Venezuela: o último suspiro da Guerra Fria

A dramática crise da Venezuela é emblemática da dinâmica de mudança de época em curso no planeta e, principalmente, da enorme dificuldade de as potências hegemônicas do Ocidente, EUA à frente, admitirem a impossibilidade de se solucionarem problemas como esse com o arcabouço binário da Guerra Fria.

De fato, as coalizões estabelecidas a favor e contra o desastroso governo do presidente Nicolás Maduro são reminiscências do moribundo confronto ideológico da segunda metade do século XX, com alguns pontos fora da curva, como a Turquia, integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e o Irã, alinhado com os EUA até a Revolução Islâmica de 1979, firmemente engajados ao lado da Rússia e da China, na oposição às grosseiras interferências externas encabeçadas por Washington, tendo a reboque a União Europeia (UE) e vários países ibero-americanos, Brasil inclusive.

Não obstante, é patente para qualquer observador minimamente lúcido que essa “lógica” binária e intervencionista não apresenta qualquer possibilidade de solução para o imbróglio venezuelano e, ao contrário, pode agravá-lo consideravelmente, com potenciais repercussões bastante negativas para todos os países da região. No extremo, uma intervenção militar externa, como a sugerida por alguns delirantes do aparato de relações exteriores de Washington, além de inviável em um país como a Venezuela, não seria chancelada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, devido ao veto certo da Rússia e da China. Sintomaticamente, em 26 de janeiro, as duas potências vetaram uma resolução de “apoio pleno” ao deputado Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional venezuelana, que quatro dias antes se declarou “presidente interino” do país.

Ademais, ainda que fosse tentada, uma invasão teria como resultado mais provável uma convulsão dilacerante, envolvendo as forças estrangeiras, as Forças Armadas divididas e os grupos paramilitares que apoiam o governo, com a população no meio do fogo cruzado, em um país onde existem centenas de milhares de armas automáticas nas mãos de paramilitares e civis. Evidentemente, apenas os mais insensíveis opositores de Maduro poderiam apoiar tal cenário.

A propósito, em função do alinhamento do Itamaraty com o bloco intervencionista, foi das mais oportunas a declaração do vice-presidente Hamilton Mourão, descartando de pronto qualquer possibilidade de participação brasileira em uma eventual aventura do gênero.

De resto, as ameaças externas, reforçadas pelo ultimato da UE, que lhe concedeu oito dias para a realização de novas eleições, têm servido apenas para reforçar a posição de Maduro.

Pesquisas realizadas pelo instituto Datanálisis mostram que, embora a grande maioria dos venezuelanos (67,9%, em janeiro) desaprove o presidente e gostaria de vê-lo fora do governo ainda este ano, pouco mais de um terço (35%, em novembro de 2018) apoiaria uma intervenção militar externa para removê-lo do poder. Por outro lado, 63% apoiariam uma solução negociada para a sua saída.

A posição beligerante de Washington ficou estabelecida com o apoio imediato ao deputado Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional, que se autonomeou presidente interino, inclusive, com um bloqueio de 7 bilhões de dólares de ativos financeiros da petroleira estatal PDVSA nos EUA, e a posterior nomeação do hiperfalcão “neoconservador” Elliott Abrams como representante especial para a Venezuela.

Abrams deverá coordenar os esforços diplomáticos para a substituição de Maduro por Guaidó. Ele é um veterano do aparato de operações de inteligência clandestinas estadunidense, um “guerreiro frio” por vocação, tendo desempenhado, na década de 1980, um papel-chave no escândalo Irã-Contras e nas guerras civis na Nicarágua e El Salvador. A sua nomeação, reminiscente do “Corolário Roosevelt” à Doutrina Monroe, mais conhecido como a “diplomacia das canhoneiras” do início do século XX, é uma evidência clara de que os “neocons” estão no comando pleno das relações exteriores do governo de Donald Trump.

Com sua notória aversão a duas instituições históricas da Ibero-América, a Igreja Católica e as Forças Armadas, Abrams foi um dos mentores da estratégia de erradicação da influência institucional e das capacidades operacionais e tecnológicas das Forças Armadas da região, no final da década de 1980, considerada crucial pelos ideólogos da nascente “Nova Ordem Mundial” anglo-americana.

Igualmente, foi um dos organizadores do chamado Projeto Democracia, articulado em torno da National Endowment for Democracy (NED), entidade criada na mesma época para promover “mudanças de regime” em todo o mundo, sob o disfarce da promoção da democracia, com a cooptação de indivíduos, organizações e grupos políticos dos países-alvo para a agenda de Washington.

Na Venezuela, o panorama se complica pela associação de Guaidó com as redes apoiadas pela NED.

Ou seja, de forma alguma, a “lógica” de Washington pode apresentar alguma solução factível e não incendiária para o imbróglio venezuelano. Até agora, Guaidó não tem demonstrado disposição para negociar com Maduro, que ainda tem o apoio da maioria das Forças Armadas, apesar das divisões que se mostram a cada dia. O que está claro é que não há solução sem a participação dos militares, os únicos que podem levar Maduro a uma saída negociada, e fora do princípio da não intervenção externa.

Em síntese, o enfrentamento do dilema exclui a agenda beligerante dos “neocons” e da NED. Neste contexto, a melhor abordagem é a dos governos do México e do Uruguai, que invocaram a “Doutrina Estrada”, surgida em resposta às intervenções estadunidenses no Hemisfério Ocidental, segundo a qual não cabe a outros países decidir a legitimidade de um governo nacional

Nesse contexto, é sempre útil recordar as oportunas advertências do ex-comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, sobre o erro histórico cometido pelo Brasil durante o confronto ideológico, como lembrou, por ocasião do Dia do Exército de 2016:

“Nas décadas de 1960,70 e 80, nós cometemos um erro: nós permitimos que a linha de confrontação da Guerra Fria passasse dentro da sociedade brasileira e nos dividisse. E o Brasil, que vinha com forte sentido de projeto, com ideologia de desenvolvimento, perdeu a coesão e esse sentido de projeto. Perdeu o rumo e a direção, o nosso país está à deriva. (…) Então, vejam que erro que cometemos. Nos falta esse sentido de projeto. Até porque precisamos recuperar isso, pois não estamos livres de acontecer uma nova Guerra Fria, que venha a nos dividir novamente.”

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