagner de Sousa Campos, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a urbanização pesou, mas a gestão de saúde na área falhou ao longo dos anos por omissão do poder público:

Ela foi inadequada porque a gente não consegue ter uma ação unificada entre municípios, estados e a União. E a gente passou uma responsabilidade muito grande a cada família de eliminar os criadouros do mosquito, que é algo parcialmente correto. Precisa de uma intervenção de Estado com visitadores domiciliares, agentes sanitários, uma ação de melhorar coleta do lixo, ter reciclagem para diminuir a intervenção urbana de infestação. É o único recurso que temos para eliminar. (…) Eu propus ao Ministério da Saúde e aos estados criarem grupos unificados, com sanitaristas especialistas comandado os recursos federais, estaduais e municipais. Sair dessa situação vai exigir uma mobilização que tem ser feita de forma muito rápida e sincronizada. Não dá para um município e outro não fazer.

Com ele concorda a coordenadora do Comitê de Virologia Clínica da Sociedade Brasileira de Infectologia, Dra. Nancy Bellei:

A primeira questão é: se podemos fazer ações de intervenção em plano ministerial de programas epidemiológicos, que acreditam que têm efetividade, porque não fizemos antes? Nada disso que está posto agora [no novo plano de combate ao mosquito] é novo. Por que teve que chegar em uma situação crítica? Claro que houve falha. Podia não ter a microcefalia, mas já havia morte pela dengue. Se tivesse feito a ação, teríamos menos pacientes com dengue. Se tinha Exército, se tinha agentes, porque não fizemos esse combate?

Para complicar ainda mais, a emergência apanha o País às voltas com as restrições orçamentárias impostas pela crise fiscal e pela visão hiperfinancista prevalecente no comando da economia. Em uma das últimas sessões da Câmara dos Deputados, em dezembro, a deputada Carmen Zanotto (PPS-SC) lamentou o contingenciamento de R$ 13,4 bilhões do orçamento do Ministério da Saúde, e enfatizou que a epidemia de microcefalia implicará na necessidade de pesados investimentos para oferecer assistência às crianças vitimadas pela doença.

“Vamos precisar de centros de acolhimento e tratamento especializados para essas crianças. Quero fazer um apelo à equipe econômica. Hospitais filantrópicos, estados e municípios necessitam receber. Pelo amor de Deus, liberem pelo menos R$ 6 bilhões, porque estamos diante de uma emergência sanitária”, disse ela (Jornal da Ciência, 17/12/2015).

O apelo foi reforçado por seu colega Osmar Terra (PMDB-RS), que é médico:

Estamos tratando da mais terrível epidemia que vai assolar o País por muitos anos. Causa danos cerebrais irreversíveis. Crianças vão precisar do apoio da família e do setor público por toda da vida. Elas não vão falar nem andar. Se continuar a progressão atual da doença, em janeiro teremos mais de 8 mil crianças com microcefalia em 4 meses. No ano que vem, mais de 100 mil crianças vão nascer com microcefalia no Brasil.

Em sua tumba, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro (RJ), o grande médico sanitarista Oswaldo Cruz, que obteve grande sucesso em sua luta contra o Aedes Aegypti, no início do século XX, livrando a cidade da temível febre amarela, deve estar rolando de indignação.

x

Check Also

O MPF, a Funai e o fantástico mundo dos “espíritos”

Os indígenas brasileiros poderão agora pleitear indenizações por “danos espirituais” decorrentes de ações dos homens ...